CAHAYA
Antes de alcançar a estrada principal, Cahaya preferiu cortar caminho pelos campos.
A vasta planície era coberta por uma grama alta e fina, que ondulava ao sabor de um vento brando, como se a própria terra respirasse em paz. O caminho era longo, silencioso e muito mais seguro do que as largas estradas de terra, onde a lama escondia as marcas de carroças e onde os ladrões costumavam esperar viajantes desavisados.
Cada passo, porém, exigia esforço. Suas pernas ardiam de cansaço sob o peso da imensa espada de aço lunar presa às costas, e principalmente, pela armadura de placas que envolvia quase todo o seu corpo, transformando cada movimento em uma batalha contra o próprio peso do metal. O suor escorria por baixo das proteções, e seus músculos protestavam a cada nova passada, estava caminhando fazia horas.
Ainda assim, Cahaya continuava.
Ela havia aprendido, muito antes de empunhar uma espada, que o caminho mais fácil quase sempre era o mais perigoso. Por isso seguia adiante, deixando que apenas o som do vento atravessando a relva lhe fizesse música aos ouvidos. O horizonte parecia distante, mas, por alguns instantes, naquele mar de capim verde, era possível acreditar que o mundo ainda conhecia a paz.
Cahaya levou a mão à velha bolsa de couro que atravessava seu peito e, de dentro dela, retirou um mapa amarelado daquela região. Não o havia comprado. Na verdade, conseguira roubá-lo de um bêbado falastrão durante uma noite movimentada em uma taverna, há três noites. Se o homem havia sentido falta do pergaminho na manhã seguinte, ela jamais soube.
Ela desenrolou o mapa com cuidado e passou os olhos pelas estradas riscadas em tinta vermelha e pelas manchas marrons que representavam florestas e montanhas que se diferenciavam pelas formas geométricas. Girou o pergaminho algumas vezes, comparando-o com a paisagem ao redor, até conseguir se localizar. Não muito distante dali, aos pés de uma grande montanha, havia uma pequena vila chamada Kurahbi. O nome lhe era completamente desconhecido, e não havia qualquer anotação relevante sobre o lugar, apenas um punhado de casas desenhadas de forma simples, como se nem o cartógrafo acreditasse que aquele povoado merecesse mais detalhes. Parecia isolado, esquecido pelo restante de Arya. Após memorizar o trajeto, guardou o mapa e consultou a pequena bússola presa por uma corrente ao quadril. A agulha oscilou por alguns instantes antes de apontar o norte. Com a direção definida, Cahaya retomou a caminhada.
A manhã ainda despertava. O sol havia começado a romper a escuridão havia pouco tempo, tingindo o horizonte com um brilho tímido, incapaz de dissipar por completo a névoa espessa que cobria os campos. A luz atravessava o cinza fantasmagórico em feixes difusos, dando à paisagem a aparência de um sonho distante. O mundo parecia suspenso entre a noite e o dia, envolto por um silêncio gélido e misterioso, como se algo observasse cada passo da viajante por trás daquele véu de neblina.
Cahaya sempre preferia viajar na despedida das estrelas. Havia algo reconfortante nas últimas horas da noite, quando o céu ainda permanecia salpicado de luzes e o mundo parecia silencioso o bastante para ouvir os próprios pensamentos. Desde criança, fazia das estrelas suas companheiras. Contava-lhes segredos que jamais confiaria a outra pessoa, sussurrava promessas, dividia medos e esperanças, como se, de alguma forma, elas fossem capazes de guardar cada palavra até o amanhecer. Só seguia viagem até que os primeiros raios de sol rasgassem o horizonte. Gostava de chegar ao destino logo pela manhã, quando as cidades ainda despertavam e as estradas permaneciam vazias. Naquele breve instante em que a noite entregava o mundo ao dia, Cahaya sentia que nem pertencia às sombras, nem à luz, mas ao caminho que existia entre ambas.
Foi nesse instante, enquanto as últimas estrelas se apagavam e a névoa cedia lentamente lugar aos primeiros cantos dos pássaros, que Cahaya avistou um movimento adiante. A claridade da manhã ainda era tímida, suficiente apenas para desenhar silhuetas entre o branco que cobria os campos. No centro daquele cenário, três figuras cercavam alguém caído ao chão. As espadas já haviam deixado as bainhas, e o brilho frio do aço cintilava sob os primeiros raios de sol. Os homens se moviam com cautela, formando um círculo ao redor da vítima, como lobos prestes a dar o golpe final. Cahaya diminuiu o passo.
