Pular para o conteúdo
Carregando…

AUTISMO E A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE

Edson50

Conteúdo da publicação

AUTISMO E A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE: IDENTIFICAÇÃO DE SINAIS NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA E INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS INICIAIS

Por: Professor Psicopedagogo Institucional e Clínico - Edson Carlos de Sousa Leal

RESUMO

O diagnóstico precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA) constitui um importante instrumento para ampliar as possibilidades de intervenção, acompanhamento e promoção do desenvolvimento infantil. A identificação de sinais relacionados à comunicação, à interação social, aos comportamentos repetitivos e à presença de interesses restritos pode ocorrer ainda nos primeiros anos de vida, período marcado por intensa plasticidade cerebral. Este artigo tem como objetivo discutir a importância da identificação precoce do autismo, destacando sinais de alerta presentes na primeira infância, instrumentos de rastreamento, processo diagnóstico e possibilidades de intervenções terapêuticas iniciais. A discussão fundamenta-se em autores como Bosa, Lampreia, Garcia, Zwaigenbaum, Rogers, Dawson, Klin e outros pesquisadores, além de documentos do Ministério da Saúde e da legislação brasileira. Defende-se que o diagnóstico precoce não deve ser compreendido como simples rotulação da criança, mas como possibilidade de acesso oportuno a cuidados, estimulação, orientação familiar e acompanhamento multiprofissional. Ressalta-se, ainda, que o rastreamento não equivale ao diagnóstico e que a avaliação deve ser clínica, cuidadosa, multidisciplinar e individualizada. Conclui-se que reconhecer precocemente sinais de desenvolvimento atípico pode reduzir o tempo entre a identificação das necessidades da criança e o início dos apoios, favorecendo comunicação, autonomia, participação social e qualidade de vida.

Palavras-chave: Autismo. Transtorno do Espectro Autista. Diagnóstico precoce. Intervenção precoce. Desenvolvimento infantil.

1 INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode afetar, em diferentes graus e combinações, a comunicação e a interação social, além de estar associada a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. A heterogeneidade do espectro faz com que as manifestações variem significativamente de uma criança para outra.

Essa diversidade representa um dos principais desafios para a identificação precoce. Enquanto algumas crianças apresentam sinais bastante evidentes durante os primeiros anos, outras podem apresentar características mais sutis, fazendo com que a identificação ocorra posteriormente.

O Ministério da Saúde destaca que os primeiros sinais podem ser observados ainda nos primeiros meses de vida e que a avaliação do desenvolvimento infantil deve fazer parte do acompanhamento regular da criança. Entre os sinais de alerta estão ausência ou redução do contato visual, ausência de resposta ao nome, atraso ou regressão da linguagem, pouco interesse pelas interações sociais e comportamentos repetitivos.

Nesse contexto, o diagnóstico precoce assume importância não apenas clínica, mas também social, educacional e familiar.

A identificação antecipada pode possibilitar que a criança tenha acesso mais rapidamente a estratégias de intervenção, enquanto a família recebe informações e orientação para compreender as características do desenvolvimento infantil.

Zwaigenbaum et al. (2015) defendem a importância da identificação e intervenção em idades cada vez mais precoces, destacando o potencial das experiências iniciais de desenvolvimento para a trajetória posterior da criança.

O presente artigo tem como objetivo analisar a importância do diagnóstico precoce do TEA, abordando os principais sinais de alerta nos primeiros anos de vida, os processos de rastreamento e avaliação e as possibilidades de intervenção terapêutica inicial.

2 AUTISMO E DESENVOLVIMENTO INFANTIL

A primeira infância é um período de profundas transformações no desenvolvimento humano. É nessa fase que ocorrem importantes aquisições relacionadas à linguagem, à comunicação, à motricidade, à interação social, à autonomia e à construção de vínculos.

Por essa razão, alterações significativas no desenvolvimento precisam ser observadas com atenção.

É importante destacar, entretanto, que um sinal isolado não significa necessariamente autismo.

Uma criança que demora para falar, por exemplo, pode apresentar diferentes razões para esse atraso. Da mesma maneira, uma criança que não mantém contato visual em determinada situação não deve ser automaticamente considerada autista.

O diagnóstico do TEA é clínico e exige avaliação cuidadosa.

O Ministério da Saúde define o TEA como um transtorno do neurodesenvolvimento associado a desenvolvimento atípico, alterações comportamentais e dificuldades na comunicação e interação social, acompanhadas de padrões repetitivos e interesses restritos.

