Quando a pick-up apareceu eu já sabia que ia perder pra Fiorino. Carro de trabalho sempre ganha de carro bonito nessas histórias.
Bônus: A casinha: O novo refúgio para a intimidade.
Pensamento
Quando a pick-up apareceu eu já sabia que ia perder pra Fiorino. Carro de trabalho sempre ganha de carro bonito nessas histórias.
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Houve um tempo em que o banco de trás de um carro era suficiente para abrigar o mundo inteiro. Bastavam os vidros fechados, o cuidado com os movimentos do lado de fora e aquela sensação de que, por alguns minutos, ninguém mais existia. Era ali, entre o aperto dos bancos e o calor dos corpos, que os dois roubavam da vida um pouco de intimidade.
Mas até os esconderijos mais discretos acabam chamando a atenção de alguém.
Os encontros no estacionamento já não eram tão seguros. Um dos seguranças começou a desconfiar daquela movimentação repetida e passou a fazer rondas com uma frequência inconveniente. O lugar, que durante tanto tempo servira de ninho de amor aos errados, começou a perder o encanto. Já não era possível relaxar como antes. Havia sempre o receio de uma lanterna apontada na direção errada, de passos se aproximando ou de uma interrupção capaz de estragar tudo.
Foi então que o gênio resolveu a questão.
Ele tinha uma facilidade curiosa para encontrar saídas quando o assunto era estar com ela. Não fazia grandes discursos nem prometia o impossível. Simplesmente pensava, procurava e dava um jeito. Dessa vez, conseguiu emprestada a chave de uma casa pertencente a um amigo. O imóvel era mobiliado, estava desocupado e, por isso mesmo, permanecia à espera de alguma utilidade.
A solução parecia feita sob medida.
A casinha ficava longe, mas isso pouco importava. Tornou-se o refúgio dos dois, um pequeno território afastado dos olhos curiosos, onde podiam finalmente respirar sem a urgência de quem precisa ir embora a qualquer instante.
E havia algo naquela distância que tornava tudo diferente.
O caminho até a casa passou a fazer parte dos encontros. A viagem, que antes poderia parecer apenas um obstáculo, transformou-se numa espécie de prelúdio. Eles tinham tempo para conversar, contar histórias, rir de bobagens e falar sobre assuntos que talvez nunca encontrassem espaço entre um beijo apressado e outro. À medida que a cidade ficava para trás, também ficavam para trás as preocupações mais imediatas.
Eram conversas compridas, daquelas que começam num assunto qualquer e, sem que ninguém perceba, atravessam lembranças, desejos, confidências e silêncios confortáveis.
Talvez por isso os episódios naquela casa fossem tão mais íntimos. Não era apenas uma questão de privacidade. Era o tempo. O tempo de olhar, de escutar, de perceber os pequenos gestos e de descobrir que a intimidade também se constrói naquilo que acontece antes e depois do toque.
A casa era simples. Não tinha luxo, decoração sofisticada nem nada que merecesse aparecer numa revista. Era apenas uma casinha mobiliada, com o necessário para receber os dois e fazê-los esquecer, por algumas horas, o resto do mundo. Ainda assim, era muito confortável. Havia nela uma tranquilidade difícil de explicar, como se as paredes compreendessem que aquele lugar precisava ser discreto, acolhedor e um pouco cúmplice.
Até os vizinhos eram legais.
Ninguém parecia interessado demais na vida alheia. Havia cumprimentos, conversas ocasionais e aquela cordialidade simples dos lugares onde as pessoas ainda conseguem viver sem transformar a existência dos outros em assunto. Para quem estava acostumado a procurar cantos escondidos, encontrar um lugar assim era quase um luxo.
O gênio, por sua vez, dedicava-se muito a ela.
Conhecia suas preferências, observava seus gostos e guardava detalhes que talvez outras pessoas considerassem insignificantes. Sabia, por exemplo, que ela gostava de vê-lo dirigir. Não era uma coisa que ela precisasse explicar. Ele percebia.
