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A hipocrisia de ser humano

Noctharys
Pensamento

Pensamento

Joaquim

A confissão virando autoproteção é coisa que quem foi criado católico conhece. A Igreja pede penitência e reparação depois da confissão justamente porque dizer o pecado em voz alta nunca bastou.

A confissão virando autoproteção é coisa que quem foi criado católico conhece. A Igreja pede penitência e reparação depois da confissão justamente porque dizer o pecado em voz alta nunca bastou.

Conteúdo da publicação

Existe algo de profundamente perturbador na facilidade com que o ser humano condena nos outros aquilo que, em circunstâncias diferentes, seria perfeitamente capaz de cometer. Apontamos o dedo para a crueldade alheia como se a nossa própria consciência estivesse imune à mesma escuridão, como se o simples fato de reconhecermos o mal fosse suficiente para nos manter distantes dele. Julgamos as atitudes, desprezamos os erros, questionamos as intenções e construímos discursos inteiros sobre aquilo que deveria ser feito, mas raramente demonstramos o mesmo rigor quando chega o momento de examinar nossas próprias escolhas. Para o outro, exigimos responsabilidade; para nós, reivindicamos compreensão. Para o outro, o erro revela o caráter; para nós, é apenas uma consequência infeliz de circunstâncias que ninguém poderia compreender verdadeiramente. E, assim, erguemos uma moralidade conveniente, uma espécie de tribunal particular no qual somos simultaneamente acusados, testemunhas e juízes, com a vantagem de podermos alterar as regras sempre que a sentença ameaça nos condenar.

A hipocrisia talvez não comece quando mentimos para alguém, mas quando aprendemos a mentir para nós mesmos sem experimentar a sensação de estarmos mentindo. Existe uma diferença entre reconhecer que fizemos algo errado e aceitar aquilo que esse erro revela sobre nós. A primeira atitude exige apenas honestidade momentânea; a segunda ameaça a imagem que construímos durante anos, aquela versão cuidadosamente organizada de nós mesmos que precisa permanecer decente, justificável e, acima de tudo, diferente das pessoas que condenamos. Por isso, quando nossas ações contradizem nossos princípios, nem sempre abandonamos os princípios. Frequentemente, preferimos modificar a narrativa. Encontramos uma razão, recuperamos uma mágoa antiga, destacamos a provocação que sofremos, lembramos tudo o que fizemos de bom e transformamos nosso erro em uma exceção que, convenientemente, não representa quem realmente somos. O problema é que, se cada pessoa puder definir a própria inocência a partir das circunstâncias que mais a favorecem, a moralidade deixa de ser um compromisso com aquilo que consideramos certo e passa a ser apenas uma ferramenta de autopreservação.

O ser humano possui uma capacidade extraordinária de transformar a própria culpa em uma história na qual ainda ocupa o papel da vítima. Não precisamos negar completamente aquilo que fizemos; basta reorganizar os acontecimentos até que nossa responsabilidade pareça menor do que a responsabilidade dos outros. Se ferimos alguém, lembramos primeiro de tudo o que essa pessoa nos fez. Se traímos uma confiança, recordamos os momentos em que nos sentimos negligenciados. Se agimos com crueldade, procuramos a ferida que nos tornou amargos, como se sofrer fosse uma autorização permanente para causar sofrimento. E talvez a parte mais inquietante desse processo seja que nem sempre existe uma mentira consciente por trás dele. Muitas vezes, acreditamos sinceramente nas justificativas que inventamos, porque a consciência humana não deseja apenas compreender os próprios atos; deseja sobreviver àquilo que descobre. Preferimos uma explicação que preserve nossa identidade a uma verdade que nos obrigue a reconstruí-la. Dessa forma, a culpa não desaparece necessariamente, mas é empurrada para um lugar onde podemos conviver com ela sem precisar encará-la diretamente.

É curioso observar como a moralidade costuma se tornar mais rígida quando o erro pertence a alguém de quem não gostamos e mais flexível quando pertence a alguém que amamos — especialmente quando esse alguém somos nós mesmos. O mesmo comportamento que consideramos imperdoável em uma pessoa pode se transformar em um deslize compreensível quando praticado por outra. A mentira muda de nome conforme a boca que a pronuncia; a crueldade recebe novas explicações conforme o rosto de quem a comete; a injustiça parece menos grave quando seus benefícios chegam até nós. Não avaliamos apenas o ato: avaliamos quem o praticou, o quanto essa pessoa nos interessa e o que perderíamos se reconhecêssemos a gravidade do que aconteceu. Às vezes, defendemos princípios com uma convicção admirável, desde que não precisemos pagar o preço de aplicá-los contra nossos próprios interesses. Queremos justiça, mas hesitamos quando ela exige que alguém querido seja responsabilizado. Queremos sinceridade, mas nos ressentimos quando a verdade ameaça nossa vaidade. Queremos empatia, mas nem sempre estamos dispostos a oferecê-la a quem não nos desperta qualquer identificação. A moralidade, nessas condições, deixa de ser uma medida do caráter e passa a ser um espelho deformado por nossos afetos e conveniências.