Essa compreensão é fundamental para evitar diagnósticos precipitados.

O diagnóstico precoce é importante, mas diagnóstico precoce não significa diagnóstico apressado.

Essa diferença precisa ser enfatizada.

3 A IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO NOS PRIMEIROS ANOS

A literatura científica demonstra que sinais relacionados ao TEA podem aparecer antes dos três anos de idade.

Garcia e Lampreia (2011), ao analisarem estudos retrospectivos e prospectivos sobre os sinais precoces de risco para autismo, discutem a possibilidade de identificação de características associadas ao TEA ainda durante o primeiro ano de vida.

As autoras ressaltam, contudo, limites metodológicos importantes nessa identificação precoce.

Esse aspecto é particularmente importante porque impede uma compreensão simplista do diagnóstico precoce.

Não se trata de procurar “um comportamento de autismo” em um bebê.

Trata-se de observar o desenvolvimento como um conjunto.

A criança está desenvolvendo formas de comunicação?

Responde quando é chamada?

Compartilha atenção com outras pessoas?

Demonstra interesse pelas pessoas?

Utiliza gestos para comunicar desejos?

Imita ações?

Desenvolve linguagem de acordo com sua trajetória individual?

Apresenta perda de habilidades que anteriormente possuía?

Essas perguntas fazem parte de uma observação mais ampla do desenvolvimento.

4 OS PRIMEIROS SINAIS DE ALERTA

O Ministério da Saúde apresenta diferentes marcos esperados do desenvolvimento infantil e sinais que merecem investigação. Entre eles estão dificuldades relacionadas ao contato visual, resposta ao nome, desenvolvimento da linguagem, interesse social, brincadeira simbólica e presença de comportamentos repetitivos.

Entre os sinais que podem justificar uma avaliação especializada encontram-se:

* ausência ou redução significativa de contato visual;

* pouca resposta ao nome;

* atraso ou ausência de fala;

* perda de habilidades anteriormente adquiridas;

* dificuldade para compartilhar interesses;

* ausência ou redução de gestos comunicativos;

* pouco interesse pela interação social;

* dificuldade de imitação;

* brincadeiras repetitivas;

* apego excessivo a determinadas rotinas;

* movimentos repetitivos;

* interesses muito restritos;

* reações incomuns a sons, texturas, luzes ou outros estímulos sensoriais.

Esses sinais não constituem, isoladamente, diagnóstico de TEA.

O próprio Ministério da Saúde ressalta que os sinais de alerta indicam a necessidade de avaliação multiprofissional, mas não garantem que a criança tenha autismo.

Essa distinção é fundamental para evitar tanto a negligência quanto a patologização excessiva do desenvolvimento infantil.

5 O DESENVOLVIMENTO DA COMUNICAÇÃO COMO INDICADOR

A comunicação ocupa posição central na identificação precoce do TEA.

Antes mesmo de falar, a criança desenvolve formas de comunicação não verbal.

Ela olha, aponta, sorri, imita, vocaliza, busca o adulto e compartilha atenção.

A ausência ou alteração dessas experiências comunicativas pode constituir sinal de alerta.

Bosa (2002), ao discutir a atenção compartilhada e a identificação precoce do autismo, destaca a relevância desse fenômeno para a compreensão do desenvolvimento social e comunicativo da criança.

A atenção compartilhada envolve a capacidade de coordenar a atenção com outra pessoa em relação a um objeto, acontecimento ou experiência.

Por exemplo, quando uma criança vê um cachorro, olha para o animal e depois olha para o pai para compartilhar aquele interesse, existe uma experiência de atenção compartilhada.

Alterações nesse processo podem aparecer precocemente.

Por isso, observar a forma como a criança compartilha experiências com outras pessoas é tão importante quanto observar sua capacidade de falar.

6 A REGRESSÃO DO DESENVOLVIMENTO: UM SINAL QUE MERECE ATENÇÃO

Um dos sinais particularmente importantes é a regressão.

Algumas crianças apresentam desenvolvimento aparentemente esperado e, posteriormente, perdem determinadas habilidades já adquiridas.

Essa perda pode ocorrer na linguagem, na interação social ou em outras competências.

A regressão não significa automaticamente autismo, mas deve ser investigada.

Diante da perda de habilidades, a família deve procurar avaliação profissional o quanto antes.

