Os três rindo no final é grito mesmo, cara. Sem medo, sem avacalho, só os três no caos. Tá arrebentado.
1883 - CAPÍTULO 4: Ratoeiras - Parte 1 Sensível
Dylan e Ryan soltaram a gargalhada — aquela risada específica que os dois tinham, caricata demais pra ser real, vilã demais pra ser inocente. Fenrir riu junto, as risadas ecoavam dentro do carro, como se tivesse mais uma persona rindo junto, talvez a própria morte estivesse junto deles naquele momento.
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Os três rindo no final é grito mesmo, cara. Sem medo, sem avacalho, só os três no caos. Tá arrebentado.
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CAPÍTULO 4: Ratoeiras - Parte 1
2 horas da tarde.
Algumas crianças brincavam pela vizinhança.
— Tô cheio, vó, obrigado. — Fenrir entrega a ela um prato vazio onde ele acabou de almoçar.
— Então agora que você tá morando por aqui, você vai ficar vindo pra cá como se fosse um restaurante? — a vó dele questionou, indo até a cozinha. Ela põe o prato na pia enquanto o Fenrir está sentado no sofá que estava com grandes manchas do sangue dourado dele.
— Achei que sentisse minha falta, velha bipolar. — Fenrir, enquanto arrota e se levanta. — Tem alguma roupa minha aí? Vou tomar um banho, o aquecedor de lá de casa tá osso.
— Tem algumas que você comprou e nunca usou, na época que você morou aqui. Tá em uma caixa no meu guarda-roupa. — Ela responde gritando da cozinha enquanto ele vai para o banheiro.
Fenrir tira suas roupas devagar, ainda sentindo dores no corpo. Ele tirou a camisa e viu que ela estava ficando cada vez menos manchada de sangue. Os cuidados de sua vó sempre foram bons. Ele entra debaixo do chuveiro. A água passava pelo seu corpo e parecia levar um peso junto. A água quente passava por sua pele como ácido limpando uma camada externa de ferrugem, lavando e levando os problemas que a noite tinha trazido.
Debaixo da água, com os olhos fechados, contemplando o momento de prazer, Fenrir se via não mais no banheiro, e sim no meio da avenida principal — onde eles explodiram os policiais do DEA. Do meio do fogo e dos gritos tão altos e fortes que pareciam causar um pequeno terremoto em Butte, o esqueleto do motorista queimando olhava para o Fenrir. Mesmo sem olhos, sem rosto, se quebrava até formar um sorriso.
— Olha pra esse filha da puta.
Uma gargalhada sinistra o interrompia, que seguia por um sorriso ainda maior que se estendia além da visão periférica do Fenrir.
— Essa merda sim é uma parada gangster, mano.
Fenrir vê um cavalo branco montado por alguém usando uma armadura negra como o vazio do espaço. Seus olhos pareciam estrelas distantes. Suas asas abriam, revelando penas longas e brancas que iam de ponta a ponta a largura da rua. Ele cavalgava lentamente em direção ao Fenrir, que sentia seu coração batendo tão rápido que parecia que ia pular do peito. Até que aquela figura que parecia querer se aproximar só se distanciava mais. A rua parecia impedir a aproximação deles. Então ele é pisoteado várias vezes por um pé colossal, ligado a um gigante maior ainda, um gigante de armadura também negra com detalhes verdes, e uma espada tão longa quanto seu braço. Ele rugiu, fazendo o horizonte daquele lugar se curvar à sua vontade.
O horizonte do pôr do sol se curva a ponto de formar um círculo vazio que engole toda a cidade e o cavaleiro some junto de seu cavalo branco. E lá está o Fenrir vagando no vazio de sua mente. Uma sensação sobre seu peito que ele não conseguia pensar em palavras para descrever, se sentindo como uma bolsa de sangue, ossos e pele. E na sua frente, um buraco negro grande o suficiente para ter engolido tudo à sua volta e ter deixado ele flutuando no vazio próximo a ele, observando a beleza que ele via naquela cidade ser consumida por aquele buraco vazio que parecia não ter fim. Aquela beleza que aos poucos deixava sua mente, aquela beleza que aos poucos deixava seus olhos marejados, a ponto que até suas lágrimas eram sugadas pro buraco.