— Escuta aqui, seu desgraçado... — rosnou um deles, agachado diante da vítima. A voz era áspera como pedra sendo arrastada. — Eu não atravessei esse maldito monte para ganhar ração de ovelha. Me dê alguma coisa de valor... ou arranco suas mãos.
O garoto caído apenas gemeu.
Outro bandido riu e lhe acertou um chute nas costelas.
— Não vai querer vagar por aí como um pastor sem conseguir segurar o próprio cajado, vai? — zombou. Em seguida, apontou para uma construção de madeira quase escondida pela neblina. — Aquela cabana caindo aos pedaços é sua? Levante. Vamos até lá.
A vítima tentou responder, mas recebeu outro pontapé antes que qualquer palavra escapasse.
Cahaya respirou fundo. Num único movimento fluido, levou a mão às costas e desembainhou a espada. A lâmina de aço descreveu um arco elegante no ar, cortando o vento com um assobio agudo, antes de repousar firmemente em sua mão, quase como uma dança.
O tilintar de sua armadura rompeu o silêncio do campo para os homens. As placas de metal chocavam-se discretamente a cada passo, mas anunciava sua presença muito antes de sua voz. Os três homens voltaram ao mesmo tempo.
Por um breve instante, a cautela tomou seus rostos. A figura da guerreira, envolta na névoa, armada e coberta por uma armadura completa, era suficiente para fazer qualquer um hesitar.
Mas a hesitação durou pouco. Quando perceberam que havia apenas uma mulher diante deles, os olhares se cruzaram e um sorriso torto surgiu no canto dos lábios do que parecia ser o líder.
— Deixem-no. — A voz de Cahaya atravessou o campo com uma firmeza fria. A lâmina de aço lunar refletiu a pouca luz da manhã com um brilho azulado, frio como gelo — Ou conhecerão o fio da minha espada.
A tensão se espalhou pelo campo como uma corda prestes a se romper. Os três homens se voltaram por completo para Cahaya, afastando-se lentamente da vítima enquanto ajustavam a postura. Não havia mais surpresa em seus rostos, apenas a cautela de quem avaliava um novo adversário.
Eram homens de aparência rude. As roupas estavam cobertas de poeira e lama, e sobre os gibões de algodão negro vestiam armaduras de couro batido, marcadas pelo tempo e por antigos combates. Espadas curtas de aço pendiam em suas cinturas, já empunhadas com firmeza. Os capuzes haviam caído para trás, revelando cabelos negros e espessos, além de rostos brancos mas sujo pela vida nas estradas. Pareciam fortes, saudáveis e, acima de tudo, experientes. A forma como distribuíam o peso do corpo, a distância que mantinham uns dos outros e a segurança com que seguravam as armas denunciavam que não eram simples ladrões oportunistas. Aqueles homens sabiam lutar.
— Vai se arrepender, cadela. Vá embora enquanto ainda pode. Antes que seu sangue tinja esta grama de vermelho — o mais alto deu um passo à frente. Tinha olhos verdes, barba feita e preso ao pomo da espada, um pequeno emblema de metal que Cahaya não reconheceu. — Estamos prontos para massacrá-la.
Cahaya não moveu um único músculo.
— Então venham, pragas — disse.
Sem desviar os olhos dos homens, ela analisou o terreno. Estava na parte mais baixa da encosta, enquanto os três ocupavam a posição superior, uma vantagem evidente. Grandes rochas emergiam da terra úmida e duas árvores de troncos grossos delimitavam o caminho, uma de cada lado. O espaço era estreito o bastante para impedir que a cercassem de uma só vez. Eles também perceberam isso.
Num piscar de olhos, um dos bandidos se agachou. Em um movimento veloz, puxou uma adaga escondida na bota e a lançou.
A lâmina cortou o ar. Cahaya tentou girar o corpo, mas a distância era curta demais. A adaga encontrou uma fresta entre as placas da armadura e atingiu sua coxa. Ela sentiu a ferroada antes mesmo de ouvir o choque do metal. O corte não foi profundo, mas bastou para arrancar sangue e fazê-la recuar meio passo.
O sorriso dos bandidos aumentou.
