Carregando…

C 02 : O Tear da Vida

BELADIA
Pública 1 conversa 5 pensamentos 52 votos positivos 0 voto negativo 0 série

O tear da vida não para. Ele continua tecendo, formando ciclos, aperfeiçoando e transformando existências. São movimentos que começam e terminam, mas algo permanece imutável: o afeto presente em…

In groups

Pensamento

Pensamento

fsantos1307

Tem uma Senhora que me espera no portão dela todo dia. Ela é como a tua avó, daquele tipo que ama sem precisar dizer nada.

Tem uma Senhora que me espera no portão dela todo dia. Ela é como a tua avó, daquele tipo que ama sem precisar dizer nada.

Conteúdo da publicação

O tear da vida não para. Ele continua tecendo, formando ciclos, aperfeiçoando e transformando existências. São movimentos que começam e terminam, mas algo permanece imutável: o afeto presente em todas as épocas. Ele pode mudar de formato, mas essa constância é o que sustenta a estrutura da trama através dos tempos. O amor é a linha que todos procuram e o fio que todos, de alguma forma, tecem. Nesse tear, assumimos o papel de artesãos. Tecemos diariamente mais um pedaço da nossa história, descobrindo que é preciso coragem para fazer a roda do tempo girar.

 Minha avó pertencia ao tempo do silêncio guardado. Se estivesse viva, estaria quase centenária e conviveria com o frescor do novo milênio que brilha nos olhos das minhas filhas. Pego-me pensando que o fio mais forte que ela me deixou de presente foi justamente a sua capacidade de amar. É esse mesmo sentimento que hoje transmito às minhas meninas, como um fio de ouro que bordo em seus coraçõezinhos.

No tear da vida, a herança mais valiosa não é material; são as lembranças costuradas com esse afeto, que guardamos e repassamos adiante.  Minhas filhas não terão a vida que a minha avó teve, porque a época atual acolhe e apoia mulheres que decidem mudar o traçado da própria história. A sociedade lhes garantiu direitos antes impensáveis: o divórcio, a autonomia, o direito soberano de dizer “não”. Minha avó não apenas viveu em uma era calada; ela foi uma mulher silenciada. 

Casou-se cedo, teve doze filhos e enfrentou a pobreza após o abandono de um marido infiel. Foi ela quem alimentou e educou as crianças e, quando eles se tornaram adultos, acabou incompreendida por mais da metade deles. Para o mundo, era vista como uma mulher forte, trabalhadora e dura. Mas a minha memória resgata a imagem de uma mulher frágil e carinhosa, que chorava baixinho ao contar as histórias do passado, uma alma que sofreu silenciosamente por toda a vida.  Amava os filhos acima de tudo e nunca reclamou do homem que a deixou; ironicamente, foi ela quem cuidou dele quando ele se viu idoso, doente e desamparado.

 Ela sempre me esperava para conversar na varandinha de chão vermelho da pequena casa onde vivia, oferecendo um café frio e um pedaço de queijo. Adorava me ensinar crochê e ponto cruz enquanto desfiava os causos de antigamente. Eu fingia interesse pelas agulhas, mas o que eu gostava mesmo era da sua companhia. Ela teria amado as minhas filhas. Iria rir ao vê-las dançando e gravando vídeos engraçados para as telas do mundo moderno, deixaria que lhe penteassem os cabelos brancos e, com certeza, amarraria uma fita vermelha no pulso de cada uma, avisando para nunca tirarem, só para espantar o mau-olhado.  Sempre que faço pipoca para as minhas meninas, a lembrança dela me visita. Ela preparava a pipoca e, se eu não aparecia, guardava-a com cuidado até o dia em que eu cruzasse a sua porta. Deve ser por isso que, até hoje, gosto tanto de pipoca velha. O afeto é esse fio resistente que permanece costurado na memória, imune ao tempo.

Minha mãe pertence à geração que veio logo depois, aquela que cresceu na transição de um mundo que começava a clamar por mudanças, mas que ainda carregava o peso que a sociedade despejava sobre os ombros femininos. O fio do amor também foi tramado em seus atos e permanece vivo em suas ações, mesmo que sua mente agora comece a se desfiar pelo esquecimento do tempo. Ainda assim, ela teimosamente se lembra de enviar mensagens de "bom dia" e "boa noite" todos os dias, tateando a modernidade na tela do celular para se fazer presente.  Tenho um irmão de quarenta e cinco anos que é pescador de alto-mar. Ela o acompanha todas as vezes em que ele embarca naquele barquinho e fica olhando o horizonte, até não ver mais o pequeno ponto flutuante. Faz sua oração na praia, pedindo proteção e um retorno seguro. Quando a tarde chega, ela vai novamente à beira-mar para esperar o barco com o filho voltar. O cuidado com o outro foi a linha que a manteve inteira; viveu e vive para o marido e para os quatro filhos, sempre tentando agradar e estender o seu abraço. Os mesmos fios que ela bordou em mim são aqueles que hoje entrelaço na vida das minhas filhas. 

Sigo tecendo e alinhavando memórias. Minhas filhas já não carregam o fardo do silêncio que nos foi imposto. Elas podem se expressar, escolher suas profissões e decidir o futuro que desejam desenhar. O tapete sobre o qual hoje pisam firmes foi pavimentado por mulheres que vieram antes, em uma trajetória marcada por lutas e lágrimas veladas. 

É assim, observando o movimento incessante desse tear implacável, que eu, como artesã do presente, recolho as linhas deixadas pelas minhas ancestrais para me tornar, eu mesma, o fio condutor das gerações futuras. 

Thoughts

  • juh2012

    Texto como esse me faz entender por que as pessoas se abrem tanto comigo. Acho que a gente precisa mesmo de alguém ouvindo essas histórias.

    Permalink
  • fsantos1307

    Tem uma Senhora que me espera no portão dela todo dia. Ela é como a tua avó, daquele tipo que ama sem precisar dizer nada.

    Permalink
  • escalaLonga

    Sou igual, volto sempre ao começo do capítulo. Aquela história da tua avó me perdeu na parte da varandinha com o café frio, tive que voltar.

    Permalink
  • deixoumarca

    Essa coisa de levar a marca de quem veio antes. Vejo todo dia aqui, gente querendo tatuar nomes de quem ficou.

    Permalink