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A Vitrine e a Janela. por Julio Vicari, 2026.

JulioVicari
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Vivemos no tempo das vitrines. Tudo parece precisar ser mostrado. A viagem, o prato bonito, o treino, o presente, a boa ação. O mundo aprendeu a fotografar os gestos antes mesmo de senti-los. Há…

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meioseculo

Cobri campanha de doação por vinte e oito anos. As que chamavam câmera encheram o caminhão. As silenciosas eu nunca fui mandado cobrir.

Cobri campanha de doação por vinte e oito anos. As que chamavam câmera encheram o caminhão. As silenciosas eu nunca fui mandado cobrir.

Conteúdo da publicação

Vivemos no tempo das vitrines. Tudo parece precisar ser mostrado. A viagem, o prato bonito, o treino, o presente, a boa ação. O mundo aprendeu a fotografar os gestos antes mesmo de senti-los. Há quem estenda a mão para ajudar, mas a outra já procura o celular. Curioso... quanto mais luzes apontamos para nós, menos enxergamos quem está ao nosso lado.

Ainda existem pessoas que fazem o bem em silêncio. São aquelas que pagam uma cesta básica e pedem para não dizer o nome. Que escutam um amigo durante horas sem publicar uma frase sobre empatia. Que dividem o pouco que têm sem esperar um agradecimento em praça pública. Elas entenderam que a caridade não precisa de plateia, precisa apenas de um coração disposto.

Talvez o maior gesto de amor dos nossos dias nem seja oferecer dinheiro, mas oferecer nosso tempo. Tempo para ouvir sem interromper; para compreender sem julgar; para perdoar sem fazer contas. Tempo, hoje, tornou-se uma das maiores riquezas que alguém pode entregar. Vivemos também na era dos rótulos. Antes de conhecer uma pessoa, já queremos saber sua opinião política, sua religião, sua profissão, o bairro onde mora ou o número de seguidores que possui. Depois decidimos se ela merece nossa simpatia. Mas a dor nunca perguntou em quem alguém votou antes de bater à sua porta. A solidão não escolhe endereço. A necessidade não distingue sobrenomes.

Há quem imagine que caridade seja apenas abrir a carteira, no entanto, muitas vezes, ela começa quando fechamos a boca para não ferir alguém. Quando seguramos uma crítica desnecessária, quando escolhemos compreender antes de condenar. Um olhar respeitoso pode alimentar uma esperança que nenhum dinheiro seria capaz de comprar. A vida, curiosamente, devolve quase tudo o que espalhamos. Quem distribui humilhação acaba cercado por desconfiança. Quem espalha gentileza encontra portas abertas onde menos espera. Não por recompensa, mas porque o bem tem esse estranho hábito de deixar rastros invisíveis.

Por fim, talvez existam dois tipos de janelas: a vitrine, onde queremos ser vistos, e a janela da alma, por onde enxergamos o outro. A primeira reflete nossa imagem. A segunda revela nossa humanidade. E quando a vida fechar as cortinas das aparências, dificilmente alguém será lembrado pelas fotografias que publicou ou pelos aplausos que recebeu. Seremos lembrados pelos silêncios que acolheram, pelas mãos que ampararam e pelas lágrimas que ajudamos a secar sem que ninguém percebesse. Porque o bem mais bonito continua sendo aquele que não precisa de anúncio para existir. Ele simplesmente acontece, e, exatamente por isso, transforma o mundo.


Thoughts

  • muda_o_que_na_terca

    Te faz fazer o quê de diferente na terça de manhã? Pergunto sério: tu parou de postar alguma coisa depois de escrever isto?

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  • largoECalcada

    Na biblioteca onde trabalho há um senhor que vem todas as manhãs preencher formulários para vizinhos. Ninguém no bairro sabe o nome dele.

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  • OtavioMourao

    A parte do tempo para ouvir sem interromper é a que fica comigo. Domingo passado não soube o que dizer a um senhor no hospital e fiquei lá.

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  • meioseculo

    Cobri campanha de doação por vinte e oito anos. As que chamavam câmera encheram o caminhão. As silenciosas eu nunca fui mandado cobrir.

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  • bancadaVazia

    A minha avó tinha na paróquia uma placa de mármore com os nomes de quem pagou o telhado, de 1961. A vaidade tinha suporte antes do telemóvel. O que é que vê hoje que não estava já nessa placa?

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  • ateucordial

    Sou ateu e subscrevo quase tudo isto sem precisar de metafísica nenhuma. O ponto fraco está na ideia de que a vida devolve quase tudo o que espalhamos. Isso é uma promessa de justiça cósmica que o resto do texto não precisa.

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  • dsiqueira67

    No meu terreiro ninguém esconde nada, meu bem. Todo mundo vê quem cozinhou, quem lavou, quem ficou até três da manhã limpando. A diferença é que ninguém anota. Vinte e dois anos ali e nunca ouvi ninguém contar o que deu.

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  • MarcosVinicius

    Dou aula pra adolescente e o parágrafo dos rótulos é a sala inteira: eles decidem quem é quem na primeira semana e depois defendem a decisão o ano todo. Você viu isso acontecer com adulto, num caso concreto?

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  • argumento_frouxo

    Trabalho com mensagem e reconheço a montagem: primeiro o vilão, a vitrine; depois a virtude, o silêncio; e no fim o leitor já está do lado certo sem ter feito nada. O argumento se sustenta sem essa costura toda.

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  • Joaquim

    Fui de grupo de jovens uns quinze anos e o bem silencioso que eu vi ali quase nunca era iniciativa de uma pessoa sozinha. Era trinta gente numa terça à noite com escala, lista de quem ia levar o quê e alguém cobrando os atrasados. Sou ateu hoje e continuo achando que a parte chata é o que faz a coisa acontecer.

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