Então aquela sensação de dedos quentes em seu rosto, confortáveis e acolhedores, uma sensação que ele desconhecia há uma centena de anos. E ele acorda caído no box do banheiro, pelado, com sua vó tentando levantar ele.
— Que droga, garoto, você tá bem? — ela perguntou com a voz abafada, fazendo força para não deixa-lo cair completamente.
— Vem cá, você tomou o seu remédio hoje? — Ela pergunta preocupada. — De todos que você podia esquecer, você ficou sem tomar logo o mais importante? — ela concluiu enquanto o Fenrir se levanta e ela ajuda ele a ir pro seu quarto.
Meio tonto, caminhando com a ajuda de sua vó:
— Ele não tá fazendo mais tanta diferença ultimamente. — Ele pôs a mão sobre a cabeça sentindo uma forte dor aguda interna. — Sai, vou me vestir, tenho que sair e já tô atrasado. — ele responde se sentando na cama.
— Menino ingrato do caralho, da próxima vez deixo você lá pra se afogar no chuveiro. — A vó dele joga uma toalha pra ele antes de sair do quarto.
Ele se enxuga pensando no que acabou de ver. Tudo parecia real demais para um pesadelo. “Efeito da toxicidade da prata no seu coração?”, ele pensou, já que não havia tomado seu remédio essa manhã. Ajudava a diminuir os efeitos colaterais da toxicidade dela no corpo de um licano. Ele olha para os buracos de bala e os cortes de prata costurados por seu corpo do dia passado, pensando que talvez os resíduos desses machucados tenham deixado o efeito colateral mais forte. Talvez.
Ele se veste com uma das roupas que estava na caixa que sua vó falou, e dentro da caixa ele também vê um revólver, o primeiro que ele comprou com seu próprio dinheiro: um .357 cromado, russo, carregado com balas de prata. Aquele revólver trouxe boas lembranças, lembranças de quando ele decidiu tomar pra sua vida tudo que quis, mesmo que à força. Passar vontade passou a não ser mais uma opção.
Ele se vestiu com um dos trajes novos da caixa, pôs o revólver na cintura por baixo da camisa polo nova e, quando abriu a porta pra sair do quarto, sua vó já está esperando lá.
— Toma, fiz esse chá pra você, vai ajudar. — Ela diz, um pouco menos preocupada. — Passe aqui mais tarde, vou te dar um pouco dessas ervas pra você fazer esse chá pra você. Toda manhã tem que tomar uma xícara, é mais forte que seu remédio. — Ela termina de falar enquanto Fenrir pega o chá e bebe enquanto vai até a sala com ela.
— Vó, eu pedi pros meninos lavarem seu carro hoje mais cedo. Posso pegar emprestado? Vou na cidade comprar algumas coisas lá pra casa. Amanhã pela manhã ele já tá aqui.
A vó dele escutou com uma cara de quem não acredita muito na desculpa. Hesitante ela vai até a sala, abre uma gaveta de uma estante ao lado do sofá e pega a chave.
— Você não pode continuar com a vida bagunçada assim não, Fen. Você não quer nada com a vida, não é, meu filho? Vou emprestar só dessa vez, mas se eu ouvir mais algum boato seu pela cidade — nunca mais tá me ouvindo? — Ela fala com uma voz mais triste e uma feição um pouco mais decepcionada. Ela não é alheia às coisas que ele faz e ele sabe que aquilo a machucava. Ele via nos olhos dela.
— Esse ano eu dou um jeito em tudo, vó. Isso é temporário.
— Por isso eu te imploro para ter cuidado. Não era nunca para você tá vivendo uma vida dessa... Seu coração é bom meu filho, voce pode tentar esconder isso, o quanto quiser. Mais eu sei que ele é bom. — A vó dele falou com a voz segurando o choro.
