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1883 - Capítulo 5: QUEIJO Sensível

Fe_
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A tela tinha rachado na queda. As notificações sobre Craig ainda estavam lá. Cody ficou olhando para elas por um momento — a casa em chamas à sua frente, os mortos ao redor, e aquelas mensagens pequenas na tela rachada. Dor e Sofrimento, era aquele o futuro que o esperava, que ele via em todos aqueles cadáveres.

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o final dessa guerra acontece nesse capítulo ou ainda tem mais? porque o jeito que saiu, parece que você tá mostrando o antes disso tudo rebentar, sabe

o final dessa guerra acontece nesse capítulo ou ainda tem mais? porque o jeito que saiu, parece que você tá mostrando o antes disso tudo rebentar, sabe

Conteúdo da publicação

Cápitulo 5: QUEIJO

CODY

— Você falou com o Arthur? — A voz do Craig saia alto do viva voz do celular do Cody.— aquele muluque tava mais estranho que o normal.

— Claramente aquela parada deu errado, não sei como. — Ele respondeu enquanto pegava a lasanha do micro-ondas. — ainda não tive tempo de falar com ele, acho que ele só não teve coragem.

— Covarde do caralho! — Craig exclamou de volta estourando o som do celular do Cody. — A gente não pode contar com ele pra isso mais não. Aquele ali vai ficar chupando as bolas do Fenrir e companhia pra sempre.

O cheiro de queijo e molho quente se espalhou pela cozinha, Atraindo a rata sanguessuga da Lila que havia acabado de chegar, o Craig pensou enquanto escutava a Cody falando com ela bem baixo através da ligação deles.

— Vou precisar cola lá na casa do logan de tarde pra conversar com ele sobre isso. — Cody fala enquanto se jogava no sofá mofado.

Lila devorava a lasanha ao lado dele.

Ele procurou o controle da televisão, uma caixinha velha que parecia mais antiga que a própria casa. — Saber se o acordo ainda tá de pé. Você pode colar lá na casa do arthur? Enquadrar ele?

Craig ficou em silêncio.

Do outro lado da linha, só se ouvia alguém mastigando.

— Algum problema pra Você é? ta pagando de doido? — Craig escutou o Cody perguntar. As palavras saíram emboladas entre uma garfada e outra.

Ele só não sabia dizer se o que ele enchia tanto a boca, era a lasanha ou as bolas de qualquer um que se coloca-se como superior dele.

— Problema nenhum não mano — tá tranquilo. — Antes que o Cody pudesse responder o Craig havia desligado.

— Tá tudo bem amor? — Lila perguntava a ele com sua voz doce enquanto comia sua lasanha e ele finalmente havia achado o controle da televisão. — Sobre oque Vocês estavam conversando?

se espreguiçando naquela sofá a lado dela tentando achar uma posição confortável. — Nada importante querida... — Ele respondeu hesitante enquanto voltou a assistir o desenho que passava.

Nele, uma raposa magra perseguia uma pequena ave de penas azuis pelas estradas do deserto. A raposa armava armadilhas, construía engenhocas absurdas e planejava a captura perfeita. Mas nunca conseguia.

Cody observava aquilo em silêncio, enquanto a Lila passava a lasanha para ele e assistia o desenho antigo que fez parte da infância de muitos da época.

Ele percebeu que, depois de tantos anos, a raposa já não perseguia a ave por fome. Nem por ódio. Ela a perseguia talvez porque não sabia fazer outra coisa. Se um dia a capturasse, talvez descobrisse que havia desperdiçado a vida inteira correndo atrás de algo que nem queria mais.

Ele continuava vendo aquele desenho, aquele episodio havia estreado na época que ele viu Fenrir pela primeira vez, quando ele foi adotado pela sua tia.

Talvez eles fossem iguais.

Seu primo era a ave: sempre um passo à frente, sorrindo, escapando de tudo, como se as consequências e a responsabilidade não o atingissem e o mundo tivesse sido feito para deixá-lo vencer.

E ele era a raposa: colecionando fracassos, talvez seja o carma que herdou de seu pai, planejando a próxima tentativa, convencido de que eliminar o outro finalmente lhe daria paz, maldito tinha sido o dia que ele influenciou o Fenrir a entrar pra essa vida e não o sufocou enquanto dormia.