O homem da direita foi o primeiro a avançar. Correu encosta abaixo e desferiu um golpe vertical, pesado o bastante para partir um crânio. Cahaya não recuou. Ergueu a espada e aparou o ataque. As lâminas se encontraram com um estrondo metálico, e faíscas saltaram entre os dois. Por um breve instante, permaneceram presos em uma disputa de força, músculos retesados e dentes cerrados.
Então ela rompeu o equilíbrio.
Com um movimento brusco, desviou a espada do adversário para o lado e o atingiu com o ombro no peito. O bandido cambaleou, virando sobre os próprios pés. Num reflexo desesperado, tentou acertá-la com uma cabeçada, mas Cahaya inclinou o corpo para trás e o empurrou novamente, abrindo distância antes que ele recuperasse o equilíbrio. Não teve tempo para respirar. O homem de olhos verdes já vinha em sua direção. A ponta da espada avançou como a picada de uma serpente, buscando a abertura entre as placas de sua armadura.
Cahaya girou o corpo no último instante.
A lâmina passou rente ao seu flanco.
Ela respondeu imediatamente, golpeando a espada do inimigo para fora da linha de ataque. Aproveitou o impulso do movimento e lançou uma sequência veloz de cortes, alternando ataques altos e baixos em uma verdadeira tempestade de cortes. O homem, porém, não era um amador. Defendeu cada investida com precisão surpreendente. O choque constante das espadas ecoava pelo campo enquanto ambos trocavam golpes rápidos, testando os limites um do outro. Nenhum dos dois conseguia encontrar uma abertura, mas a intensidade do duelo deixava claro que bastava um único erro para decidir a luta.
Os dois lados recuaram quase ao mesmo tempo.
Por um breve instante, o campo voltou a mergulhar no silêncio. Apenas a respiração pesada dos combatentes quebrava a calmaria. O ar entrava e saía dos pulmões em lufadas curtas, queimando o peito. Cahaya sentia o cansaço pesar ainda mais. A longa viagem antes do combate cobrava seu preço. O suor escorria sob a armadura, e a ferida na coxa ardia a cada movimento.
Ela lançou um rápido olhar ao redor.
As duas árvores que antes delimitavam sua posição agora haviam ficado para trás dos inimigos. Sem perceber, fora empurrada para um trecho aberto do campo. Não havia rochas, troncos ou desníveis que pudesse usar a seu favor. Restava apenas a grama alta e o terreno descoberto. Nisso, os três homens avançaram juntos, descendo a encosta como uma matilha. Cahaya recuava em passos largos, procurando desesperadamente um novo ponto onde pudesse impedir que a cercassem.
Ao longe, o jovem pastor finalmente conseguiu se levantar. Cambaleante, levava uma das mãos às costelas enquanto assistia ao combate, incapaz de desviar os olhos. O medo estampado em seu rosto era tão evidente quanto sua impotência.
O bandido que havia lançado a adaga foi o primeiro a alcançar Cahaya. Com um grito, desferiu um golpe horizontal, buscando abrir seu ventre.
Ela enxergou o erro no mesmo instante.
Na ânsia de acertá-la, o homem havia aberto demais a guarda. Cahaya arqueou o corpo para trás, deixando a lâmina passar a poucos centímetros de sua armadura. Antes que o adversário pudesse recuperar a postura, ela girou os punhos e fez a espada pincelar um arco curto e preciso.
O aço brilhante encontrou o rosto do homem. A lâmina rasgou sua face direita da maçã do rosto até a mandíbula. O grito que se seguiu ecoou por todo o vale, e o bandido caiu de joelhos, levando as mãos ensanguentadas ao ferimento, enquanto urrava de dor. Num único movimento, Cahaya avançou sobre o homem ferido. Antes que ele pudesse se erguer ou implorar por misericórdia, ela cravou a espada em seu peito. A lâmina atravessou a armadura de couro, rompeu a carne e irrompeu pelas costas. O bandido arquejou, os olhos arregalados, antes de perder toda a força do corpo. Cahaya apoiou a bota sobre o cadáver e puxou a espada com um forte tranco. O metal saiu acompanhado por um jorro de sangue, que tingiu a túnica do morto e respingou sobre a lâmina azulada..