— Vó, eu te amo — te amo de verdade. Mas essa porra não é pra qualquer um não. Eu não sou refém de ninguém nem de nada não. Ninguém mais vai me derrubar. Um milhão, já fez bem ao mesmo tempo, que hoje já nem faz mais falta. — Ele da um beijo na testa enrrugada da senhora. — Apesar desses sete anos. — Sua voz pesa um pouco — Você ainda se cega com a ideia do tamanho da maldade, que eu cultivei em mim.
— Nem por mim, sua mãe ou irmã? — Uma lágrima caía do olho da senhora que se aproximou de Fenrir, apoiando as mãos em seu peito.
— Como eu disse, eu te amo de verdade, sou grato por tudo, mas já conversamos muito sobre isso antes. Você acha certo o que fizeram com você? — Fenrir segurava uma das mãos macias da senhora no seu peito. — Ou o que fizeram com minha família? A de verdade.
Fenrir se afasta.
— Sou bom nisso. Que me chamem de narcoterrorista, que me pintem o diabo que quiserem... E daí? Sinto que é esse meu propósito nesse mundo. — Os olhos de Fenrir encheram-se de lágrimas. — Eu quero tudo, tudo que lutei pra tá aqui hoje. 138 anos, esse é o débito deles comigo. Eu quero o mundo, e segurá-lo a minha mãos.
Fenrir se afasta dando um último gole no chá, um beijo na bochecha de sua vó que o observa sair pela porta da frente. Um garoto se aproxima de bicicleta, pega alguma coisa com ele, mas a senhora não consegue ver exatamente o que é. O garoto sai pedalando, Balançando a cabeça no ritmo de um reggae que tocava em seus fones, parecia feliz. Ela via Fenrir entra em seu carro, um Challenger Hellcat 2015, que estava estacionado em frente à casa ao lado da caminhonete do Fenrir. Dentro dele, Fenrir parece animado com o dia, apesar da manhã conturbada. Pra ele, todo problema tem uma solução, até pra morte. Ele ligou o som conectado ao celular e colocou um reggae no volume mais alto. A partida do carro parecia um touro descontrolado, com o carro em direção de volta a Butte.
Para ele sempre foi um pouco estranho sair e chegar de Williamsburg, longe de todas as leis dos homens, do estado e daqueles que se achavam seus iguais. O lugar parece uma memória desbotada onde não há nada além de quilômetros de terras vazias, mesmo estando bem próxima da cidade. Na mente dele, esse era o país das maravilhas, um pedaço de terra tão desconexo do resto que ele era a autoridade. Em seus sonhos e pensamentos mais profundos, ele podia ver todos aqueles hectares de terras vazias preenchidas por plantações, laboratórios e mísseis. O caminho pra cidade grande é tranquilo, diferente do que ele achava que seria. Os custos altos do Korben valem de alguma coisa pelo menos. — Fenrir pensou o caminho todo, até chegar na rua da mercearia do pai da Chloe. Ele passa direto e se lembra que tinha marcado de ir à festa com os seus amigos. Ele finalmente chega na rua Bittersweet Dr, uma área residencial de Butte com casas um pouco maiores, totalmente diferente de Williamsburg, mas não são mansões. Casas que estavam dentro do orçamento do dinheiro conjunto do Ryan, Dylan e Fenrir que se juntaram para comprar uma casa lá em segredo, caso um dia precisassem.
Chegando na Bittersweet Dr, passando por aquelas casas, as mangueiras giravam sobre os gramados. Crianças corriam atrás de uma bola. Em alguma casa alguém assava carne, e a fumaça tinha cheiro de carvão e cerveja. Fenrir estacionou o Challenger na garagem ao lado do carro do Ryan. Não era muito difícil errar a casa deles: o cheiro de haxixe escapava pelas frestas da porta e se espalhava pela calçada. E por fora, mesmo que se pareça com as outras — pintura retocada, grama cortada, aspersores fazendo pequenos arco-íris naquele início de tarde —, ela passava um ar pesado, como se alguém tivesse acabado de morrer e ali estivesse o assassino. Fenrir nunca lembrava o número da casa. Também nunca precisou. Havia alguma coisa nela que o puxava, como um anzol enterrado debaixo da pele.
Dylan apareceu armado na entrada antes que ele pudesse bater a porta.
