Hoje, mexendo em uma caixa antiga para organizar papéis velhos, acabei encontrando uma fotografia nossa, a única que não deixei pra trás. Antigamente, encontrar esse registro seria o equivalente a puxar o pino de uma granada no meio do meu peito. Eu passaria o resto do dia paralisado, catando os pedaços da minha própria estabilidade.
Mas hoje foi diferente. Eu olhei para a foto. Olhei para o seu rosto, para o meu sorriso de outra época, e esperei o soco no estômago. Esperei o nó na garganta, a falta de ar, aquela queimação familiar da raiva. E não veio nada. O peito continuou leve, respirando no mesmo ritmo calmo. Ficou apenas um silêncio morno. Olhar para você ali virou o equivalente a olhar para um cartão postal de uma cidade onde eu morei há muitos anos, eu reconheço o lugar, sei o que vivi ali, mas sei que não pertenço mais àquela paisagem. Guardei a foto de volta, fechei a caixa e continuei o meu dia. Fiquei feliz comigo mesmo, mas ao mesmo tempo, tão triste.