Lugar que conhece dessa injustiça, a gente sabe que fica marcado pra sempre. Essa procissão volta todo ano porque o sangue daquele solo nunca secou.
A Procissão dos Mortos
O pó da terra batida da Fazenda Nossa Senhora das Dores não via chuva há meses, mas o ar ali dentro era sempre pesado, sufocado pelo medo. No centro daquela imensidão de terras reinava o Coronel…
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Pensamento
Lugar que conhece dessa injustiça, a gente sabe que fica marcado pra sempre. Essa procissão volta todo ano porque o sangue daquele solo nunca secou.
Conteúdo da publicação
O pó da terra batida da Fazenda Nossa Senhora das Dores não via chuva há meses, mas o ar ali dentro era sempre pesado, sufocado pelo medo. No centro daquela imensidão de terras reinava o Coronel Venâncio. Homem de cenho carregado, olhar gélido e alma empedernida, Venâncio enxergava seus trabalhadores não como seres humanos, mas como meras engrenagens descartáveis de sua máquina de enriquecer.
Os braços que sustentavam a fartura de suas colheitas eram submetidos a uma rotina desumana. Trabalhavam do romper da alvorada até o fechar completo da noite, debaixo de sol escaldante, sob ameaças constantes e sem ver a cor de um único tostão. Quando o corpo não aguentava mais e a exaustão os derrubava no chão batido das antigas senzalas — estruturas caindo aos pedaços onde o coronel os amontoava —, a ajuda nunca vinha. Remédio era luxo negado; compaixão, uma palavra inexistente no vocabulário da casa-grande.
Conforme a fome e a doença cobravam seu preço, os corpos iam cedendo. E para que não houvesse alarde nem perguntas, entrava em cena Sebastião, o capataz. O homem era a sombra do coronel, o braço executor de suas ordens mais sombrias.
— Leve mais esse, Sebastião — ordenava Venâncio, sem sequer desviar o olhar de seus cadernos de finanças. — Para os fundos. Perto do cemitério velho. Cava fundo e não perde tempo. Amanhã quero a turma no campo antes do sol nascer.
Sebastião apenas assentia com a cabeça. Na calada da noite, sob o silêncio pesado da mata, o capataz arrastava os corpos sem vida até os limites da propriedade, onde as cruzes de madeira podre do antigo cemitério já mal ficavam de pé. Ali, sem reza, sem vela e sem velório, os injustiçados eram devolvidos à terra.
O Coronel Venâncio achava que o silêncio dos mortos era definitivo, que suas dívidas estavam enterradas junto com cada um daqueles homens e mulheres. Ele só não contava que a terra, quando encharcada de tanta dor, um dia decide devolver o que tentaram esconder.
A tempestade desabou sobre a Fazenda Nossa Senhora das Dores com uma fúria sem precedentes. Raios cortavam o céu escuro e a chuva torrencial lavava o chão de terra, transformando tudo em uma lama densa e escorregadia. Quando o temporal finalmente cedeu, deixando apenas o gotejar constante das árvores e um silêncio opressor, Sebastião ouviu um barulho estranho vindo dos lados do cemitério velho.
Era um som cavo, como o de terra úmida sendo revolvida de baixo para cima.
Apressado e desconfiado, o capataz pegou sua lanterna, uma tocha acesa e foi verificar. Ao se aproximar dos fundos da propriedade, o sangue de Sebastião gelou nas veias. A enxurrada da tempestade havia lavado a terra rasa e exposto as valas. Os corpos que ele próprio havia enterrado na calada da noite estavam espalhados sobre a lama... e estavam se movendo.
Lentamente, uma a uma, aquelas figuras pálidas e espectrais começaram a se levantar da terra molhada. O terror paralisou os pés de Sebastião; seus músculos não respondiam ao seu comando de fugir.
Entre eles, a figura do último homem a ser enterrado — um trabalhador que falecera de exaustão apenas dois dias antes — deu passos lentos e pesados em direção ao capataz. O olhar do morto era profundo, sem ódio, mas impregnado de uma serenidade aterradora. Sem que Sebastião pudesse reagir, o morto estendeu a mão pálida e tirou suavemente a tocha das mãos trêmulas do capataz.
Com a tocha em mãos, a alma do falecido caminhou até a carroça de madeira de Sebastião, onde repousava um engradado repleto de velas de cera que eram usadas nas tarefas da fazenda. Uma a uma, ele acendeu as velas e as distribuiu entre as dezenas de mortos que agora se enfileiravam em silêncio absoluto.
A chama gélida das velas iluminava o rosto pálido e fúnebre de cada um daqueles injustiçados. O líder da marcha se voltou para Sebastião, que tremia encostado a uma árvore, e pronunciou palavras que ecoaram não com o som da voz, mas no fundo de sua alma:
— Não temais, Sebastião. Hoje à noite não buscamos vingança com as mãos, mas com a justiça da terra. Faremos uma procissão pelas nossas almas... e pelas almas do Coronel e a sua. Pois antes que a alvorada chegue, todos nós seremos julgados.
A fila de espectros começou a se mover lentamente em direção à casa-grande, suas velas cortando a névoa fria da madrugada.