Talvez seja por isso que a consciência se torne tão habilidosa em encontrar desculpas. Ela chega antes do arrependimento, organiza os fatos, seleciona as lembranças e prepara uma defesa antes mesmo de termos coragem de formular a acusação. Em vez de perguntarmos por que fizemos algo que condenaríamos em outra pessoa, perguntamos o que nos levou àquela situação. Em vez de reconhecermos que causamos sofrimento, concentramos toda a atenção no sofrimento que sentimos enquanto causávamos esse sofrimento. Não se trata de negar que as circunstâncias importam ou de fingir que todas as pessoas agem em condições iguais. O problema surge quando usamos nossas dificuldades não para compreender nossas atitudes, mas para nos isentar de qualquer responsabilidade por elas. Ter sido ferido explica algumas de nossas reações, mas não transforma automaticamente nossas feridas em justificativas para ferir. Ter sido enganado não nos concede o direito de enganar. Ter conhecido a injustiça não nos torna incapazes de praticá-la. E ter sofrido não garante que nos tornaremos pessoas melhores; às vezes, apenas nos ensina a reconhecer com mais precisão os lugares onde podemos atingir os outros.

Existe uma forma particularmente silenciosa de hipocrisia que não se manifesta em grandes escândalos, mentiras elaboradas ou demonstrações evidentes de maldade. Ela aparece nos pequenos gestos que preferimos considerar insignificantes: na indiferença diante da humilhação de alguém quando intervir nos traria desconforto, no julgamento precipitado de uma pessoa cuja história desconhecemos, na gentileza oferecida apenas quando existe a possibilidade de sermos vistos, na indignação seletiva que surge diante de determinadas injustiças e desaparece diante de outras. Às vezes, não precisamos cometer diretamente uma crueldade para participar dela. Basta que a reconheçamos e escolhamos o silêncio porque o preço de nos posicionarmos parece alto demais. Ainda assim, seria simplista afirmar que toda omissão nasce da covardia ou que todas as situações exigem a mesma resposta. O que merece ser examinado é a facilidade com que transformamos nossa conveniência em princípio, nossa hesitação em prudência e nosso medo em uma explicação tão nobre que já não precisamos questioná-la. Há ocasiões em que o silêncio é necessário; o problema é quando passamos a chamá-lo de virtude apenas porque admitir a razão verdadeira nos obrigaria a enxergar algo desagradável sobre nós mesmos.

O mais contraditório é que quase todos desejam ser reconhecidos como pessoas boas, mas nem todos estão dispostos a enfrentar o que essa pretensão exige. Gostamos da ideia de sermos justos, generosos, leais e compassivos. Gostamos de acreditar que, diante de uma escolha importante, agiríamos corretamente, que não abandonaríamos alguém por conveniência, que não sacrificaríamos nossos princípios por vantagens pessoais e que jamais nos tornaríamos aquilo que desprezamos. Contudo, existe uma distância imensa entre a pessoa que imaginamos ser e aquela que nossas decisões revelam quando ninguém está observando, quando o benefício é tentador, quando a verdade nos prejudica ou quando fazer o certo exige que renunciemos a alguma coisa que desejamos desesperadamente. É fácil defender a honestidade quando ela não ameaça nossos interesses; fácil condenar a crueldade quando não estamos dominados pela raiva; fácil falar sobre perdão quando não somos nós que precisamos perdoar. O caráter não se revela apenas naquilo que declaramos acreditar, mas também no preço que estamos dispostos a pagar para não trair aquilo que dizemos defender.

Isso não significa que o ser humano seja essencialmente mau, condenado a agir com egoísmo ou incapaz de mudar. Talvez a verdade seja mais incômoda do que qualquer condenação absoluta: somos capazes de bondade e crueldade, de generosidade e egoísmo, de coragem e covardia, e nem sempre existe uma fronteira nítida entre essas possibilidades. Podemos amar alguém sinceramente e, ainda assim, agir de maneira injusta com essa pessoa. Podemos defender uma causa legítima e utilizar métodos que contradizem aquilo que afirmamos proteger. Podemos reconhecer uma injustiça quando somos suas vítimas e ignorá-la quando nos beneficia. A contradição não torna todas as nossas virtudes falsas, mas impede que as tratemos como garantias permanentes de inocência. Ser capaz de fazer algo bom não apaga automaticamente o mal que praticamos, assim como cometer um erro não precisa definir para sempre tudo o que somos. O que importa é o que fazemos quando a contradição se torna visível: se tentamos compreendê-la e assumir responsabilidade ou se trabalhamos desesperadamente para escondê-la de todos, inclusive de nós mesmos.

