A JANGADA DA VIDA
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Toda rasura tem uma razão de ser, uma vazão exata, uma motivação para evitar o arraso aos rasos sentimentos. Nesta vida são tantos lamentos que pensamos tardiamente se tudo isso compensa.
Em alguns lugares, lares, as placas tectônicas se movem com sutileza para não fazer barulho, porém acordam o mundo, movimentam nações, derrubam os porões dos corações peludos, promovem tempestades, dão corpo aos mares, inundam espaços inimagináveis que beiram os céus, forçando a união dos seres que se dizem humanos ou hermanos.
Já a bordo, a nossa jangada, sem pés, desbrava os mares da escuridão com destino à felicidade: iceberg de desejos, recifes de prazeres, chuva de amor, um sabor de tudo, tudo de bom.
Onde havia maldades renasce a flor. Essa mesma flor, teimosa, rasga o asfalto enrijecido dos dias cinzentos e avisa que o inverno interno não dura para sempre.
Não há tempestade que viva eternamente sem conceder trégua à calmaria. As águas que antes ameaçavam afundar a pequena embarcação são as mesmas que agora sustentam o peso dos personagens, empurrando-a para águas mais calmas, onde o horizonte se alarga e o sol finalmente pede passagem.
Navegar pela escuridão exige uma coragem singular e silenciosa; essa é a arte de confiar no leme mesmo quando não se enxerga a margem na miragem de uma festa de luz. A jornada nos ensina que as cicatrizes não são marcas de derrota, mas os registros de sobrevivência. Cada ranhura na alma funciona como um canal por onde a luz finalmente consegue entrar sem nenhuma dificuldade.
Aquele que nunca se permitiu derivar vai sempre divagar pelas nuvens tóxicas e jamais saberá o valor de aportar em terra firme. Por isso, a jangada continua sua travessia, enfrentando as correntes da incerteza, movida pela esperança teimosa de que a felicidade não é um ponto fixo no mapa, mas a própria audácia de continuar remando.
No balanço das ondas, o medo vai perdendo o seu tamanho gigante. O mar, antes visto como um abismo insondável, revela-se um imenso espelho. Nele, refletem-se as nossas sombras mais densas, mas também a imensidão do céu que nos cobre. Percebemos, no compasso das marés, que perder o chão muitas vezes é a única forma de aprender a flutuar na vida ou nas mentes da ironia. As dores antigas, que antes pesavam como âncoras no fundo do peito, vão se dissolvendo no sal da água, transformando-se em mero aprendizado de rota.
Altivo e a bordo, a convivência com o desconhecido nos despoja do supérfluo, e a relevância retoma o seu protagonismo. Deixamos para trás os bilhões em espécie, os problemas, o Rolex, os linhos, o cromo alemão, o Vuitton, a Hugo Boss, a Ferrari, a Lamborghini e todo o excesso de bagagem. Os rancores acumulados nas gavetas da memória e a vaidade de querer controlar o vento que sopra nossas almas ficam pelo caminho. E assim, ficamos apenas com o essencial: a capacidade de sentir, a vontade de recomeçar e a certeza de que a humanidade se encontra no abraço e na solidariedade.
Quando a tempestade aperta, não há espaço para divisões; somos todos marinheiros em busca do mesmo porto seguro na mesma embarcação — na verdade, uma jangada rasa. A brisa que agora sopra traz consigo o perfume fresco da terra molhada, anúncio sutil de que a costa está próxima.
O iceberg de desejos, que antes parecia um obstáculo rígido e perigoso, derrete-se sob o calor da compaixão, alimentando o oceano com águas renovadas, fresquinhas e geladinhas. O recife de prazeres deixa de ser uma armadilha para se tornar um refúgio de vida abundante, onde as cores do mundo voltam a pulsar com intensidade.
E assim, entre o vaivém do oceano e o despertar da aurora, compreendemos que o sentido da viagem nunca esteve na ausência dos naufrágios — a natureza jamais mentiu para ninguém —, mas na capacidade de reconstruir a embarcação com os próprios destroços. Todos estão convidados, e não escalados. Onde a vida parecia ter esquecido a poesia, o poema assume e recomeça com sua força motriz arfante. A flor que renasceu no solo árido do passado agora desabrocha em um jardim inteiro, lembrando-nos de que todo recomeço é um ato de fé no amanhã.
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444®
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