O Ministério da Saúde destaca o atraso ou a regressão de habilidades previamente adquiridas entre os sinais que merecem atenção na avaliação do desenvolvimento.

Nesse contexto, esperar que “a criança volte a falar sozinha” ou “amadureça com o tempo” pode atrasar o acesso a cuidados importantes.

7 DIAGNÓSTICO PRECOCE NÃO É DIAGNÓSTICO PRECIPITADO

Um dos maiores desafios relacionados ao autismo é encontrar equilíbrio entre duas situações igualmente prejudiciais:

a) negligenciar sinais importantes;

b) interpretar qualquer diferença como autismo.

O diagnóstico precisa ser realizado por profissionais capacitados e baseado em avaliação clínica abrangente.

A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde enfatiza que o diagnóstico de TEA é sindrômico e que a comunicação diagnóstica deve ser resultado de um processo cuidadoso e compartilhado com a família.

Em outras palavras, identificar precocemente não significa etiquetar precocemente.

Significa reconhecer uma possível necessidade de investigação e apoio.

A diferença é essencial.

8 RASTREAMENTO E DIAGNÓSTICO: PROCESSOS DIFERENTES

É necessário distinguir rastreamento de diagnóstico.

O rastreamento procura identificar crianças que apresentam maior probabilidade de possuir determinada condição e que, por isso, necessitam de avaliação mais aprofundada.

O diagnóstico, por outro lado, exige uma investigação clínica mais abrangente.

No Brasil, o Ministério da Saúde informa que o instrumento M-CHAT-R/F pode ser utilizado entre 16 e 30 meses para rastreamento de sinais de risco para TEA. O instrumento não possui finalidade diagnóstica.

Essa diferença precisa ser conhecida por famílias e profissionais.

Um resultado positivo no rastreamento não significa:

“A criança é autista.”

Significa:

“Essa criança apresenta sinais que justificam uma avaliação mais aprofundada.”

Esse cuidado evita tanto o excesso de diagnósticos quanto a falsa tranquilização diante de um resultado negativo.

9 A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE COMO PORTA DE ENTRADA

A Atenção Primária à Saúde (APS) possui papel estratégico na identificação precoce.

Profissionais que acompanham o crescimento e o desenvolvimento infantil têm oportunidades frequentes para observar mudanças no comportamento, comunicação e interação social.

O Ministério da Saúde destaca que a APS pode realizar rastreamento, acompanhamento do desenvolvimento, orientação às famílias e articulação com outros serviços da rede.

Essa estratégia é especialmente importante porque a criança não precisa esperar chegar à escola para que seus sinais sejam reconhecidos.

Pediatras, enfermeiros, agentes comunitários, profissionais da saúde da família e outros trabalhadores capacitados podem contribuir para a identificação de alterações do desenvolvimento.

A escola também possui papel importante, sobretudo na observação do comportamento social e comunicativo, embora não seja responsável pelo diagnóstico clínico.

10 A ESCOLA COMO ESPAÇO DE IDENTIFICAÇÃO DE SINAIS

A escola não diagnostica autismo.

Entretanto, professores e profissionais da educação podem perceber sinais que não haviam sido observados anteriormente.

A convivência diária permite observar situações relacionadas a:

* comunicação;

* interação com outras crianças;

* brincadeiras;

* linguagem;

* comportamento;

* flexibilidade diante de mudanças;

* participação em atividades coletivas;

* respostas sensoriais.

Quando um professor identifica um padrão persistente de desenvolvimento atípico, deve comunicar a equipe gestora e dialogar com a família de maneira cuidadosa.

O professor não deve dizer:

“Seu filho é autista.”

Pode dizer:

“Observamos algumas características no desenvolvimento e seria importante conversar com um profissional de saúde para avaliar melhor essas situações.”

Essa postura protege a criança e respeita os limites profissionais da escola.

11 A FAMÍLIA NO PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO

A família ocupa posição central na identificação precoce.

Pais e responsáveis conhecem a criança em diferentes contextos e podem perceber mudanças que não aparecem necessariamente durante uma consulta ou na escola.

Por isso, suas observações precisam ser valorizadas.

A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde destaca a importância de uma avaliação ampla que considere a criança e sua família, especialmente quando são identificados sinais de alerta.

A família também precisa receber informações claras.

Uma comunicação inadequada pode produzir medo, culpa e desinformação.

É importante deixar claro que o autismo não decorre de falta de amor, educação inadequada ou culpa dos pais.

