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Bebida alcoólica na garrafa de água

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Bebida alcoólica na garrafa de água: o novo risco nas escolas

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Bebida alcoólica na garrafa de água: o novo risco nas escolas

Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal

A escola brasileira enfrenta um desafio que vai muito além da transmissão de conteúdos curriculares. Entre as novas situações que exigem atenção de gestores, professores e famílias está a entrada e o consumo clandestino de bebidas alcoólicas dentro do ambiente escolar, muitas vezes disfarçados em garrafas de água, squeezes, recipientes térmicos ou embalagens aparentemente comuns. O problema não deve ser tratado apenas como uma questão disciplinar, mas como um fenômeno que envolve família, escola, comunidade, saúde pública, proteção integral e responsabilidade social.

O fato de um estudante conseguir levar bebida alcoólica para a escola dentro de uma garrafa de água revela uma mudança na forma de acesso e ocultação da substância. Mais do que descobrir "quem trouxe", é necessário compreender por que trouxe, como conseguiu, quem forneceu, quais influências estão envolvidas e quais fatores de proteção estão ausentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o consumo de álcool entre adolescentes constitui importante preocupação de saúde pública e associa o uso nessa fase da vida a alterações neurocognitivas e problemas comportamentais, emocionais, sociais e acadêmicos.

" O álcool e outras drogas podem produzir alterações neurocognitivas" que repercutem em problemas comportamentais, emocionais, sociais e acadêmicos entre crianças e adolescentes.

Portanto, quando uma escola identifica um estudante portando bebida alcoólica em uma garrafa de água, não está diante apenas de uma infração às regras internas. Está diante de um possível sinal de vulnerabilidade, de experimentação, influência de pares, facilidade de acesso ao álcool ou ausência de acompanhamento adequado.

As principais causas

As causas são múltiplas. Não existe uma única explicação capaz de justificar o comportamento de todos os adolescentes. Entre os fatores que podem contribuir estão a curiosidade, a pressão dos colegas, a tentativa de pertencimento a determinado grupo, a busca por afirmação, problemas familiares, ausência de diálogo, banalização do álcool e facilidade de acesso à bebida.

A própria OMS observa que a iniciação ao álcool entre jovens frequentemente ocorre por experimentação e pode ser influenciada pelos grupos de amigos e pelo próprio ambiente familiar.

Outro fator importante é a normalização social do álcool. Quando crianças e adolescentes crescem observando adultos associarem bebida alcoólica à diversão, comemorações, sucesso, masculinidade, status ou relaxamento, podem construir a percepção de que beber é algo natural e inofensivo.

A OMS destaca, em publicação de 2025, que ambientes familiares, escolares e digitais podem contribuir para a normalização do consumo de álcool entre jovens, razão pela qual a prevenção precisa considerar justamente esses diferentes espaços.

Também é preciso considerar a influência das redes sociais. Vídeos, músicas, publicidade, festas e conteúdos digitais podem apresentar o consumo de álcool de maneira romantizada, omitindo consequências como dependência, acidentes, violência, conflitos familiares e prejuízos escolares.

Quando a garrafa de água deixa de ser apenas uma garrafa de água

A garrafa de água utilizada para esconder bebida alcoólica simboliza algo maior: a capacidade de determinados comportamentos de se adaptar às brechas existentes no ambiente escolar.

Não significa que a escola deva transformar-se em um espaço de vigilância permanente, revistando indiscriminadamente estudantes ou tratando todos como suspeitos. Pelo contrário. A escola precisa combinar prevenção, orientação, regras claras, acompanhamento e intervenção responsável.

A revista ou inspeção de pertences, quando cogitada, exige extremo cuidado, respeito aos direitos dos estudantes e observância da legislação e das normas do sistema de ensino. A prevenção não pode ser confundida com constrangimento.

O mais importante é construir uma cultura escolar em que o estudante saiba que levar álcool para a escola não é uma "brincadeira", mas uma situação que precisa ser tratada com seriedade.

De quem é a responsabilidade?

A resposta mais correta é: a responsabilidade é compartilhada, mas não é indistinta.

A família possui responsabilidade fundamental na formação, orientação, estabelecimento de limites e acompanhamento dos filhos. A escola possui responsabilidade pedagógica, protetiva e institucional. O Estado deve formular políticas públicas, garantir serviços de saúde, assistência e proteção e apoiar as instituições educacionais. A comunidade também possui papel importante.

A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que:

"A educação, dever da família e do Estado [...]" (BRASIL, 1996, art. 2º).