Ela mal teve tempo de recuperar a postura e logo os dois sobreviventes investiram ao mesmo tempo, consumidos pela fúria da morte do companheiro. Vieram de direções opostas e a guerreira tentou recuar, mas já estava encurralada pelo ritmo do combate. A espada do homem de olhos verdes foi a primeira a alcançá-la. Ela conseguiu aparar o golpe no último instante, e o choque das lâminas ecoou pelo campo.
O segundo ataque veio logo em seguida. A espada raspou a placa de metal que protegia seu peito, produzindo um som agudo e cortante. A armadura absorveu o corte, mas não a violência do impacto. O ar lhe escapou dos pulmões. Ela cambaleou para trás, perdendo o equilíbrio por um instante.
O outro bandido aproveitou a abertura. Tentou arrancar-lhe a espada com um golpe seco contra a guarda da arma, mas Cahaya segurou o cabo com firmeza e resistiu. Sem perder tempo, o homem girou o quadril e desferiu um chute violento contra seu peitoral. O golpe a lançou para trás. Ela caiu pesadamente sobre a relva e começou a rolar e o mundo pareceu estremecer ao seu redor enquanto os dois inimigos voltavam a avançar, decididos a encerrar a luta.
A espada escapou dos dedos de Cahaya e caiu alguns metros adiante, desaparecendo entre a grama alta. Ela tentou se levantar, mas uma dor lancinante atravessou sua coxa. O ferimento aberto pela adaga voltara a sangrar com intensidade, encharcando o tecido sob a armadura e enfraquecendo sua perna.
Apoiou uma das mãos no chão, respirando com dificuldade. Foi então que ergueu os olhos. Tudo o que viu foi um vulto negro avançando em sua direção, e antes que pudesse reagir, um punho acertou seu rosto com violência. O impacto fez sua cabeça girar. O gosto metálico do sangue invadiu sua boca, enquanto o nariz começava a sangrar em abundância, tingindo seus lábios e escorrendo por seu queixo.
Ela tornou a cair.
Por um breve instante, o mundo pareceu desfocado. Quando recuperou a visão, encontrou o homem de olhos verdes ajoelhado sobre ela. Havia abandonado a espada. Em sua mão direita brilhava uma adaga curta, cuja ponta tremia de ansiedade diante do pescoço da guerreira. Com um sorriso cruel, ele ergueu a arma acima da cabeça.
— Morra Desgraçada! — o homem emitia uma raiva assassina na voz, havia satisfação naquilo.
A adaga desceu como um raio. No último instante, Cahaya ergueu os dois braços e agarrou o punho do bandido antes que a lâmina alcançasse sua garganta. Os dois ficaram imóveis por um segundo focados na disputa. Os músculos dos braços tremiam enquanto ela lutava para impedir o avanço da adaga. A ponta da lâmina permanecia suspensa a poucos centímetros de seu pescoço, descendo lentamente à medida que o homem despejava todo o peso do corpo sobre ela. As mãos de Cahaya escorregavam por causa do próprio sangue.
Ela cerrava os dentes, os braços queimavam de esforço e cada centímetro perdido aproximava a morte.
“Não... Não posso morrer aqui. Não por esses idiotas." O pensamento atravessou sua mente enquanto a ponta da adaga continuava descendo, lenta e inevitavelmente, em direção à sua pele.
Lágrimas escaparam de seus olhos. Não eram de medo, mas de raiva. Então, algo dentro dela despertou. Com um esforço desesperado, Cahaya reuniu toda a força que ainda possuía e começou a empurrar a adaga para o lado. A ponta da arma raspou em sua pele cortando-a e logo foi em contra a ombreira de aço, arrancando um som agudo que cortava a desesperança dela. Logo a jovem soltou um grito de guerra que ecoava pela campina com uma fervorosidade animalesca, como se aquilo acendesse uma irã adormecida.
Aproveitando o instante de hesitação do bandido, Cahaya soltou uma das mãos do punhal, cerrou o punho envolto pela manopla de aço e fez voar na direção do rosto dele.
O primeiro arrancou-lhe um grito de dor.
O segundo soco esmagou o nariz do homem.
O terceiro espalhou sangue pelo rosto dos dois.
No quarto golpe e último golpe, o ladrão perdeu completamente o equilíbrio e tombou para o lado. Cahaya rolou sobre o corpo dele e, num movimento brusco, inverteu as posições. Agora era ela quem dominava a luta e sem permitir qualquer reação, descarregou uma chuva de golpes contra o rosto do homem.