Na tela, a ave azul desapareceu no horizonte. A raposa correu atrás e, um segundo depois, caiu de um penhasco.

O episodio encerrou.

A raposa desapareceu da tela.

Começou um comercial sobre portas falsas. Portas que não podia ser abertas pois não davam em lugar nenhum.

Pela primeira vez em muito tempo, Cody não sabia dizer qual dos dois ele queria que tivesse vencido. — Talvez a raposa não fosse tão inteligente. — Ele pensou em voz alta e nem percebeu.

— Eu acho ele bem inteligente, as armadilhas dele são bem criativas.

Ele ouviu a Lila responder se encostando no seu ombro, com um toque quente e reconfortante. Diferente daquela manhã.

— Eu não sei, se Você reparar tudo que ele fez e bem parecido e previsível, meio-maluco.

Lila ouvia aquilo com um pequeno sorriso e se levantando pra abrir as cortinas, trazendo a luz da manhã para aquele lugar.

— Como ele nunca pensou em sacar uma arma? — Cody falou sentindo o frio do metal da sua pistola cintura.

— Talvez ele nunca quisesse realmente matar a ave. — Respondeu Lila de volta antes de se dirigir ao banheiro.

— Quem sabe se a ave conseguiria correr mais rápido que uma bala. — Cody falou um pouco mais baixo pra si mesmo.

Ele não resistiu muito sua consciência precisava de algum alivio. — O que Você acha da gente? — Cody perguntou da porta do banheiro a ela.

Eu te amo, enxergo um futuro lindo pra gen... — Antes que ela pudesse concluir ele interrompe ela com uma rispidez na voz incomodada.

— Eu e o Fenrir. Você acha que vamos muito longe depois de tudo isso? — O cheiro de terra molhada agora era forte, a lasanha não estava mais tão quente.

— Eu não sei... — O clima parecia se abrir do lado de fora . — Nunca formei uma opinião sobre isso. Acho que sim Vocês dois são bons né, os melhores daqui.

Cody não respondeu. Apenas sorriu para ela e acenou com a cabeça antes de deixá-la sozinha.

Pela primeira vez em muito tempo, a ideia de puxar o gatilho parecia cansativa. Ele havia entendido um pouco do desgaste do primo e do Ryan, o motivo daqueles olhares cansados, quando mandava eles executarem um Rival, a pior parte era a espera.

CRAIG

Era quase meio-dia. Craig só havia ido a Williamsburg uma vez, havia um ano.

Nesse tempo, sua percepção sobre o lugar nunca mudou. O cheiro de merda, o ar mais limpo do que o da cidade... Ainda assim, ele não deixava de pensar em como aquele lugar tinha um ar psicótico e miserável.

Ele dirigiu até a casa de Arthur. Sabia muito bem quais ruas devia evitar para não passar pela casa da avó de Fenrir.

Avistou a pequena casa, com a pintura descascando, e parou alguns metros antes. Ao descer do carro, pisou na bosta de um cachorro, sujando a bota, e o fedor daquele lugar invadiu suas narinas, acostumadas ao cheiro de cigarro da cidade.

Irritado, limpou a bota na grama.

— Lugarzinho imundo do caralho.

Praguejou enquanto caminhava, limpando a bota até a frente da casa de Arthur.

Antes que batesse à porta, escutou:

— Ele não tá.

Era a voz fina de um garoto que havia parado mais acima, em uma bicicleta azul e branca.

— Foi visitar a mãe. Quer deixar um recado? Moro só a algumas casas.

— Não, tá tranquilo. Valeu.

Craig respondeu olhando para o garoto, que usava uma pulseira de prata e permanecia sentado na bicicleta, encarando-o de cima a baixo.

— Então o que você quer aqui, otário?

O garoto perguntou sem piscar para Craig, que já havia lhe dado as costas.

— Aqui não é sua área, e você tá muito longe de casa.

O garoto falou, largando a bicicleta enquanto colocava uma das mãos no bolso do casaco da mesma cor.

Craig se virou para o garoto, que já não parecia tão inocente assim.

— Fica tranquilo, moleque. Também trabalho pro Cody e pro Fen.

Craig não se lembrava daquele garoto. Ele parecia ter só treze anos, e Cody não costumava trabalhar com menores.