Isso significa que não é razoável jogar toda a responsabilidade sobre a escola. A escola educa, orienta, previne e intervém dentro de suas competências, mas não consegue substituir integralmente a família.

Ao mesmo tempo, também seria equivocado afirmar que a escola não tem nada a ver com o problema. A LDB determina que os estabelecimentos de ensino devem articular-se com as famílias e a comunidade e estabelece a obrigação de promover medidas de prevenção e combate à violência, além de estratégias de prevenção e enfrentamento ao uso ou dependência de drogas no ambiente escolar.

Assim, a responsabilidade deve funcionar como uma rede de proteção, e não como um jogo de transferência de culpa.

E quando alguém fornece a bebida ao adolescente?

Aqui existe uma questão ainda mais grave.

No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece responsabilização para quem vende, fornece, serve, ministra ou entrega bebida alcoólica a criança ou adolescente. Além disso, a Lei nº 15.234/2025 passou a prever aumento de pena quando a criança ou o adolescente efetivamente utiliza ou consome o produto.

Portanto, diante de uma ocorrência concreta, a escola não deve limitar-se a recolher a bebida e mandar o aluno para casa. É necessário avaliar a situação, comunicar os responsáveis, registrar adequadamente a ocorrência e, conforme o caso e as normas aplicáveis, acionar a rede de proteção, inclusive Conselho Tutelar e serviços de saúde ou assistência.

Os impactos na aprendizagem

O álcool dentro da escola pode provocar consequências que ultrapassam o momento do consumo.

Pode haver alteração de comportamento, redução da capacidade de concentração, conflitos, agressividade, acidentes, faltas, baixo rendimento, exposição a situações de violência, prejuízos às relações interpessoais e comprometimento da trajetória escolar.

A OMS destaca que o uso de álcool e outras substâncias entre adolescentes está relacionado a problemas comportamentais, emocionais, sociais e acadêmicos.

Além disso, o problema pode atingir outros estudantes. Um aluno que leva bebida para a escola pode influenciar colegas, facilitar o acesso de outros adolescentes e contribuir para a criação de uma cultura de normalização do consumo.

Por isso, o problema não deve ser analisado exclusivamente sob a perspectiva individual. O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirma que o uso de álcool por crianças e adolescentes é uma questão que transcende a esfera individual e produz impactos na saúde, segurança, educação e desenvolvimento social.

O que a escola pode fazer?

A primeira medida é não esperar que o problema se torne frequente para agir.

É possível desenvolver ações permanentes de prevenção, envolvendo estudantes, professores, famílias, profissionais de saúde e comunidade. Entre as medidas estão:

1. Construir regras claras sobre entrada e consumo de bebidas alcoólicas na escola;

2. Informar estudantes e famílias sobre os riscos e as consequências legais e educacionais;

3. Promover rodas de conversa adequadas à idade, evitando apenas discursos moralistas ou ameaçadores;

4. Fortalecer a relação família-escola;

5. Identificar precocemente sinais de uso de álcool e outras substâncias;

6. Acionar a rede de proteção quando houver situação de risco;

7. Estabelecer protocolos para ocorrências, evitando improvisações;

8. Capacitar professores e gestores para reconhecer situações de vulnerabilidade;

9. Trabalhar habilidades socioemocionais, projeto de vida, autoestima e tomada de decisões;

10. Criar espaços seguros de escuta, nos quais o adolescente possa falar sem medo de ser imediatamente rotulado.

O Ministério da Justiça destaca que estratégias preventivas eficazes devem fortalecer vínculos familiares, escolares e comunitários e desenvolver habilidades de vida.

Conversar também é uma forma de proteger

A prevenção não começa quando a garrafa com álcool aparece sobre a mesa da direção. Ela começa muito antes.

Começa em casa, quando os pais conversam com seus filhos. Começa na escola, quando professores conseguem falar sobre álcool sem transformar o assunto em tabu. Começa na comunidade, quando adultos deixam de tratar o consumo precoce como "coisa de adolescente".

O próprio Ministério da Justiça ressalta que há evidências de que a comunicação entre pais, responsáveis, cuidadores e professores pode reduzir o risco de envolvimento de adolescentes com álcool, drogas e outras substâncias.

"Conversar é proteger'

Essa ideia precisa ser incorporada à política de prevenção escolar: o silêncio não protege; a informação qualificada, o vínculo e o acompanhamento protegem.

Disciplina ou cuidado?