O foco deve estar nas necessidades da criança e nas possibilidades de apoio.

12 PLASTICIDADE CEREBRAL E INTERVENÇÃO PRECOCE

A importância da intervenção precoce está relacionada, entre outros fatores, à plasticidade cerebral.

Os primeiros anos de vida constituem período de grande desenvolvimento neurológico, durante o qual as experiências ambientais podem influenciar processos de aprendizagem e desenvolvimento.

O Ministério da Saúde destaca que os primeiros anos são críticos para o desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas e sensoriais e que a estimulação precoce deve ser iniciada diante de sinais de alteração do desenvolvimento, mesmo enquanto a investigação diagnóstica está em andamento.

O documento afirma:

“A identificação de sinais de atrasos no desenvolvimento possibilita o início imediato de intervenções que são extremamente importantes, uma vez que os resultados positivos em resposta a terapias são mais significativos quanto mais precocemente instituídos” (BRASIL, 2021, não paginado).

Essa perspectiva representa uma mudança importante.

Não é necessário esperar meses ou anos para começar a oferecer estímulos apropriados quando existem sinais claros de desenvolvimento atípico.

A intervenção pode começar enquanto a avaliação diagnóstica prossegue.

13 INTERVENÇÃO PRECOCE: O QUE SIGNIFICA?

Intervenção precoce não significa uma única terapia.

Trata-se de um conjunto de ações planejadas de acordo com as necessidades da criança.

Pode envolver, conforme avaliação individual:

* fonoaudiologia;

* terapia ocupacional;

* psicologia;

* fisioterapia;

* acompanhamento médico;

* intervenção comportamental;

* estratégias de comunicação;

* orientação parental;

* estimulação de habilidades sociais;

* apoio educacional;

* desenvolvimento da autonomia.

O Ministério da Saúde ressalta que não existe uma única abordagem terapêutica superior para todas as pessoas com TEA; o cuidado deve ser centrado nas necessidades singulares de cada pessoa.

Essa observação é importante porque evita a ideia de que existe uma “terapia milagrosa”.

O tratamento deve ser individualizado, baseado em evidências e acompanhado regularmente.

14 BOSA E A IMPORTÂNCIA DAS INTERVENÇÕES PSICOEDUCACIONAIS

Bosa (2006) realizou uma revisão das intervenções psicoeducacionais utilizadas no autismo e ressaltou a complexidade da escolha terapêutica.

A autora chama atenção para o fato de que diferentes crianças podem responder de maneiras diferentes às intervenções.

Em vez de buscar uma solução única, é necessário considerar as características da criança e da família.

Em sua revisão, Bosa (2006) conclui que:

“não há uma abordagem única que seja totalmente eficaz para todas as crianças durante todo o tempo” (BOSA, 2006, p. s52).

A afirmação permanece extremamente relevante.

O debate sobre intervenção precoce não deve transformar a família em consumidora de um mercado de terapias.

É preciso perguntar:

Qual é a necessidade daquela criança?

Qual intervenção possui evidências de benefício para aquela necessidade?

Como os resultados serão acompanhados?

A intervenção está favorecendo comunicação, autonomia e participação?

Essas perguntas devem orientar o planejamento terapêutico.

15 ROGERS, DAWSON E AS INTERVENÇÕES NOS PRIMEIROS ANOS

Rogers e Dawson constituem referências importantes na discussão internacional sobre intervenção precoce.

O Early Start Denver Model (ESDM), desenvolvido por pesquisadores associados a essa abordagem, combina princípios desenvolvimentais e estratégias comportamentais em contextos naturais de aprendizagem.

Em ensaio clínico randomizado envolvendo crianças pequenas com autismo, Dawson et al. (2010) investigaram a intervenção baseada no ESDM e encontraram resultados favoráveis em diferentes áreas do desenvolvimento.

A experiência reforça a importância de intervenções estruturadas, individualizadas e incorporadas a relações significativas.

A intervenção precoce não precisa acontecer exclusivamente em ambientes clínicos.

Atividades cotidianas, brincar, alimentar-se, vestir-se, comunicar desejos, interagir com familiares, também podem constituir oportunidades de aprendizagem.

16 A PARTICIPAÇÃO DOS PAIS NAS INTERVENÇÕES

A família não deve ser compreendida apenas como espectadora do tratamento.

Pais e cuidadores podem aprender estratégias para favorecer a comunicação e o desenvolvimento durante as atividades cotidianas.