— Seu único engano é que eu só trabalho pra um deles, vampiro.

Ele fez uma breve pausa antes de continuar e abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Mas tá suave. Só não vende nada por aqui. O movimento desse lugar tá na minha responsa.

Craig escutou aquilo e sentiu um calafrio. Aquele moleque não tinha cara de quem só vendia droga.

O garoto se afastou, tirando a mão do bolso e saindo com sua bicicleta.

"Seria estranho eu vir aqui e não falar com o Fen?"

Pensou consigo mesmo enquanto observava o moleque virar a esquina.

Ele pegou o celular do bolso.

— 12:37.

O Cody não tá mais por aqui essa hora.

— Por que não, né?

Falou para si mesmo enquanto entrava novamente no carro e dirigia até a casa da avó de Fenrir. Sua caminhonete não era muito discreta naquele lugar.

Ao virar a rua pela qual havia evitado passar quando chegou, conseguiu ver Fenrir lavando a caminhonete com uma mangueira. Junto dele havia alguns garotos que pareciam adolescentes. Estavam bebendo e fumando. Mesmo de longe, Craig conseguia escutar a música que eles ouviam, e o odor característico de Fenrir e de seu pessoal ficava cada vez mais forte. Aquele garoto já estava lá, ajudando Fenrir.

— E aí, cria?

Craig falou de dentro do carro, parado próximo de Fenrir, que estava de costas para a rua, lavando a caminhonete.

— E aí, irmão. Quer fumar um? Tem whisky aí.

Fenrir falou apontando para as bebidas próximas aos garotos que estavam na varanda da casa. O cheiro de maconha naquele lugar incomodava até Craig.

— Que nada, valeu. Nesse sol e de barriga vazia, vou acabar passando mal.

Fenrir apenas sorriu de canto. Deu mais um trago no baseado enquanto passava para o outro lado da caminhonete com a mangueira.

— Não precisa se preocupar não, cria. Tá em casa. Qualquer coisa, nóis te socorre.

Fenrir falou, rindo de canto, enquanto chamava com a mão o garoto que estava com Craig mais cedo. O garoto ajudava Fenrir a lavar o lado oposto da caminhonete.

— Vocês tão legal? Fizeram uma bagunça sinistra lá. Não sei como, mas não saiu em jornal nenhum. E o DEA não tá mais na cidade.

Pela primeira vez, Fenrir demonstrou alguma reação diferente ao que Craig dizia.

Ele largou a mangueira e se aproximou da janela do carro. Deu uma boa olhada no interior do veículo, que estava um pouco sujo, mas nada fora do normal. Em seguida, colocou a mão para dentro do carro e levantou a camisa de Craig.

— Não tô com escuta não, idiota. Tô tão envolvido quanto você nisso.

Craig retrucou, reagindo à desconfiança de Fenrir.

— Exatamente. Por isso mesmo eu precisava ter certeza. O Cody falou com o pessoal de Manhattan, e eles conseguiram abafar essa parada.

Fenrir falou olhando para os lados, verificando a rua.

— Porra! Foi uma puta pá de terra que eles jogaram em cima então. A bagunça foi grande. Os homi podem até ter deixado pra lá, mas tá todo mundo na cidade comentando. E agora as coisas só vão ficar piores.

— Por quê? O que você tá sabendo?

Fenrir perguntou olhando diretamente para o amigo. Craig evitou seus olhos enquanto apertava o volante e o arranhava com o polegar.

— Não tá sabendo? O irmão do Logan saiu da prisão. Fiquei sabendo que ele vai organizar a área da família na base da guerra. O bagulho vai ficar doido.

Fenrir escutou aquilo e se afastou do carro, levando as mãos aos cabelos.

— Caralho... Aquele desgraçado não ia ficar lá trinta e cinco anos? Que merda, mano. Pica atras de pica.

— Ele só precisou dar um arrego legal pro juiz. Pelo que falam por aí, tá sendo patrocinado pelo Korben. Quer que eu deixe alguma ordem com os caras lá da fronteira com a área deles?

Enquanto Craig falava, um forte brilho atingiu seus olhos. Era o relógio de Fenrir refletindo a luz do sol. Por um momento, ele ficou até hipnotizado pela beleza daquele relógio.

