Capitão vs Augusto é tipo aquela coisa de ter um nome que as pessoas conhecem mas que não é você - interessante como ele precisava dos dois existindo junto.
A História de Augusto: Quando a Escrita Substituiu a Dor
Augusto não chegou àquela escola carregando uma história que pudesse ser explicada em cinco minutos.
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Pensamento
Capitão vs Augusto é tipo aquela coisa de ter um nome que as pessoas conhecem mas que não é você - interessante como ele precisava dos dois existindo junto.
Conteúdo da publicação
Augusto não chegou àquela escola carregando uma história que pudesse ser explicada em cinco minutos.
Ele chegou apenas como mais um aluno.
Uniforme, mochila, cadernos, algumas folhas soltas e aquele jeito reservado que fazia parecer que estava sempre pensando em alguma coisa.
No primeiro dia, ninguém sabia quem ele era.
E talvez esse tenha sido o problema.
Porque, quando as pessoas não conhecem alguém, elas costumam preencher os espaços vazios com aquilo que imaginam.
No começo eram apenas comentários.
— Ele nunca fala com ninguém.
— Parece que não gosta de ninguém.
— Deve se achar melhor que os outros.
Augusto ouvia.
Não respondia.
E cada vez que não respondia, alguém inventava uma explicação para o silêncio.
Se ele estivesse quieto:
— Tá de cara fechada.
Se respondesse pouco:
— É estranho.
Se ficasse sozinho:
— Ele não sabe se enturmar.
Se escrevesse durante o intervalo:
— O que será que ele tanto escreve?
E assim, pouco a pouco, Augusto deixou de ser uma pessoa e começou a se tornar uma versão criada pelos outros.
O personagem que nasceu antes do homem
A escola tinha suas próprias regras invisíveis.
Havia os alunos conhecidos.
Os engraçados.
Os populares.
Os que sempre estavam cercados de gente.
E havia Augusto.
Ele não precisava necessariamente estar sozinho para se sentir sozinho.
Às vezes estava no meio da sala inteira.
Mesmo assim, parecia estar atrás de uma parede de vidro.
As pessoas conversavam.
Riam.
Trocavam mensagens.
Planejavam coisas.
E Augusto observava.
Alguns professores interpretavam aquilo como desinteresse.
Outros como arrogância.
Alguns simplesmente não davam importância.
Mas ninguém perguntava:
"Augusto, está tudo bem?"
Era mais fácil concluir do que perguntar.
Certo dia, durante uma conversa no corredor, Augusto passou perto de alguns colegas.
Um deles falou baixo:
— Olha lá.
Outro respondeu:
— O quê?
— Nada. Só estou falando.
Augusto continuou andando.
Não porque não tivesse ouvido.
Mas porque já tinha aprendido que responder a todo comentário significava transformar cada dia em uma discussão.
Então ele continuava.
Andava.
Entrava na sala.
Sentava.
Fazia o que precisava fazer.
E guardava mais uma coisa dentro de si.
A fama que ninguém pediu
O curioso era que Augusto também tinha outro lado.
Na quadra, ele era diferente.
Ali, ninguém precisava perguntar se ele sabia jogar.
Ele simplesmente jogava.
Competitivo.
Concentrado.
Persistente.
Quando o time perdia, ele era um dos primeiros a levantar.
Quando alguém desistia, ele continuava.
Quando todos reclamavam do resultado, ele dizia:
— Ainda não acabou.
Foi assim que surgiu o apelido.
Capitão.
Não necessariamente porque alguém tivesse colocado uma faixa nele.
Mas porque os outros começaram a enxergá-lo daquela maneira.
O Capitão era aquele que não desistia.
O Capitão era aquele que permanecia.
O Capitão era aquele que parecia não sentir nada.
E o apelido começou a crescer.
— O Capitão resolve.
— O Capitão aguenta.
— O Capitão não reclama.
— O Capitão não quebra.
Só havia um problema.
O Capitão não existia sozinho.
Debaixo daquele nome havia um garoto que também cansava.
Que também se decepcionava.
Que também queria ser compreendido.
Mas ninguém perguntava pelo garoto.
Perguntavam pelo Capitão.
Quando o silêncio começa a ser interpretado
Com o passar do tempo, algumas situações começaram a se acumular.
Uma frase mal interpretada.
Uma conversa ouvida pela metade.
Um professor que viu determinada situação sem conhecer o contexto.
Um colega que contou uma versão diferente.
Outro que acrescentou alguma coisa.
E, quando Augusto percebeu, existia uma história sobre ele que ele próprio não reconhecia.
— Dizem que ele fez isso.
— Eu ouvi que ele falou aquilo.
— Parece que ele escreve umas coisas pesadas.
— Ele deve estar querendo chamar atenção.
Essa última frase foi uma das que mais doeram.
Porque transformava aquilo que ele tentava expressar em uma acusação.