Mas a vantagem durou pouco, pois ouviu passos ligeiros indo em sua direção, olhou pra frente e viu o outro homem cortando a neblina com seu metal em um corte lateral.
Ela ergueu o braço instintivamente.
A lâmina atingiu a manopla de aço com um estrondo seco. O impacto percorreu todo o seu braço como uma descarga, fazendo seus músculos estremecerem. A dor foi intensa, mas ela a absorveu sem recuar um único passo.
Antes que o inimigo pudesse recolher a espada para um novo ataque, Cahaya agiu. Deslizou a mão pela guarda da arma até alcançar o punho do adversário. Com um giro rápido do corpo, torceu-lhe o pulso e ouviu-se um estalo. A espada escapou dos dedos do bandido e caiu na grama.
Sem lhe dar tempo para reagir, Cahaya girou sobre o calcanhar e desferiu um soco brutal contra sua garganta. O ladrão cambaleou para trás, levando as mãos ao pescoço enquanto tossia desesperadamente, incapaz de respirar. O bandido cambaleava, ajoelhado entre a grama alta, tentando desesperadamente recuperar o fôlego. Cada tentativa de respirar era interrompida por uma tosse seca e dolorosa.
Cahaya não lhe deu tempo. Seus olhos vasculharam o chão até encontrarem a espada do homem, parcialmente escondida entre a relva. Ela a apanhou e caminhou em sua direção com passos lentos, porém firmes. Parou diante dele. Chutou o homem, ele caiu de costas e ela pressionou a bota contra seu peito, obrigando-o a permanecer imóvel, e ergueu a espada acima da cabeça. O homem levantou as mãos trêmulas.
— N-Não... por favor... eu imploro...
Foi sua última súplica.
A espada desceu.
A ponta atravessou-o, rompendo carne e traqueia. Um jorro quente de sangue cobriu seu pescoço, escorreu pelo peito e respingou no rosto de Cahaya. O corpo estremeceu por um breve instante junto de grunhidos tímidos.
Depois, ficou imóvel. Ela retirou a lâmina sem qualquer cerimônia. Então voltou-se para o homem que havia deixado caído momentos antes, o rosto reduzido a uma massa ensanguentada pelos golpes da manopla. Ele ainda respirava. Aproximou-se em silêncio. Por um instante, fitou o bandido agonizante, como se quisesse ter certeza de que jamais voltaria a ameaçar alguém.
— Achou muito mais que ração, ladrão!
Em seguida, ergueu a espada mais uma vez. O golpe foi rápido. Quando a lâmina voltou a subir, restava apenas o silêncio da manhã, e a visão do sangue escorrendo sobre a grama úmida.
O silêncio voltou a dominar a campina.
Restavam apenas o canto distante dos pássaros, o balançar da grama ao vento e a respiração pesada de Cahaya. Ela permaneceu imóvel por alguns instantes, observando os corpos espalhados ao seu redor, como se precisasse convencer a si mesma de que a luta havia realmente terminado.
Então se deixou cair sobre a relva.
Sentou-se devagar, respirando com dificuldade, e levou o olhar às próprias mãos. A manopla de aço, a armadura e até parte de suas roupas estavam cobertas por manchas espessas de sangue — algumas pertenciam aos bandidos, outras eram suas.
Por fim, deitou-se.
À medida que a adrenalina abandonava seu corpo, a dor ocupava seu lugar. Cada músculo parecia mais pesado do que o metal que vestia. A ferida na coxa pulsava sem piedade, espalhando uma sensação quente que descia lentamente por sua perna.
Ela fechou os olhos por um instante.
Passou os dedos sobre a grama úmida, sentindo sua maciez contrastar com a aspereza das manoplas.
Naquele momento, não desejava glória, ouro ou reconhecimento. Queria apenas uma cama de verdade, uma refeição quente e algumas horas em que pudesse esquecer que o mundo insistia em tentar matá-la.
Quando tornou a abrir os olhos, a manhã havia finalmente vencido a noite. A névoa se desfazia em fios esbranquiçados, enquanto o céu revelava um azul profundo e sereno. Os primeiros raios de sol livres aqueciam lentamente a campina, como se a própria natureza ignorasse o massacre que acabara de acontecer.
Por um breve instante, tudo voltou a parecer em paz.