— Finalmente, princesa. Demora do caralho, mano.
— Foi mal, viado. Tava resolvendo umas paradas. Viu minhas mensagens?
Fenrir entrou. A fumaça acumulada na sala era tão densa que ele ficou chapado só de respirar. Ryan estava no sofá com a garrafa pet na mão, pés na mesa de centro. Em cima da mesa: três pistolas e oito carregadores cheios.
— Já tá tudo no esquema. A gente só tava esperando você colar. Era pra ter vindo ao meio-dia, né ladrão.
— Tava batendo um rango na casa da minha coroa. Me dá um pega aí.
Dylan passou a garrafa. Ryan avisou:
— Dá dois pega nas manha. Esse haxixe que chegou tá forte. Pra você não ficar doidão lá e errar os tiros.
Fenrir deu dois tragos longos. Sentiu o haxixe subindo rápido — rápido demais.
Ryan distribuiu as pistolas. A do Fenrir era uma PT 1911 .45 ACP, carbono fosco, oito balas por cartucho mais uma na câmara. Ele apertou o ejetor. Completamente carregada.
Aquela pistola na mão parecia uma extensão do braço. Sempre pareceu.
— Elas tão carregadas com balas de prata — Ryan falou, olhando os carregadores na mesa. — Cruz gravada na ponta de cada uma. — A gente acabou de sair de uma situação fudida e já vai se meter em outra. Será que... — Uma ideia check agora, será se nós passamos dos 25, véi?
Fenrir pegou três carregadores e guardou nos bolsos.
— Provavelmente não. Mas aí, esse é preço que vamos pagar pra viver no paraíso dos gangsta's.
Dylan balançava a cabeça concordando com as falas do Fenrir, enquanto verificava o funcionamento de sua pistola.
Os três se levantaram, pegaram suas armas e saíram pela porta da frente.
Fenrir entrou no banco de trás. Dylan assumiu a direção. Ryan no passageiro. Garagem aberta, carro na rua, Gaylord St a 9 minutos.
No caminho, os três colocaram as balaclavas.
— O pivetão de lá deu a fita — Dylan falou, olhando se concentrando na estrada. — Tão fazendo um churrasco comemorando a saída da prisão do irmão do Logan, igual você disse. Vai tá geral deles lá. Até a família.
Ryan olhou pela janela lateral. Lá fora as nuvens pareciam se formar em um gigante com uma espada rasgando o topo de uma montanha. Ele fez uma nota mental: essa carga de haxixe estava aprovada, que parada maluca.
— Porra de família — ele disse. — Eles iam ter a consideração de escolher em quem atirar se fosse o contrário?
Fenrir olhou para si mesmo no retrovisor central. Só os olhos apareciam por cima da balaclava.
— Isso mesmo. Vou costurar todo mundo lá. Vai sobrar até pros pets deles, se eu vê lá é bala.
Dylan e Ryan soltaram a gargalhada — aquela risada específica que os dois tinham, caricata demais pra ser real, vilã demais pra ser inocente. Fenrir riu junto, as risadas ecoavam dentro do carro, como se tivesse mais uma persona rindo junto, talvez a própria morte estivesse junto deles naquele momento. E enquanto ria, Fen imaginou os dois rindo daquele jeito quando chegasse o dia de executar o Korben.
Seria em breve.
Thoughts
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PermalinkQue pesado, cara. A vó dele tá segurando tudo que tá vendo e ele já tá indo pro caos. Tipo, dói de ler isso aí.
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PermalinkOs três rindo no final é grito mesmo, cara. Sem medo, sem avacalho, só os três no caos. Tá arrebentado.
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PermalinkAquela parte no chuveiro, ele vendo o DEA explodir dentro da cabeça... é tipo um mundo inteiro caindo. Fico imaginando como pesa carregar tudo que ele carrega.
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PermalinkComo que termina essa história? Tipo, ele desce mesmo ou tem chance de virar?
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PermalinkO Fenrir é licano mesmo ou o haxixe tá muito forte? Porque a parada da toxicidade da prata toda dia parece coisa real mesmo, sabe?