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A JANGADA DA VIDA

Pietrodeluccapoeta777

Conteúdo da publicação

A JANGADA DA VIDA

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​Toda rasura tem uma razão de ser, uma vazão exata, uma motivação para evitar o arraso aos rasos sentimentos. Nesta vida são tantos lamentos que pensamos tardiamente se tudo isso compensa.

​Em alguns lugares, lares, as placas tectônicas se movem com sutileza para não fazer barulho, porém acordam o mundo, movimentam nações, derrubam os porões dos corações peludos, promovem tempestades, dão corpo aos mares, inundam espaços inimagináveis que beiram os céus, forçando a união dos seres que se dizem humanos ou hermanos.

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Já a bordo, a nossa jangada, sem pés, desbrava os mares da escuridão com destino à felicidade: iceberg de desejos, recifes de prazeres, chuva de amor, um sabor de tudo, tudo de bom.

Onde havia maldades renasce a flor. Essa mesma flor, teimosa, rasga o asfalto enrijecido dos dias cinzentos e avisa que o inverno interno não dura para sempre.

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Não há tempestade que viva eternamente sem conceder trégua à calmaria. As águas que antes ameaçavam afundar a pequena embarcação são as mesmas que agora sustentam o peso dos personagens, empurrando-a para águas mais calmas, onde o horizonte se alarga e o sol finalmente pede passagem.

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Navegar pela escuridão exige uma coragem singular e silenciosa; essa é a arte de confiar no leme mesmo quando não se enxerga a margem na miragem de uma festa de luz. A jornada nos ensina que as cicatrizes não são marcas de derrota, mas os registros de sobrevivência. Cada ranhura na alma funciona como um canal por onde a luz finalmente consegue entrar sem nenhuma dificuldade.

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Aquele que nunca se permitiu derivar vai sempre divagar pelas nuvens tóxicas e jamais saberá o valor de aportar em terra firme. Por isso, a jangada continua sua travessia, enfrentando as correntes da incerteza, movida pela esperança teimosa de que a felicidade não é um ponto fixo no mapa, mas a própria audácia de continuar remando.

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No balanço das ondas, o medo vai perdendo o seu tamanho gigante. O mar, antes visto como um abismo insondável, revela-se um imenso espelho. Nele, refletem-se as nossas sombras mais densas, mas também a imensidão do céu que nos cobre. Percebemos, no compasso das marés, que perder o chão muitas vezes é a única forma de aprender a flutuar na vida ou nas mentes da ironia. As dores antigas, que antes pesavam como âncoras no fundo do peito, vão se dissolvendo no sal da água, transformando-se em mero aprendizado de rota.

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Altivo e a bordo, a convivência com o desconhecido nos despoja do supérfluo, e a relevância retoma o seu protagonismo. Deixamos para trás os bilhões em espécie, os problemas, o Rolex, os linhos, o cromo alemão, o Vuitton, a Hugo Boss, a Ferrari, a Lamborghini e todo o excesso de bagagem. Os rancores acumulados nas gavetas da memória e a vaidade de querer controlar o vento que sopra nossas almas ficam pelo caminho. E assim, ficamos apenas com o essencial: a capacidade de sentir, a vontade de recomeçar e a certeza de que a humanidade se encontra no abraço e na solidariedade.

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Quando a tempestade aperta, não há espaço para divisões; somos todos marinheiros em busca do mesmo porto seguro na mesma embarcação — na verdade, uma jangada rasa. A brisa que agora sopra traz consigo o perfume fresco da terra molhada, anúncio sutil de que a costa está próxima.

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O iceberg de desejos, que antes parecia um obstáculo rígido e perigoso, derrete-se sob o calor da compaixão, alimentando o oceano com águas renovadas, fresquinhas e geladinhas. O recife de prazeres deixa de ser uma armadilha para se tornar um refúgio de vida abundante, onde as cores do mundo voltam a pulsar com intensidade.

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E assim, entre o vaivém do oceano e o despertar da aurora, compreendemos que o sentido da viagem nunca esteve na ausência dos naufrágios — a natureza jamais mentiu para ninguém —, mas na capacidade de reconstruir a embarcação com os próprios destroços. Todos estão convidados, e não escalados. Onde a vida parecia ter esquecido a poesia, o poema assume e recomeça com sua força motriz arfante. A flor que renasceu no solo árido do passado agora desabrocha em um jardim inteiro, lembrando-nos de que todo recomeço é um ato de fé no amanhã.

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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444®

https://pietrodeluccapoeta777.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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