A procissão de mortos avançou em um silêncio sepulcral, cortando a névoa espessa até o pátio principal da casa-grande. O Coronel Venâncio, acordado pelos sussurros gélidos e pelo brilho insólito que vinha de fora, assustou-se ao olhar pela janela da varanda. Ao ver dezenas de velas acesas seguradas pelas almas daqueles que julgava ter apagado para sempre, seu rosto arrogante empalideceu. Aterrorizado, o coronel correu para o pátio, onde acabou caindo de joelhos na lama, exatamente ao lado do vacilante Sebastião.
As dezenas de almas circundaram os dois homens, formando um grande anel de luz espectral. O calor do pátio deu lugar a um frio congelante que fazia a respiração de Venâncio e Sebastião condensar no ar.
De repente, a névoa no centro da roda se adensou, moldando-se em uma figura aterrorizante: um vulto cadavérico, altivo e imponente, trajando farrapos negros como a própria noite. Seu rosto, emoldurado pelo vazio das sombras, revelava traços ossudos e olhos que queimavam como brasas de uma justiça inescapável. Era o Juiz e Executor do outro mundo.
Com a voz grave, que ressoou como o trovão após a tempestade, o vulto pronunciou a sentença:
— A terra gravou cada gota de suor, cada grito de dor e cada vida ceifada pela ganância e pela crueldade. O tempo dos homens acabou. Esta noite, os papéis se invertem e a conta de suas almas será cobrada.
O Coronel Venâncio tentou oferecer suas riquezas e terras em troca da vida, mas as palavras engasgaram em sua garganta. Tanto o coronel quanto o capataz sabiam que não havia apelação para aquele julgamento final.
O Vulto Cadavérico não prolongou a agonia. Com um gesto final, a névoa fria envolveu os dois condenados. Quando a procissão de mortos se dispersou na madrugada, restaram apenas dois montículos de cinzas e pó no pátio da Fazenda Nossa Senhora das Dores, misturados à lama onde jaziam. A justiça da terra havia sido feita, e a era de terror do Coronel Venâncio chegara ao fim.
Do alto da janela da casa-grande, uma figura solitária testemunhou tudo. Era Lucas, o único filho do coronel. Ele, que passara a vida trancado e ignorado pelo pai, um jovem de alma sensível que secretamente desprezava a crueldade que sustentava sua família, olhava para o pátio agora vazio. O terror gélido e as luzes fantasmagóricas haviam desaparecido, substituídos pela promessa de um novo amanhecer que começava a pintar o céu de dourado.
A sentença das almas não apenas encerrou o reinado de dor, mas libertou Lucas. Com o nascer do sol, ele desceu e, com uma voz firme que nunca antes ousara usar, ordenou que os portões das senzalas fossem abertos para sempre. Reuniu os sobreviventes e, olhando nos olhos de cada um, Lucas Vallejo assumiu o comando, prometendo mudar os rumos da fazenda.
As primeiras ações do novo herdeiro foram pagar todos os salários atrasados com ouro que o pai escondia e indenizar as famílias dos que morreram sob a tirania. A Fazenda Nossa Senhora das Dores, que por tanto tempo fôra sinônimo de exploração e desespero, começou, finalmente, a curar suas feridas sob a luz da justiça e da dignidade.
Apesar do tempo ter trazido prosperidade, justiça e paz para os trabalhadores sob a nova direção de Lucas, a terra nunca se esqueceu daquela noite inesquecível.
Ano após ano, exatamente na mesma data da tempestade e do julgamento, uma névoa densa e gelada volta a cobrir as terras da fazenda. Ninguém se atreve a sair de suas casas depois do pôr do sol.
Quem se arrisca a olhar através das frestas das janelas jura ver a mística marcha se repetir: uma procissão de fantasmas cortando o silêncio da noite, carregando suas velas de luz gélida. Mas agora, bem à frente de todas as almas, caminham duas figuras conhecidas: o Coronel Venâncio e o capataz Sebastião. Condenados a marchar para sempre como servos daquela mesma procissão, eles seguem passos lentos e sem rumo, trajando seus chapéus e casacos, revelando rostos pálidos e assustadores com olhos completamente brancos, vazios e sem vida.
A lenda da Procissão do Venâncio permanece até hoje como uma eterna lembrança de que a crueldade pode durar uma vida, mas a justiça da terra dura para sempre.
Fim
Thoughts
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PermalinkAquela parte do Venâncio agarrando na terra na frente da procissão... aquele é o medo verdadeiro, de ninguém poder comprar o jeito como o tempo cobra.
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PermalinkImagino que Lucas nunca tinha olhado direito pro lado de fora daquele quarto dele. Às vezes a gente fica trancada years inteiros e só se mexe quando tudo cai.
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PermalinkGostei mesmo dessa história. Tem a conta sendo acertada certo mesmo, e o rapaz chegando e abrindo os portões no amanhecer.
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PermalinkLugar que conhece dessa injustiça, a gente sabe que fica marcado pra sempre. Essa procissão volta todo ano porque o sangue daquele solo nunca secou.
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PermalinkAquela cena do capataz vendo os corpos se mexendo é pesada demais. Tenho colega que acordou com pesadelo desse jeito de verdade.
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PermalinkA parte de Lucas na janela, vendo tudo acontecer... ele já sabia que era tudo de verdade, ou achou que tava tendo alucinação de tanto horror?