Pesquisas relacionadas a intervenções precoces destacam a importância do envolvimento dos pais e do ensino de estratégias que possam ser utilizadas nas rotinas familiares.

Isso não significa transformar pais em terapeutas.

Significa capacitá-los para reconhecer oportunidades de comunicação e aprendizagem no cotidiano.

Uma refeição pode ser oportunidade para desenvolver comunicação.

Uma brincadeira pode estimular atenção compartilhada.

O momento de vestir-se pode favorecer autonomia.

Uma ida ao parque pode criar oportunidades de interação social.

A intervenção, portanto, não precisa estar restrita à clínica.

17 ZWAIGENBAUM E A IDENTIFICAÇÃO PRECOCE

Zwaigenbaum et al. (2015) constituem uma das principais referências na discussão internacional sobre identificação precoce do TEA.

Os autores analisaram evidências relacionadas aos primeiros sinais e às possibilidades de identificação antes dos três anos.

A literatura dessa área demonstra que características associadas ao autismo podem ser observadas precocemente, embora a manifestação e a estabilidade desses sinais variem entre as crianças.

Os pesquisadores também destacam a necessidade de aprimorar estratégias de rastreamento e de ampliar a capacidade dos profissionais para reconhecer sinais precoces.

Isso significa que o diagnóstico precoce depende não apenas das famílias, mas também da capacidade do sistema de saúde de reconhecer e encaminhar adequadamente as crianças.

18 GARCIA E LAMPREIA: OS LIMITES DA IDENTIFICAÇÃO NO PRIMEIRO ANO

Garcia e Lampreia (2011) apresentam uma contribuição importante ao alertarem para os limites da identificação de risco no primeiro ano.

As autoras analisaram 24 estudos sobre sinais precoces e demonstraram que a identificação muito precoce possui desafios metodológicos.

Segundo as autoras, a dificuldade está, em parte, na busca por comportamentos isolados e discretos.

Em contrapartida, a observação de padrões de interação e aspectos afetivos pode oferecer informações relevantes.

Essa perspectiva evita um erro comum: tentar identificar o autismo a partir de uma lista rígida de comportamentos.

O desenvolvimento infantil é dinâmico.

Uma criança pode apresentar determinado comportamento em um momento e modificá-lo posteriormente.

Por isso, o acompanhamento longitudinal é fundamental.

19 O DIAGNÓSTICO COMO PROCESSO MULTIPROFISSIONAL

A avaliação do TEA deve considerar diferentes dimensões do desenvolvimento.

Pode envolver aspectos:

* cognitivos;

* linguísticos;

* comportamentais;

* motores;

* sociais;

* sensoriais;

* emocionais;

* adaptativos.

O Ministério da Saúde recomenda uma investigação clínica e diferencial, realizada por profissionais capacitados, considerando a criança de maneira ampla.

O diagnóstico não deve ser baseado exclusivamente em um teste.

Instrumentos de rastreamento auxiliam na identificação de risco, mas não substituem avaliação clínica.

Essa distinção é particularmente importante diante da popularização de testes disponíveis na internet.

Questionários podem servir como ponto de partida para uma conversa com profissionais, mas não devem ser utilizados para autodiagnóstico ou diagnóstico informal de crianças.

20 DIAGNÓSTICO PRECOCE E QUALIDADE DE VIDA

O objetivo principal do diagnóstico precoce não deve ser simplesmente dar um nome à condição.

Seu verdadeiro valor está na possibilidade de compreender melhor a criança e organizar apoios.

Uma identificação adequada pode facilitar:

* acesso a terapias;

* orientação familiar;

* acompanhamento do desenvolvimento;

* adaptações educacionais;

* apoio à comunicação;

* desenvolvimento da autonomia;

* prevenção de dificuldades secundárias;

* articulação entre saúde e educação.

O Ministério da Saúde ressalta que intervenções iniciadas precocemente podem favorecer habilidades sociais e comunicativas, funcionamento intelectual, qualidade de vida e autonomia. Portanto, o diagnóstico deve abrir portas, e não fechar possibilidades.

21 O PERIGO DA ESTIGMATIZAÇÃO

Apesar dos benefícios da identificação precoce, é necessário reconhecer que um diagnóstico também pode ser acompanhado de estigma.

Algumas famílias podem enfrentar preconceito, culpabilização ou expectativas negativas.