Talvez o verdadeiro problema não seja a existência da hipocrisia, mas a maneira como aprendemos a conviver com ela sem sentir necessidade de mudança. O ser humano pode reconhecer seus defeitos, falar abertamente sobre suas falhas e até transformar suas imperfeições em parte de uma identidade atraente, sem jamais modificar o comportamento que causa sofrimento aos outros. A confissão, nesse caso, torna-se mais uma forma de autoproteção. Admitimos que somos complicados, que temos nossos momentos ruins, que ninguém é perfeito, e esperamos que a própria admissão seja interpretada como prova de maturidade. Mas reconhecer uma falha não é o mesmo que assumir suas consequências, assim como sentir culpa não equivale a reparar o dano. Às vezes, queremos ser perdoados mais do que desejamos compreender a dor que provocamos. Queremos encerrar o desconforto, recuperar a imagem que tínhamos de nós mesmos e retornar à vida sem carregar o peso de nossas escolhas. O arrependimento verdadeiro, porém, não existe apenas para aliviar quem errou; ele também exige que reconheçamos que a pessoa ferida não tem obrigação de nos oferecer o perdão que desejamos.

No fundo, talvez a hipocrisia seja uma das estratégias mais eficientes que desenvolvemos para proteger a própria identidade. Não precisamos ser inocentes; precisamos apenas continuar acreditando que somos melhores do que aquilo que fizemos. Não precisamos evitar todas as contradições; basta encontrar uma explicação que nos permita conviver com elas. E, enquanto direcionamos nossa atenção para os defeitos alheios, encontramos uma maneira conveniente de manter nossos próprios abismos fora do campo de visão. O julgamento oferece uma sensação de superioridade, porque nos coloca temporariamente do lado de quem observa, não de quem é observado. Condenar alguém pode ser mais fácil do que compreender as circunstâncias que o levaram a agir, mas também pode ser mais confortável do que reconhecer que determinadas condições, desejos e fraquezas existem igualmente dentro de nós. A distância entre nós e aquilo que condenamos talvez não seja tão grande quanto gostaríamos de acreditar. Às vezes, o que nos separa de uma atitude que consideramos monstruosa não é uma virtude inabalável, mas uma combinação de circunstâncias, limites pessoais, oportunidades e escolhas que ainda não fomos obrigados a enfrentar.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se somos pessoas boas ou ruins, como se a existência humana pudesse ser resumida a duas categorias definitivas. Talvez devêssemos perguntar quantas vezes usamos a bondade que demonstramos para evitar examinar a crueldade que praticamos; quantas vezes exigimos dos outros uma responsabilidade que tentamos escapar quando chega a nossa vez; quantas vezes confundimos nossas intenções com os efeitos de nossas ações e quantas vezes pedimos compreensão sem demonstrar a mesma disposição para compreender. Não são perguntas confortáveis, porque não permitem que permaneçamos inteiramente do lado de fora do problema. Elas retiram de nossas mãos a segurança de um julgamento fácil e nos obrigam a reconhecer que a moralidade perde seu significado quando só é aplicada aos outros.

Talvez a humanidade não precise de mais pessoas convencidas de que estão certas, mas de pessoas dispostas a examinar as ocasiões em que estão erradas. Não de indivíduos que se declaram incapazes de crueldade, mas daqueles que reconhecem a própria capacidade de causar sofrimento e, por isso, assumem a responsabilidade de vigiar as próprias escolhas. A honestidade moral não consiste em acreditar que somos imunes ao mal; consiste em abandonar a ilusão de que nossas boas intenções nos tornam incapazes de praticá-lo. Isso não nos absolve, tampouco nos condena eternamente. Apenas nos devolve algo que a hipocrisia tenta retirar de nós: a possibilidade de enxergar nossos atos sem recorrer imediatamente a uma desculpa.

E talvez seja justamente aí que a hipocrisia se torne mais difícil de suportar: não quando a encontramos nos outros, mas quando, depois de tantas acusações, tantas justificativas e tantas certezas cuidadosamente preservadas, percebemos que também somos capazes de construir um tribunal inteiro para condenar o mundo e, diante de nossas próprias contradições, fechar discretamente as portas. Porque é fácil exigir que alguém tenha coragem de encarar a verdade; difícil é permanecer diante dela quando já não existe ninguém a quem possamos atribuir a culpa. No fim, talvez a pergunta não seja quantas vezes fomos enganados pela hipocrisia humana, mas quantas vezes precisamos dela para continuar gostando da pessoa que vemos no espelho.

Thoughts

  • Joaquim

    A confissão virando autoproteção é coisa que quem foi criado católico conhece. A Igreja pede penitência e reparação depois da confissão justamente porque dizer o pecado em voz alta nunca bastou.

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  • Lucimar

    Gostei muito do tribunal particular, onde a gente é acusado, testemunha e juiz. Testei numa coisa besta: quando eu furo a fila foi sem querer, quando o outro fura é falta de educação. Só que régua igual cobra dos dois lados, e aí eu teria que perdoar o outro do jeito que me perdoo. Isso o texto deixa quieto.

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