Aquela parte de você bolando uma desculpa enquanto tá no celular é tão real que machuca. A gente sabe mentir melhor quando tá fingindo que não tá mentindo.
C16 - Fila de supermercado, dançarinos, show!
O dia tinha transcorrido tranquilamente: arrumar a casa, lavar roupas, tarefas atrasadas das meninas para levar para a escola, almoço, gritaria de crianças brincando e brinquedos espalhados pela…
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Aquela parte de você bolando uma desculpa enquanto tá no celular é tão real que machuca. A gente sabe mentir melhor quando tá fingindo que não tá mentindo.
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O dia tinha transcorrido tranquilamente: arrumar a casa, lavar roupas, tarefas atrasadas das meninas para levar para a escola, almoço, gritaria de crianças brincando e brinquedos espalhados pela casa. Depois do almoço com a família reunida, foi preciso arrumar as crianças correndo para levar à escola, ver o marido sair para o trabalho no segundo turno e, por fim, dar uma passada rápida no supermercado antes de ir à escola pegar as crianças. Vida de dona de casa, mãe aos quarenta anos de gêmeas de seis anos.
Uma tarde como outra qualquer para uma dona de casa, que está cuidando da casa, filhas e marido. Aquela rápida passada no supermercado, porque faltou algo, era também aquele momento de silêncio que só uma mãe cansada sabe valorizar. Vestindo um short folgado, camiseta branca com os dizeres “Eu sobrevivi porque Ele VIVE” e o cabelo num coque — sinalizando que não foi devidamente penteado, mas apenas enrolado às pressas e preso com uma presilha —, ela seguia pelos corredores, olhando marcas sem pressa, até chegar à fila do caixa, que estava um pouco longa para aquele horário. Pegou preguiçosamente o celular, que estava no silencioso de propósito, e foi verificar as mensagens.
Aquela prima que não vejo a anos, mas que sempre nos comunicamos e conversamos conversas triviais pelo aplicativos de mensagens, por que mora em outro estado. Cresceram juntas, tinham a mesma idade e ambas eram casadas e com filhos pequenos. Sempre tivemos em comum muitas afinidades.
— Eiii, você vai?👀🍆 — escreveu a prima, com um emoji no final.
— Vou aonde? — respondi por áudio.
No aplicativo, apareceu a notificação de que uma mensagem estava sendo digitada.
— Ao show do Too Hot?🐣🍆💥
— Show de quem? — continuei falando pelo áudio.
A indicação de digitação apareceu novamente.
— Coreanos.
— Show coreano? Aqui? Na minha cidade? É o BTS? — continuei o diálogo por áudio.
— Não, sua louca... não é o BTS.
— Eu não conheço bem os coreanos. Adoro os doramas, mas não conheço esse grupo.
— São strippers direto da Coreia.
— O quê? Strippers direto da Coreia? — A minha entonação carregava um ligeiro entusiasmo. — Te preserva — tentei repreender —, mulher, já estamos mais perto dos cinquenta do que dos trinta! — falei rindo.
— Vai ou não vai? — continuou a prima, em tom amistoso e debochado.
— Capaz — tentando demonstrar indignação — eu não, não vou... — respondi, tentando colocar desdém na voz. — Mas me envia o folder para eu dar uma olhada, só por curiosidade mesmo.
😆😆😆😆😆😆😆😆😆 - Emojis de risos apareceram na tela. Visualizando o folder na tela do celular, uma empolgação surgiu na dona Maria aqui:
— Você tem uma hora a sós com eles no camarim! — continuou a prima, empolgada. — Que pena que não é aqui.
— Não, não posso. Sabe, tenho crianças pequenas, marido, nunca iria a um lugar desses ver esse tipo de coisa — falei em áudio, enquanto saía do aplicativo de mensagens, abria o navegador para procurar babás para a próxima sexta-feira e checava a agenda online para saber o horário do turno de trabalho do marido, já bolando uma desculpa para poder ir.
— Você já está procurando babás e vendo o horário de trabalho do seu marido, né?😂😂😂😂 — enviou a prima, com vários emojis de risada.
— Eu te conto depois, estão me chamando.
A funcionária do caixa sinalizou que já era a minha vez. Eu estava alheia à fila de curiosos que, silenciosamente, ouviam a conversa.
Levando as compras ao estacionamento e colocando-as no carro, uma senhora de uns 70 anos se aproximou.
— Oi, boa tarde, querida. — Parecia uma senhorinha bem distinta, com roupas de vovozinha, com aquela aparência que te lembra da sua própria avó.
Eu sorri e retribuí o cumprimento.
— Querida, eu sem querer ouvi a sua conversa na fila do caixa. Será que pode me enviar o folder do show dos coreanos?
Sorri amigavelmente, sem surpresa, e pensei: Nos veremos no show.
Thoughts
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PermalinkNão a mulher do show dos coreanos enquanto tá na fila do supermercado 💀 a vizinha que ouve tudo e pede o folder no final é personagem demais pra ser verdade
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PermalinkVejo disso toda hora por aí. Mulher com as duas vidas lado a lado na mesma fila, elegendo qual vai vencer no próximo minuto.
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PermalinkAquela parte de você bolando uma desculpa enquanto tá no celular é tão real que machuca. A gente sabe mentir melhor quando tá fingindo que não tá mentindo.
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