— Não. Deixa que eu resolvo essa parada. Vou passar por lá hoje e falar com os moleques.

Fenrir voltou a relaxar e se virou novamente para Craig.

— Você já falou disso com o Cody?

— Não. Fui lá, mas ele não tava.

— Demorô, então. Vou mandar uma mensagem pra ele. Fala pro seu pessoal manter a cabeça fria. Butte vai virar cenário de guerra. O bagulho vai lombar.

LIMIAR

— Quer que eu te deixe na casa da sua mãe? — Cody murmurou para Lila enquanto não tirava os olhos do transito.

Era algum feriado local que estava causando um congestionamento em toda cidade. Eles estavam no centro de Butte, onde havia mais turistas que o ano passado. O ar cheirava a escapamento quente e pinho.

Talvez eles estejam tão alheios ao o que aconteceu ali quanto o Cody aos feriados de onde vive.

— Não precisa — Ela se esticou no banco para olhar a mercearia adiante. — Ótimo, ainda bem que não fechou ainda, me deixa ali. Minha mãe vai fazer um jantar hoje pra família, preciso comprar algumas coisas. Você vem?

Cody tamborilou o polegar no volante por um instante.

— Claro, vou passar lá mais tarde. — Ele parou o carro em frente a mercearia que ela havia apontado.

— Tchau tá. — Ela se inclinou, deu-lhe um beijo rápido no canto da boca e saiu do carro.

A porta bateu com um baque surdo. Ele ficou ali, motor ainda ligado, observando ela atravessar a calçada. O jeito como o cabelo dela balançava, a forma descontraída como se movimentava... era hipnotizante. Havia algo naquela mulher que o fisgava de um jeito que ele não conseguia explicar. Era diferente de todas as outras. E isso parecia o incomodar mais do que ele queria admitir.

Ele se esforça pra sair daquele engarrafamento e vai em direção a Gaylord St.

Suas mãos suavam ao volante que dificultava mais a pegada. A reunião com o Korben parecia conversa de criança comparado ao resultados que ele esperava desse almoço.

O ar tava refrescante, o sol tava forte, estava um lindo dia.

Chegando no bairro do Logan, uma área dominada por vampiros, em sua maioria negros.

Os espectros — Cody passava devagar pelas ruas, havia crianças brincando e correndo de uma lado para o outro, e o pessoal do Logan tava em cada esquina, cada um cuidava da própria rua em épocas de festas, com muito turistas, eram sempre uma boa oportunidade de negocio, e quem diria que alguma daquelas crianças correndo poderia ser um aviãozinho pra eles, de certa forma aquilo encantava os turistas.

E causava o efeito contrario ao Cody que nunca gostou de envolver menores nesse negocio sujo.

Ele estacionou o carro a uma rua da casa do Logan, a rua da casa dele já estava lotada, na frente da casa havia muitas pessoas bebendo, fumando e dançando.

e no meio delas, se destacava um homem alto, forte, com um cabelo rasta, dançando um reggae e sorrindo como se tivesse acabado de receber a melhor noticia no mundo, Travis.

O irmão mais velho do Logan, que acabara de sair da prisão, Cody andava até ele um passo após o outro enquanto o Travis que já havia o visto do outro lado da rua começa a fazer o mesmo no ritmo do reggae que tocava.

É bom te ver ladrão. — Travis cumprimentou Cody com a mão livre, os dois estavam agora no meio da rua. — Venha, bora tomar uma cerveja.

Craig estava na estrada com seu carro. Parecia uma tarde adoravel aquele dia, e extremamente promissora. Ele estava com o celular em uma das mãos, as mensagens de texto com Cody estavam abertas. Ele digitava enquanto dirigia.

— E ai, Cancela o acordo, da um migue, o Fenrir va...

Ele tentou concluir a mensagem enquanto dirigia a tempo. Pensou em centenas de motivos para fazer e enviar — mas não conseguiu achar nenhum.

Por que tirar o Cody de lá, se ele está exatamente onde deveria.

Asilo Silver Bow Elder Haven. Craig parou o carro no estacionamento, o lugar não parecia dos mais caros, mas parecia ser decente.

— Eu já tô indo. Vocês podem trocar os lençóis da cama dela? Ela derrubou um pouco de suco. — Obrigado.

Arthur saiu do asilo depois de falar com a cuidadora que estava por perto.