Existe o risco de a criança passar a ser vista apenas através do diagnóstico.

Isso precisa ser evitado.

O autismo não resume a identidade de uma pessoa.

A criança continua sendo criança, com interesses, afetos, capacidades, dificuldades, desejos e potencialidades.

Uma perspectiva adequada precisa equilibrar reconhecimento das necessidades de apoio e valorização das potencialidades.

22 DIAGNÓSTICO PRECOCE E EDUCAÇÃO

A identificação precoce também produz impactos educacionais.

Quanto antes a escola conhece as características e necessidades do estudante, maiores são as possibilidades de planejamento adequado.

A educação infantil possui papel particularmente importante.

Professores podem observar:

* interação com outras crianças;

* desenvolvimento da linguagem;

* participação em brincadeiras;

* resposta às propostas coletivas;

* flexibilidade diante de mudanças;

* formas de comunicação;

* interesses restritos;

* comportamentos repetitivos.

Essas observações podem ser compartilhadas com a família e, quando necessário, contribuir para o encaminhamento aos serviços de saúde.

A escola, portanto, participa da rede de proteção e cuidado, mas não substitui o diagnóstico clínico.

23 A ARTICULAÇÃO ENTRE SAÚDE, EDUCAÇÃO E FAMÍLIA

O cuidado da criança autista exige articulação entre diferentes setores.

Saúde, educação e família possuem responsabilidades distintas, mas complementares.

O Ministério da Saúde recomenda que a Atenção Primária trabalhe de forma integrada com escolas, assistência social e outros setores, visando reduzir barreiras e ampliar o cuidado.

Essa articulação pode ocorrer por meio de:

* reuniões intersetoriais;

* diálogo entre escola e família;

* encaminhamentos responsáveis;

* compartilhamento de informações pertinentes;

* planos de acompanhamento;

* orientação aos professores;

* acompanhamento da evolução da criança.

O objetivo é evitar que a família precise percorrer sozinha diferentes serviços em busca de respostas.

24 DESAFIOS DO DIAGNÓSTICO PRECOCE NO BRASIL

Apesar dos avanços, ainda existem obstáculos importantes.

Entre eles:

1. dificuldade de acesso a especialistas;

2. desigualdade regional;

3. demora em determinados processos diagnósticos;

4. insuficiência de profissionais capacitados;

5. desconhecimento dos sinais por parte das famílias;

6. falta de informação sobre os serviços disponíveis;

7. dificuldade de articulação entre saúde e educação;

8. diferenças na disponibilidade de terapias;

9. preconceito e estigma;

10. confusão entre rastreamento e diagnóstico.

Esses problemas demonstram que diagnóstico precoce não depende exclusivamente da capacidade técnica dos profissionais.

Depende também de políticas públicas.

O Ministério da Saúde criou, em 2024, um Grupo de Trabalho Ministerial sobre TEA com o objetivo de qualificar e integrar ações relacionadas ao cuidado das pessoas autistas e atualizar políticas e linhas de cuidado.

25 INTERVENÇÃO PRECOCE E RESPEITO À SINGULARIDADE

A intervenção precoce deve ser individualizada.

Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades completamente diferentes.

Uma pode precisar principalmente de apoio à comunicação.

Outra pode necessitar de estratégias para autonomia.

Outra pode apresentar maiores dificuldades sensoriais.

Outra pode ter bom desenvolvimento linguístico e necessitar de apoio nas habilidades sociais.

Por isso, a intervenção deve partir da avaliação das necessidades reais.

A abordagem deve ser acompanhada por objetivos claros e avaliação periódica dos resultados.

O Ministério da Saúde afirma que o cuidado deve ser centrado na pessoa e em suas necessidades singulares.

Essa orientação representa uma perspectiva mais humana e menos padronizada do tratamento.

26 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O diagnóstico precoce do Transtorno do Espectro Autista constitui importante ferramenta para ampliar as possibilidades de cuidado, intervenção e inclusão.

A identificação de sinais nos primeiros anos de vida permite que famílias e profissionais compreendam mais rapidamente possíveis diferenças no desenvolvimento e procurem avaliação especializada.

Entretanto, é necessário evitar dois extremos.

O primeiro é ignorar sinais importantes sob a justificativa de que “cada criança tem seu tempo”.

O segundo é transformar qualquer diferença do desenvolvimento em diagnóstico de autismo.

