Aquela parte das meninas conversando mais baixo quando ela se aproximava é demais. Porque a gente faz isso sem nem perceber que tá machucando.
A Menina que Ficou do Lado de Fora
Augusta tinha quinze anos e estudava na mesma escola desde o início do ensino fundamental.
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Pensamento
Aquela parte das meninas conversando mais baixo quando ela se aproximava é demais. Porque a gente faz isso sem nem perceber que tá machucando.
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Augusta tinha quinze anos e estudava na mesma escola desde o início do ensino fundamental.
Durante quase dois anos, ela acreditou ter encontrado suas melhores amigas: Larissa, Beatriz, Manuela e Sofia.
Elas sentavam juntas, faziam trabalhos e compartilhavam segredos que pareciam importantes demais para contar a qualquer outra pessoa.
Para Augusta, aquele grupo era mais do que amizade; era o lugar onde ela acreditava pertencer.
Mas, certa manhã, alguma coisa mudou.
Larissa começou a responder suas mensagens apenas com visualizações.
Beatriz passou a inventar desculpas quando Augusta perguntava se poderia participar dos passeios.
Manuela e Sofia começaram a conversar mais baixo quando ela se aproximava.
No recreio, Augusta chegou à mesa de sempre e ouviu a conversa morrer de repente.
— A gente estava falando de outra coisa — disse Sofia, guardando rapidamente o celular.
Augusta sorriu, fingindo que não tinha percebido.
Naquela tarde, abriu as redes sociais e encontrou uma fotografia das quatro meninas juntas em um passeio ao shopping.
Ela não tinha sido convidada.
O que mais doía não era o passeio.
Era perceber que sua ausência parecia ter sido planejada.
Dias depois, durante um trabalho escolar, Augusta viu por acaso uma conversa em que as meninas combinavam encontros sem ela.
Também havia comentários sobre seu jeito de falar, suas roupas e sua maneira de ser.
Ela ficou em silêncio.
Naquele momento, entendeu que o preconceito nem sempre aparece em gritos ou insultos.
Às vezes, ele aparece em portas que se fecham devagar, em convites que nunca chegam e em conversas que param quando alguém se aproxima.
Segundo pesquisas e materiais sobre violência escolar, situações de exclusão e isolamento podem fazer parte das experiências de violência vividas por estudantes.
Augusta passou algumas semanas sentindo que havia alguma coisa errada nela.
Começou a se perguntar se era chata, estranha ou simplesmente impossível de gostar.
Até que uma professora percebeu que ela estava sempre sozinha.
— Augusta, você não precisa mudar quem é para merecer respeito — disse a professora.
Aquelas palavras ficaram na cabeça dela.
Augusta procurou a família, contou o que estava acontecendo e decidiu conversar com a escola.
Não pediu que obrigassem aquelas meninas a serem suas amigas.
Pediu apenas que a escola reconhecesse que excluir alguém deliberadamente também pode machucar.
Com o tempo, Augusta começou a se aproximar de outras pessoas.
Descobriu amizades em lugares que nunca havia procurado.
Meses depois, passou novamente pela mesa onde costumava sentar com as antigas amigas.
Dessa vez, não sentiu vontade de voltar.
Ela finalmente compreendeu uma coisa que demorou muito para aprender:
ser deixada de fora por alguém não significa que você não tenha lugar no mundo.
Às vezes, significa apenas que aquela era uma porta que precisava permanecer fechada para que outra pudesse se abrir.
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