Em frente ao asilo, acendeu um cigarro e, dali, já avistou Craig, que estava encostado no carro, olhando de volta para ele. Arthur deu alguns passos em sua direção, fumando o cigarro, mas ainda permaneceu a uma boa distância.

— O que aconteceu? — Craig indagou, abrindo os braços, inconformado. — Achei que tínhamos chegado a um consenso.

Ele olhou nos olhos de Arthur, que continuava calado, fumando seu cigarro. Havia um ódio em suas palavras que poderia ser cortado com uma faca.

— Achei que tínhamos um puta de um acordo. Agora eu tive que tomar uma merda de uma decisão por culpa sua e da sua covardia! — Craig gritou, desencostando do carro. — O que aconteceu?

— O que você acha que sabe? — Arthur falou em pausas cansadas. — Não importa... agora, ele sabe mais.

Arthur finalmente abriu a boca e jogou o cigarro no chão.

— Isso não é sobre saber mais ou menos, seu retardado. Muita bala vai voar. Você acha que essa porra é algum tipo de jogo?

Craig continuou parado, olhando para Arthur com um olhar vazio e desesperançoso, analisando aquele homem que podia parecer fisicamente, com seu velho amigo, mas tinha algo de diferente e familiar em seu olhar.

— Quer saber? Foda-se. Acho que já tenho minha resposta. — Craig lançava um olhar desdenhoso para o Arthur — Ele te falou que eu tava vindo, né? — Deve ter falado. Aquele cara não dá ponto sem nó.

— Você não têm chance, nunca teve.

A voz de Arthur soou arranhada nos ouvidos de Craig.

— Não se preocupe.

Craig deu um falso sorriso enquanto se virava para guardar o celular e a carteira dentro do carro.

— Eu me viro com o que a vida me dá. Não nasci quadrado.

Arthur virava o rosto em direções opostas sempre que mais uma palavra saia da boca do Craig, e com os lacrimejando olhou para ele.

— Eu também não, — Com dificuldade para falar, como se sua boca falasse contra sua vontade. — vampiro.

Arthur parou e olhou para o lado, de onde um carro branco com faixas azuis, se aproximava devagar.

Fazendo Craig congelar onde estava. Ele estava pronto para avançar em Arthur, mas agora seu passo parecia preso ao chão. Virar espectro e tentar fugir sob uma chuva de balas, morrer com tiros nas costas como um covarde, não era uma opção, nem um jeito bom de ser lembrado.

Com os vidros levantados até a altura dos olhos de quem estava lá dentro. O veículo estava cheio. O carro parou entre os dois.

— Como você havia dito... não dou ponto sem nó.

Arthur se despediu antes de entrar no carro.

Craig por um breve instante percebeu como é ruim saber quando vai morrer, e pior ainda era saber que era em alguns segundos, seu coração acelerado não parava de bater e martelava sua mente diluindo seus pensamentos, como se o corpo já tivesse aceitado a situação.

O vidro do passageiro, ao lado do motorista, abaixou. Antes mesmo que Craig tivesse tempo de virar espectro, aquele garoto com quem havia falado mais cedo apontou um .357 cromado para seu rosto.

Balas de prata com cruzes cravadas na ponta voaram em sua direção.

O estampido veio antes que Craig entendesse o que estava acontecendo.

O primeiro tiro arrancou parte do seu maxilar.

O segundo apagou um de seus olhos.

Depois vieram os outros três.

O carro arrancou rapidamente, cantando pneus.

Todos os tiros haviam atingido do pescoço para cima.

Craig caiu para trás, batendo contra o carro antes de desabar no chão, próximo à porta. Seu coração parou de bater no mesmo instante. Com o rosto e pescoço destruído por buracos de balas, a última coisa que havia visto foram os olhos daquele garoto e os flashes das cruzes nas pontas das balas, que saíram do cano do revolver.

—TREM-BALA

— É nóis porra! — Travis exclamou apertando a mão do Cody.

Travis se sentou na cadeira da mesa pequena da cozinha. Logan encostado na pia, Leviano de pé no canto. Quatro vampiros num espaço pequeno demais para o peso do que estava sendo dito.

— Brody e Tyler...

— E eu lamento muito. — Cody interrompeu o Leviano, que franziu a testa no mesmo instante.