Entre esses extremos existe o caminho da observação cuidadosa, do rastreamento adequado, da avaliação multiprofissional e do acompanhamento contínuo.

Autores como Bosa, Garcia, Lampreia, Zwaigenbaum, Rogers e Dawson demonstram, a partir de diferentes perspectivas, a importância de compreender o desenvolvimento infantil precocemente e de oferecer intervenções adequadas às necessidades individuais.

No Brasil, o Ministério da Saúde também reconhece a importância da identificação precoce e orienta que intervenções de apoio sejam iniciadas diante de sinais de alteração do desenvolvimento, sem necessariamente aguardar a conclusão de todo o processo diagnóstico.

Portanto, o diagnóstico precoce deve ser entendido não como uma sentença sobre o futuro da criança, mas como uma possibilidade de ampliar caminhos.

Quanto mais cedo forem reconhecidas as necessidades, maiores são as possibilidades de organizar apoios adequados.

A intervenção precoce pode contribuir para comunicação, interação social, autonomia, aprendizagem e qualidade de vida.

Contudo, nenhuma intervenção deve buscar “apagar” a identidade da pessoa autista.

O objetivo deve ser favorecer desenvolvimento, participação, autonomia e bem-estar.

A criança autista não precisa apenas de um diagnóstico.

Ela precisa de uma rede que a compreenda.

Precisa de uma família orientada.

Precisa de profissionais capacitados.

Precisa de uma escola inclusiva.

Precisa de políticas públicas.

E, sobretudo, precisa que seus primeiros sinais sejam vistos não como motivo para medo ou preconceito, mas como oportunidade para oferecer apoio no momento em que ele pode ser mais significativo.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BOSA, Cleonice Alves. Atenção compartilhada e identificação precoce do autismo. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 15, n. 1, p. 77-88, 2002. DOI: 10.1590/S0102-79722002000100010.

BOSA, Cleonice Alves. Autismo: intervenções psicoeducacionais. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 28, supl. 1, p. S47-S53, 2006. DOI: 10.1590/S1516-44462006000500007.

BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Brasília, DF: Presidência da República, 2012.

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de atenção à reabilitação da pessoa com transtornos do espectro do autismo (TEA). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de estimulação precoce: crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. A referência é também listada na Linha de Cuidado do TEA do Ministério da Saúde.

BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de cuidado para a atenção às pessoas com transtornos do espectro do autismo e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015.

BRASIL. Ministério da Saúde. Transtorno do Espectro Autista (TEA) na criança: Linhas de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021.

DAWSON, Geraldine et al. Randomized, controlled trial of an intervention for toddlers with autism: the Early Start Denver Model. Pediatrics, v. 125, n. 1, p. e17-e23, 2010. DOI: 10.1542/peds.2009-0958.

GARCIA, Mariana Luisa; LAMPREIA, Carolina. Limites e possibilidades da identificação de risco de autismo no primeiro ano de vida. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 24, n. 2, p. 300-308, 2011. DOI: 10.1590/S0102-79722011000200011.

KLIN, Ami. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 28, supl. 1, p. S3-S11, 2006.

ROGERS, Sally J.; DAWSON, Geraldine. Early Start Denver Model for young children with autism: promoting language, learning, and engagement. New York: Guilford Press, 2010.

ROGERS, Sally J.; VISMARA, Laurie A. Evidence-based comprehensive treatments for early autism. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, v. 37, n. 1, p. 8-38, 2008.

SACREY, Lori-Ann R.; BENNETT, Jeffrey A.; ZWAIGENBAUM, Lonnie. Early infant development and intervention for autism spectrum disorder. Journal of Child Neurology, v. 30, n. 14, p. 1921-1929, 2015. DOI: 10.1177/0883073815601500.

ZWAIGENBAUM, Lonnie et al. Early identification of autism spectrum disorder: recommendations for practice and research. Pediatrics, v. 136, supl. 1, p. S10-S40, 2015. DOI: 10.1542/peds.2014-3667C.

ZWAIGENBAUM, Lonnie et al. Early intervention for children with autism spectrum disorder under 3 years of age: recommendations for practice and research. Pediatrics, v. 136, supl. 1, p. S60-S81, 2015. DOI: 10.1542/peds.2014-3667E.

Related posts

Pública 0 conversa 0 pensamento 9 votos positivos 0 voto negativo 0 série

AUTISMO E A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE: IDENTIFICAÇÃO DE SINAIS NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA E INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS INICIAIS

Em grupos