Se escrevesse sobre raiva:
"Está exagerando."
Se escrevesse sobre injustiça:
"Está se fazendo de vítima."
Se escrevesse sobre solidão:
"Quer chamar atenção."
Se escrevesse sobre pessoas falsas:
"Está falando dos outros."
Então Augusto começou a escrever escondido.
Não porque tivesse vergonha da escrita.
Mas porque estava cansado de explicar o significado de cada palavra.
O caderno
O caderno não julgava.
Essa talvez fosse a diferença mais importante.
Quando Augusto escrevia, ninguém interrompia.
Ninguém dizia:
"Você entendeu errado."
Ninguém respondia:
"Isso é drama."
Ninguém perguntava:
"Quem você está querendo atingir?"
O papel simplesmente recebia.
Primeiro vieram frases pequenas.
Depois textos.
Depois histórias.
Depois personagens.
Augusto começou a criar mundos inteiros.
Neles, aquilo que não conseguia dizer diretamente encontrava uma voz.
Um personagem podia dizer aquilo que Augusto não conseguia.
Outro podia representar a escola.
Outro podia representar os julgamentos.
Outro podia representar a própria solidão.
E, aos poucos, Augusto percebeu uma coisa:
A escrita não precisava ser uma arma contra ninguém.
Podia ser uma ponte.
A pior interpretação
Certo dia, um texto de Augusto acabou sendo visto por alguém.
Não era exatamente uma confissão.
Não era uma ameaça.
Era uma história.
Mas algumas frases eram pesadas.
Falavam de raiva.
Traição.
Injustiça.
Dor.
E alguém interpretou aquilo da pior maneira possível.
A notícia chegou até um professor.
Depois outro.
Depois alguém comentou com a coordenação.
E, em poucas horas, aquilo que havia sido escrito como ficção começou a ser tratado como se fosse uma declaração literal sobre a realidade.
Augusto entrou na sala da coordenação.
Sentou.
E ficou esperando.
Uma pessoa perguntou:
— Augusto, você pode explicar o que escreveu?
Ele olhou para a mesa.
Durante alguns segundos, não respondeu.
Não porque não tivesse resposta.
Mas porque aquela pergunta chegou tarde.
Muito tarde.
Ele tinha passado meses sendo interpretado.
Agora queriam uma explicação de alguns minutos.
— É uma história — respondeu.
— Mas por que escrever algo assim?
Augusto respirou fundo.
— Porque eu consigo escrever coisas que não consigo falar.
A sala ficou em silêncio.
Aquela resposta não resolveu tudo.
Não fez todos mudarem de opinião.
Mas pela primeira vez alguém ouviu uma frase diretamente dele.
O Capitão também estava cansado
Depois daquele episódio, algumas pessoas passaram a observar Augusto ainda mais.
Se ele ficava quieto, perguntavam o que havia acontecido.
Se escrevia, queriam saber o que era.
Se ficava sozinho, alguém comentava.
E Augusto começou a perceber que havia uma ironia em tudo aquilo.
Quando ninguém prestava atenção nele, ele sofria.
Quando finalmente prestavam atenção, muitas vezes era pelas razões erradas.
Então ele decidiu fazer algo diferente.
Em vez de tentar convencer todo mundo sobre quem ele era, começou a construir a própria história.
Não uma história para provar que era perfeito.
Uma história para mostrar que era humano.
A mudança
A escrita começou a ocupar o espaço que antes era preenchido pelo silêncio.
Quando estava irritado, escrevia.
Quando alguma situação o incomodava, escrevia.
Quando queria responder a alguém, primeiro colocava no papel.
Quando tinha uma ideia, desenvolvia.
Quando sentia que ninguém compreenderia o que queria dizer, criava um personagem.
E algo começou a mudar.
A escrita deixou de ser apenas um lugar onde Augusto colocava sua dor.
Passou a ser também um lugar onde construía coisas.
Histórias.
Músicas.
Personagens.
Cenas.
Universos.
Possibilidades.
Ele descobriu que podia transformar uma experiência ruim em uma narrativa.
Podia transformar uma injustiça em reflexão.
Podia transformar uma discussão em personagem.
Podia transformar uma sensação difícil em uma página.
Não precisava destruir a si mesmo para provar que estava sofrendo.
Precisava encontrar uma maneira de continuar.
A pessoa por trás do apelido
Um dia, alguém perguntou:
— Por que você gosta tanto de ser chamado de Capitão?
Augusto pensou.
Depois respondeu:
— Porque foi o nome que vocês deram para a parte de mim que vocês conseguem enxergar.
A pessoa ficou em silêncio.
— E qual é a outra parte?
Augusto respondeu:
— Augusto.
Foi simples.
Mas talvez tenha sido a resposta mais importante de toda aquela história.
Porque o Capitão era forte.