— A gente não quer seus lamentos não, maluco. Quero é acabar a vida daquele pau no cu do seu primo. — Leviano jogou as palavras sobre o Cody que as sentiu como um murro no queixo.

— Minhas tias não param de chorar. Tamo curtindo, mas com muita tristeza no coração, tá ligado? Por incompetência sua e do meu irmão. — Travis não deixaria Cody e Logan esquecerem o erro.

— Ele vai estar naquela parada que vai rolar hoje à noite. — Cody tossiu ao falar e abriu a cerveja que Leviano havia oferecido. — Ele e o pessoal dele.

— Então demoro... — Travis fez uma pausa pra coçar a cabeça. Achou ter escutado algo lá fora — talvez os sobrinhos já estivessem brincando com os fogos. — Você e meu primo vão lá e resolvem isso. E nossa expansão começ—

— Tá, e eu? — Logan balançou a cabeça discordando antes que Travis terminasse. — Tenho que ir junto nessa parada. Eu mesmo quero matar aquele filha da puta.

— Você teve sua chance e um irmão meu e um primo morreram. — Leviano respondeu antes que Travis pudesse. — É melhor você ficar cuidando das paradas por aqui e evitar um ataque de fora de Butte.

— Nós tá atrapalhando alguma coisa? — Travis questionou o Cody, que olhava o celular travado de notificações de grupos locais.

— Não é nada, só parece que mataram alguém do meu pessoal... — Ele fez uma pausa, lendo onde tinha acontecido, torcendo para não ser quem ele estava pensando. — Eu resolvo depois. Então o projeto de expansão?

Apesar das palavras, o sangue havia parado nas veias. O instinto predatório congelou. Não era possível o Fenrir ter feito aquilo.

— Então tá, resolve depois. Escuta aqui, sobre a expan—

Os gritos vieram antes dos tiros.

Não eram gritos de criança brincando com fogos. Eram gritos de adultos implorando, para viver — o tipo que sai involuntário, arrancado pelo terror antes que o cérebro processe o que os olhos viram.

Depois vieram os tiros. Contínuos, sem parar, de todos os lados ao mesmo tempo.

Os quatro se jogaram no chão por reflexo.

A audição de vampiro do Cody — que segundos antes processava conversas paralelas, passos de criança lá fora, o barulho do vento nas árvores da rua — agora estava sobrecarregada. Cada disparo chegava amplificado, cada grito se multiplicava, e por baixo de tudo isso, denso e avassalador, o cheiro. Sangue. Sangue humano em quantidade que não era neutra para nenhum vampiro — era torturante, era primitivo, era o tipo de coisa que parte do cérebro queria correr em direção enquanto a outra parte queria correr para longe.

Leviano pegou a doze em um dos armários e Travis a pistola da cintura. Os dois foram até a porta da frente.

Um carro parado na rua, portas abertas. Três homens com coletes desceram atirando em todo mundo. Um correu para se esconder atrás de uma das mesas do jardim que havia caído, disparando em direção à porta. Eram muitos tiros. Leviano e Travis mal conseguiam responder.

Logan e Cody tentaram flanquear pelos fundos. Voltaram antes de atravessar a porta — um atirador nos fundos disparou em tudo que tentou escapar por lá. Uma das tias de Logan estava parada no corredor quando as balas a alcançaram. Ela não caiu imediatamente. Ficou parada por um instante absurdo, como se o corpo ainda não tivesse recebido a informação, e então foi ao chão de uma vez, a cabeça bateu no piso de madeira com um som, desconcertante e definitivo que Cody não conseguiria esquecer.

— Droga, os filhas da puta tão por todos os lados! — Logan gritou da sala, a voz partida de raiva e de algo que não era só raiva.

Cody estava com uma feição aterrorizada. Todo aquele sangue espirrado pelas paredes, os gritos, o choro. Madeira, vidro e balas voavam de todas as direções. O instinto predatório que havia congelado com a notificação do celular agora batia contra o terror como dois animais dentro do mesmo corpo.

Antes que pudesse concluir qualquer raciocínio, escutaram mais dois carros chegando. Mais atiradores apareceram.

— Olha a cor do segundo carro. — Leviano gritou para Travis do outro lado da sala. — Azul e branco. Israel. São os homens do Fenrir, te dando as boas-vindas, primo.

