Fiquei pensando aqui sobre as duplicidades que coexistem dentro de nós: o bem e o mal, o certo e o errado, o belo e o feio.
Eu nasci em um lar católico. Digo católico não em uma vertente radical, mas naquele tipo de catolicismo: ir à missa todos os domingos, meditar ou tentar meditar na Sexta-Feira Santa. Lá em casa, ninguém comia carne... Rezar antes de dormir. Minha avó paterna é bem fervorosa, tem 82 anos e reza diariamente o terço. Ela é bem pretinha e até parece Nossa Senhora.
Mas, quando falo de ambivalência, refiro-me ao mal que há em todos nós, à possibilidade de escolher o certo e, muitas vezes, não o fazermos, rejeitando-o. E uma coisa é característica que noto e percebo em mim e em quase todos nós, humanos: a transferência dos nossos erros, das nossas culpas.
Um exemplo:
Uma mulher de vestido curto está andando na rua às três horas da manhã e, nisso, passa um homem de carro e tenta atacá-la. E esse mesmo homem diz, e muitas vezes nós também dizemos: “Mas olha a roupa que ela estava usando!”
Nós não conseguimos assumir os nossos erros. A nossa tendência é transferir a culpa.
Outro exemplo: você está no trânsito e alguém vai lá e o xinga inteiro. E daí você já parte para a briga, e vira uma pancadaria. Depois do ocorrido, você diz: “Mas foi ele que me provocou!”
Sim, uma coisa é certa: ele provocou você, mas você não é obrigado a aceitar o confronto, não é obrigado a entrar na briga. Isso vale para tudo: trabalho, amizade, família, relacionamentos, estudo, vizinhança, tudo.
Independentemente do que o outro fizer ou tentar fazer, é minha decisão, meu livre-arbítrio, responsabilizar-me e não transferir o nosso controle para o outro. E isso está diretamente ligado à nossa responsabilidade, ao autodomínio.
Isso remete ao que Jesus disse: “Tome a sua cruz e siga-me”. Essa cruz não é do meu pai ou da minha mãe; essa cruz é minha.
Mas poucas pessoas querem fazer isso: tomar a sua cruz e seguir. E esse tomar a cruz significa assumirmos a nossa vida, sem delegá-la, sem fugirmos de nós mesmos.
Geralmente, queremos delegar ao outro algo nocivo que está dentro de nós. E, nessa hora de delegar, é que mora o perigo. Não entregamos, não: jogamos a nossa cruz no outro, carregada de ódio, o ódio que há em nós, a inveja que nos habita, a preguiça que nos assola. E fugimos de nós mesmos nos vícios da fofoca, e por aí vai: adultério, alcoolismo, mentira, entre outros...
Fiquei reflexiva diante desta passagem do livro de Gênesis:
“... Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.
No alto da cruz, Ele matou isso, mas ainda temos o livre-arbítrio.
Sei que aqui na página há pessoas de diversos credos e religiões. Religião não salva ninguém; o que nos faz ser um Cristo aqui são nossas condutas e ações, assim como foi nosso querido Francisco Cândido Xavier, Mahatma Gandhi, Santa Dulce dos Pobres e Divaldo Franco.