Sentei-me em frente a mim mesmo, como se estivesse a olhar-me no espelho, e decidi ouvir o que há tanto tempo falava em silêncio.
Os meus sentimentos traziam dores antigas, alegrias esquecidas e vestígios de tudo aquilo que um dia fomos.
Perguntei-lhes por que razão tantas vezes seguíamos em direções opostas como inimigos, quando éramos feitos da mesma substância e cada uma das minhas lágrimas também lhes pertencia.
Eu via-os de fora; eles conheciam-me por dentro. Talvez entre aquilo que mostrava ao mundo e aquilo que mantinha em segredo nascessem tantas guerras.
Mas como poderia continuar a lutar contra mim mesmo se a vida, tão breve e imensa, só acontece uma vez?
Então, calei-me. Já não soube onde terminava o pensamento e começava o sentir. Talvez nunca tivesse havido fronteira. Talvez a razão e o sentimento fossem apenas vozes distintas a tentar dizer a mesma coisa.
Não quis vencer. Quis ouvi-los, compreendê-los e reconhecê-los como parte de mim.
Já não quero passar a vida a tentar ser outra pessoa. Quero fazer as pazes com aquilo que sou, acolher aquilo que ainda não compreendo e aprender a existir sem estar sempre em conflito.
Quero apenas caber em mim.