— Travis, me passa a Mac-10! — Logan gritou deitado no chão.

Travis jogou a arma que estava na estante. Logan a pegou no ar.

Foi quando Logan subestimou o número de atiradores lá fora. Ou não subestimou — e foi assim mesmo, de propósito, porque era o tipo de homem que era.

Assumiu a forma semi-espectral. Passou pela sala como um tornado e foi até a frente da casa.

Ele voou.

Lá de cima, a uns doze metros do chão, Logan via tudo — o bairro inteiro se abrindo abaixo dele como um mapa em chamas. De cada casa saía fumaça. De cada rua vinham tiros e gritos e choro, num raio que se estendia por quadras em todas as direções. Não era um ataque à casa do Logan. Era um ataque coordenado a tudo que era deles em Butte, executado ao mesmo tempo.

Logan disparou para baixo. Derrubou dois.

— Para porra! seus filhas da puta! — Leviano gritou e atirou ao ver o primo ser cravejado com balas.

As balas chegaram de todos os lados ao mesmo tempo.

Cruzes gravadas na ponta. Ferem qualquer vampiro, em qualquer forma.

O primeiro tiro pegou no ombro e girou o corpo dele no ar. O segundo pegou no peito e tirou o fôlego e rasgou o pulmão com um buraco que vazou sangue no ar. Os outros ele perdeu a conta — o corpo já estava caindo, mas os dedos continuavam puxando o gatilho por reflexo, atirando para tudo, para nada, para o céu, para o chão que se aproximava rápido demais.

Ele bateu no jardim e o chão rachou ao redor dele.

Dois atiradores mais próximos da porta jogaram granadas para dentro da casa.

— CORRE! — Travis gritou tão alto que ecoou por toda a casa como se as paredes tivessem repetido o aviso.

Sem querer saber se ainda tinha alguém nos fundos, todos correram para trás da casa e saíram atirando. Se surpreenderam por não ter ninguém lá esperando.

Logo descobriram o porquê.

A casa explodiu atrás deles.

A onda de calor os jogou para frente. O chão subiu. Cody foi ao ar e voltou ao chão sem entender bem a ordem dos eventos. Janelas quebraram em todas as casas da rua. Parte da estrutura estava em chamas antes mesmo de terminar de cair.

Travis se levantou devagar.

Ficou de frente para o que restava da casa. O fogo subia alto, laranja e branco, iluminando os corpos espalhados no jardim — amigos, família, pessoas que estavam comemorando uma hora atrás. Alguns ainda se moviam. A maioria não.

Ele não disse nada por um tempo.

Depois chorou.

Não foi o choro de alguém que perdeu. Foi o choro de alguém que entendeu, num instante específico e irreversível, que a guerra que ele pensava estar travando era menor do que a guerra que havia chegado até ele.

— Chama uma ambulância, caralho! — Travis gritou para o primo que estava jogado no chão, e foi correndo ajudar quem ainda respirava.

Lá do chão, tossindo, com dores em todo o corpo, Cody via a casa em chamas. Um zumbido forte bagunçava a mente, entorpecida pelos gritos e choro de todos ali. O cheiro de sangue era tão denso que tapava tudo — o cheiro de fumaça, de madeira queimada, de pólvora.

Ele olhou para o celular na mão. A tela tinha rachado na queda.

As notificações sobre Craig ainda estavam lá.

Cody ficou olhando para elas por um momento — a casa em chamas à sua frente, os mortos ao redor, e aquelas mensagens pequenas na tela rachada. Dor e Sofrimento, era aquele o futuro que o esperava, que ele via em todos aqueles cadáveres.

Thoughts

  • versodemadrugada

    porque o Cody vê a casa queimando e a primeira coisa que faz é olhar pra tela rachada do celular? qual é a conexão que você tá tentando guardar aí?

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  • TintaEAvesso

    o final dessa guerra acontece nesse capítulo ou ainda tem mais? porque o jeito que saiu, parece que você tá mostrando o antes disso tudo rebentar, sabe

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  • MargemDaPagina

    a raposa e a ave carregam o texto inteiro. você suspende a ação pra meter a cabeça dele num desenho infantil, enquanto lá fora tudo se monta. estrutura assim é difícil de segurar.

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