Outro ponto importante é não transformar toda ocorrência em simples punição.

É evidente que a escola precisa estabelecer limites. Uma instituição educacional sem regras perde sua capacidade de organizar a convivência. Entretanto, punir sem compreender pode apenas deslocar o problema para fora dos muros da escola.

Se um estudante é flagrado com bebida alcoólica, a pergunta não deve ser somente:

"Qual punição ele merece?"

Também precisamos perguntar:

"O que está acontecendo com esse estudante?"

"Como ele conseguiu essa bebida?"

"Quem forneceu?"

"Há consumo recorrente?"

"Existe algum problema familiar ou social?"

"Esse adolescente precisa de atendimento especializado?"

Essas perguntas não eliminam a responsabilidade pelo ato. Elas permitem que a intervenção seja educativa, protetiva e proporcional.

A família precisa assumir sua parte

É preciso dizer algo que nem sempre é confortável: a escola não pode ser responsabilizada por tudo aquilo que acontece com crianças e adolescentes.

Pais e responsáveis precisam acompanhar a rotina dos filhos, conhecer suas amizades, observar mudanças de comportamento, estabelecer horários, conversar sobre álcool e outras drogas e compreender o que seus filhos levam para a escola.

Isso não significa transformar a família em uma polícia doméstica. Significa exercer a responsabilidade parental.

Da mesma forma, não se pode exigir que professores sejam simultaneamente educadores, psicólogos, assistentes sociais, conselheiros tutelares, médicos e responsáveis pela formação moral integral de seus alunos.

A escola precisa de uma rede.

Uma responsabilidade que precisa ser compartilhada

O enfrentamento ao álcool entre estudantes exige a união de diferentes setores: família, escola, Secretaria de Educação, Saúde, Assistência Social, Conselho Tutelar, Ministério Público, órgãos de segurança e comunidade.

A escola identifica e educa. A família acompanha e orienta. A Saúde acolhe e trata quando necessário. A Assistência Social trabalha vulnerabilidades. O Conselho Tutelar atua na proteção de direitos. Os órgãos competentes responsabilizam quem fornece álcool ilegalmente a menores.

Nenhum desses atores consegue resolver sozinho um problema que é multifatorial.

Conclusão

A bebida alcoólica escondida em uma garrafa de água talvez pareça, à primeira vista, apenas mais um problema disciplinar. Mas ela representa uma questão muito maior: como estamos educando, acompanhando e protegendo nossas crianças e adolescentes?

Não basta retirar a bebida da garrafa. É necessário retirar o silêncio que existe em torno do problema.

Não basta punir o estudante. É necessário compreender a situação.

Não basta convocar os pais depois da ocorrência. É preciso construir parceria antes dela.

Não basta falar de álcool quando o problema chega à direção. A prevenção precisa começar muito mais cedo.

Como destaca o Ministério da Justiça, a prevenção eficaz deve fortalecer fatores de proteção e reduzir fatores de risco antes que comportamentos problemáticos se consolidem.

A escola precisa continuar sendo espaço de aprendizagem, convivência e proteção. Para isso, deve estabelecer limites firmes, mas também oferecer escuta, orientação e oportunidades de mudança.

A garrafa pode esconder a bebida, mas não pode esconder o problema.

E talvez essa seja a principal reflexão: quando o álcool chega escondido à escola, não devemos perguntar apenas "quem trouxe?". Devemos perguntar também "o que a sociedade deixou de fazer para que esse jovem acreditasse que precisava trazer?"

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Presidência da República.

BRASIL. Lei nº 15.234, de 7 de outubro de 2025. Altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para criar causa de aumento de pena relacionada ao fornecimento de bebida alcoólica a criança ou adolescente. Brasília, DF: Presidência da República.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Álcool na Política sobre Drogas.Brasília, DF.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Prevenção ampliada: crianças e adolescentes. Brasília, DF.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Conversar é Proteger.Brasília, DF.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Alcohol.Geneva: WHO.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Can homes, schools and digital platforms drive young people’s alcohol consumption?. Geneva: WHO, 2025.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Adolescent and young adult health: health risks and solutions.Geneva: WHO.

Thoughts

  • caderninho

    Aqui observo que protocolos ficam só no papel sem real parceria com as famílias. A escola identifica a garrafa, mas depois? Tem algum lugar que conseguiu?

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  • calouro08

    Faz sentido, mas e quando o aluno leva, acha que é normal? Tipo, como quebra esse ciclo aí que você descreveu?

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