E, um dia, conseguiu uma pick-up 4x4 turbo, grande, imponente e cheia de charme. Parecia o tipo de veículo que transformava qualquer estrada numa aventura. Ele queria levá-la àquela casa com mais conforto e, de certa maneira, oferecer a ela mais um motivo para sorrir durante o percurso.
A pick-up era bonita, não havia dúvida. Tinha presença, força e aquele porte que fazia as pessoas olharem duas vezes quando passava.
Mas não venceu a Fiorino.
A velha Fiorino, tão familiar, continuava ocupando um lugar especial na memória dos dois. Era ela quem tantas vezes os servira, quem conhecera os caminhos, os horários e os pequenos segredos daquela história. Talvez não tivesse a imponência da caminhonete, mas possuía algo que nenhum veículo novo poderia comprar: o peso das lembranças.
E, para ela, havia uma beleza particular em observar aquele homem ao volante. (até hoje)
Gostava de vê-lo dirigir como quem assiste a uma cena que conhece de cor, mas não se cansa de admirar. Seus braços eram magros, porém definidos, com as veias saltadas que se destacavam quando segurava o volante. Havia firmeza nos movimentos, domínio na maneira de conduzir e uma segurança que, aos olhos dela, tornava tudo ainda mais atraente.
Ela acompanhava aqueles gestos em silêncio, às vezes fingindo prestar atenção à estrada, quando, na verdade, prestava atenção nele.
E havia as mãos.
Aquelas mãos que conduziam o carro com habilidade e que, em determinados momentos, deixavam o volante por alguns segundos para procurar as coxas dela, num gesto familiar, carregado de intimidade. Era uma carícia breve, mas suficiente para fazê-la sorrir por dentro. Depois, a mão voltava à direção, a mão dela procurava os cabelos dele e a viagem continuava como se aquele pequeno acontecimento fosse a coisa mais natural do mundo.
Talvez fosse justamente isso que ela mais gostasse: a naturalidade de pertencer àquele instante, sem precisar pedir que ele acontecesse.
Hoje, quando as lembranças voltam, não é apenas da casa que ela se recorda. Lembra-se do caminho, das conversas demoradas, dos vizinhos simpáticos, da casinha simples e da velha Fiorino que parecia conhecer melhor do que ninguém a geografia daquele amor.
Lembra-se também da pick-up grande, dos braços ao volante e das mãos que, por alguns segundos, abandonavam a direção para encontrá-la.
E entende que a nostalgia tem dessas delicadezas cruéis: ela não devolve o passado, apenas acende a luz sobre os detalhes que o tempo quase conseguiu apagar.
Porque, no fim, talvez não fosse a casa o verdadeiro refúgio.
Talvez fosse o caminho até ela.
Aquele tempo roubado do mundo, em que duas pessoas podiam conversar sem pressa, tocar-se sem medo e acreditar, ainda que por algumas horas, que havia um lugar reservado para elas em algum canto da vida.
E, enquanto a estrada se estendia diante dos olhos, tudo parecia caber ali: o desejo, a cumplicidade, a simplicidade e aquela felicidade imperfeita que não precisava de muito para existir.
Bastavam um carro, uma estrada longa e alguém ao volante que soubesse exatamente para onde estava indo.
(Que memória agradável.)
Thoughts
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PermalinkAté os vizinhos eram gente boa, que sorte, querida! Lugar onde ninguém se mete na vida dos outros é raro hoje em dia.
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PermalinkO trajeto virando a melhor parte do encontro faz sentido pra mim. Os anos bons que tive com meu ex foram quase todos dentro de um carro, indo pra algum lugar, porque ali ninguém precisava encarar o outro e a conversa saía sozinha. Dá pra ver que a casinha servia de desculpa e a estrada fazia o resto.
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PermalinkQuando a pick-up apareceu eu já sabia que ia perder pra Fiorino. Carro de trabalho sempre ganha de carro bonito nessas histórias.
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PermalinkA Fiorino ganhou kkkk
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