Augusto também precisava ser.
Mas força não significava não sentir.
Força não significava nunca precisar de ninguém.
Força não significava esconder tudo.
E muito menos significava suportar qualquer coisa sozinho.
O que ninguém percebeu
Durante muito tempo, as pessoas confundiram silêncio com frieza.
Confundiram reserva com arrogância.
Confundiram escrita com ameaça.
Confundiram intensidade com exagero.
Confundiram força com ausência de sofrimento.
E talvez esse tenha sido o maior erro.
Porque uma pessoa pode parecer completamente bem e ainda estar enfrentando uma batalha que ninguém conhece.
Isso não significa que todos ao redor tenham obrigação de adivinhar.
Mas significa que perguntar pode ser muito mais importante do que concluir.
"Você está bem?"
"Quer conversar?"
"Posso entender melhor?"
Três perguntas simples poderiam ter mudado muitas coisas.
O passado não desapareceu
Augusto não fingia que nada havia acontecido.
Ele lembrava dos comentários.
Dos julgamentos.
Das conversas pelas costas.
Das vezes em que entrou em uma sala sabendo que algumas pessoas já tinham uma opinião formada sobre ele.
Lembrava de quando tentava explicar alguma coisa e sentia que sua versão chegava sempre depois da versão dos outros.
Mas agora havia uma diferença.
Ele não precisava mais carregar tudo em silêncio.
O passado continuava existindo.
Só não controlava mais o futuro.
A última página
Anos depois, quando Augusto encontrou alguns dos primeiros textos que havia escrito, percebeu algo estranho.
Ele reconheceu a própria voz.
Mas não reconheceu completamente a pessoa que estava escrevendo.
Era como olhar para uma fotografia antiga.
Aquele garoto ainda estava ali.
Com as mesmas dúvidas.
As mesmas perguntas.
A mesma necessidade de ser compreendido.
Mas havia uma diferença.
Agora ele sabia que sua história não precisava terminar na parte mais dolorosa.
Pegou uma folha.
Escreveu o título:
"Quando a Escrita Substituiu a Dor."
E começou:
"Durante muito tempo, achei que precisava ser forte o tempo inteiro.
Depois descobri que força não é não sentir.
Força é encontrar uma maneira de continuar sem transformar a própria dor em destruição.
Eu não sou apenas aquilo que disseram sobre mim.
Também não sou apenas aquilo que escrevi nos meus dias mais difíceis.
Sou tudo o que aprendi depois deles."
Augusto parou.
Olhou para a página.
E sorriu discretamente.
Não porque tudo tivesse sido resolvido.
Não porque todos tivessem entendido.
E muito menos porque o passado tivesse desaparecido.
Mas porque finalmente havia encontrado algo que ninguém poderia interpretar por ele.
Sua própria voz.
O Capitão continuaria existindo.
Mas agora ele não precisava esconder Augusto.
Os dois podiam existir no mesmo lugar.
O forte e o sensível.
O que liderava e o que precisava respirar.
O que enfrentava desafios e o que também tinha limites.
Porque Augusto finalmente havia entendido uma coisa que a escola demorou muito para perceber:
ninguém deveria precisar parecer invencível para merecer ser ouvido.
E, naquela noite, ele fechou o caderno.
Não para esconder sua história.
Mas para continuar escrevendo a próxima página.
Thoughts
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PermalinkAugusto... As vezes se compreender é ver que a situação perfeita, o momento perfeito, a existência perfeita é o momento que criamos diante de cada situação, a saída e só um nome diferente para a construção de um recomeço...
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PermalinkEsse jeito que a escola fica sabendo de um texto por boato e já transforma em escândalo... já sofri tanto com isso na época de estágio.
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PermalinkA pergunta que o coordenador faz muito tarde - 'você pode explicar?' - alguém depois disso realmente voltou pra perguntar 'você está bem?'
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PermalinkAdorei o jeito que termina - nem tudo resolvido, nem tudo entendido por todo mundo, mas finalmente ele sabe que tem uma voz. Isso é tudo.
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PermalinkCapitão vs Augusto é tipo aquela coisa de ter um nome que as pessoas conhecem mas que não é você - interessante como ele precisava dos dois existindo junto.
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PermalinkTem algo forte na ideia que o papel simplesmente recebe. Sem julgar, sem interromper. Acho que por isso a gente escreve mesmo.
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PermalinkMe diz - quando ele começou a criar personagens que falavam no lugar dele, alguém nunca ligou que tava criando histórias inteiras só pra não morrer de solidão?
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PermalinkAquela parte que as pessoas inventam quem você é enquanto você tá ali do lado... conheço bem. Augusto só encontra um caderno que não interrompe, né.
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PermalinkQuando Augusto explica que consegue escrever coisas que não consegue falar - alguém na coordenação entendeu no mesmo segundo que ele tava falando a verdade?