Dona Dália reclamando do cheiro... fiquei triste com ele morando sozinho ali e ninguém nem chegou perto antes.
Capítulo 01 - O Mapa que Veio Dobrado
Quando encontraram o professor de geografia Amaro Velloso morto no chão de sua cozinha, três dias depois de os vizinhos começarem a fazer reclamações do cheiro que exalava o seu apartamento, ninguém…
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Dona Dália reclamando do cheiro... fiquei triste com ele morando sozinho ali e ninguém nem chegou perto antes.
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Quando encontraram o professor de geografia Amaro Velloso morto no chão de sua cozinha, três dias depois de os vizinhos começarem a fazer reclamações do cheiro que exalava o seu apartamento, ninguém prestou tanto atenção ao mapa que estava preso à parede. O que não é de se surpreender. Quando há um homem morto no centro da cozinha de uma casa, um pedaço de papel velho dificilmente será considerado como importante.
A polícia passou o dia procurando sinais de arrombamento enquanto o médico legista observava a posição do corpo e o jeito como ele supostamente havia caído ao chão, dona Dália, a vizinha do apartamento ao lado, insistia que havia escutado o Amaro arrastando alguma coisa pesada na madrugada passada. O mapa então permaneceu ali onde estava, diante de todos, coberto por círculos, anotações e marcas de lápis que ninguém ali estivera preocupado em compreender, pois naquele momento, era apenas mais uma das muitas coisas acumuladas de um falecido professor aposentado que havia morado sozinho durante tempo demais.
Amaro estava sentado no chão com as costas apoiadas no armário da pia, ele vestia a mesma camisa de botões que costumava usar para sair pela manhã, e segurava um caderno contra o peito com tanta força que seus dedos haviam endurecido ao redor da capa. Não havia ferimentos aparentes, ou sangue ou qualquer sinal de agressão física. Havia apenas uma torneira entreaberta, deixando um fio de água cair constantemente dentro da pia, e uma panela esquecida sobre o fogão que continha o que provavelmente tinha sido sopa de legumes de alguns dias atrás. Pela situação da casa, seria simples imaginar que Amaro havia sentido uma dor repentina, tentado alcançar o telefone e não conseguira. Aos 78 anos, uma morte súbita não exigia grande esforço para ser explicada, principalmente para um senhor idoso que por longos anos teve um estilo de vida extremamente sedentário.
O médico mencionou a possibilidade de um infarto antes mesmo de o corpo ser colocado no saco cadavérico, enquanto um dos policiais apenas assentiu com a cabeça, concordando enquanto preenchia o relatório. As pessoas gostam de explicações que as permitam seguir adiante, e um coração que parou de funcionar é muito mais confortável do que qualquer alternativa que não possa ser preenchida confortavelmente em um formulário. Foi somente quando Helena Velloso chegou a Iork New, depois de quase sete horas de viagem, que alguém decidiu olhar com um pouco mais de atenção para aquilo que Amaro havia deixado na parede.
Helena era sua única sobrinha, eles não eram particularmente próximos, mas digamos que também não estavam afastados. Se falavam algumas vezes por mês e trocavam mensagens nos aniversários ou datas comemorativas e, quando ela passava por Iork New, costumava visitar o tio para tomar café no final da tarde enquanto admiravam o horizonte pelo janela do apartamento, e o sol se escondendo ao longo da vista do oceano. Amaro nunca se casou novamente depois da morte de sua esposa e também não tinha filhos, de modo que Helena acabou por se tornar, quase por acidente, a pessoa que recebia os telefonemas quando alguma coisa precisava ser resolvida, ou quando era necessário a autorização de algum outro familiar. Foi ela quem precisou reconhecer o corpo, conversar com a funerária, assinar documentos e decidir o que seria feito com o apartamento a partir daquele momento.
Quando entrou na cozinha depois que os policiais terminaram, Helena encontrou exatamente aquilo que esperava de Amaro: livros ocupando lugares onde livros não deveriam estar, jornais dobrados sobre cadeiras, louça acumulada e dezenas de pequenos papéis com anotações. O seu tio transformava qualquer cômodo em uma extensão de sua antiga sala de aula. Mesmo aposentado, continuava cercado por atlas, mapas rodoviários, recortes de jornais e cadernos nos quais anotava coisas que provavelmente só ele considerava importantes, mas o que chamou a atenção de Helena foi que, naquela semana, aparentemente tudo naquela casa havia se tornado importante pra ele.
Haviam três mapas na parede: Dois eram comuns e mostravam Bethlehem e parte das regiões vizinhas, o terceiro parecia muito mais antigo. Ele estava preso com quatro pedaços de fita adesiva amarelada e o papel havia sido dobrado tantas vezes que os vincos formavam uma grade irregular sobre sua superfície, alguns nomes estavam circulados, outros tinha pequenas datas escritas ao lado, haviam também setas, pontos de interrogação e comentários feitos com diferentes graus de pressão, como se a mesma pessoa tivesse começado a escrever calmamente e terminado usando o lápis quase como uma faca.
No centro do oceano havia o desenho de uma montanha. Não uma cadeia montanhosa, não uma ilha com relevo elevado, apenas uma única formação escura surgindo da água em um ponto completamente isolado, logo abaixo, Amaro havia escrevido em letras grandes: NÃO ESTAVA AQUI QUANDO COMPREI.
Helena ficou algum tempo encarando aquilo antes de chamar algum dos policiais.
-Vocês vão levar esse mapa? - Perguntou.
O homem voltou pra cozinha, observou a parede e respondeu que provavelmente não. Helena apontou para as anotações e explicou que Amaro era professor de Geografia e por isso era comum que ele anotasse coisas em qualquer mapa que ele possuia.
-Então ele devia gostar dessas coisas… Pode ficar com ele, não será necessário pra nossa investigação. - O policial deu de ombros, para ele aquilo encerrava a questão, mas pra Helena foi justamente onde começou.
Ela conhecia a letra do seu tio, o professor Amaro escrevia de maneira bastante organizada, quase exageradamente legível, até mesmo a escrita de suas listas de compras pareciam copiadas de um livro de caligrafia, a frase abaixo da montanha não tinha nada disso. As letras estavam inclinadas, algumas sobrepostas, e a palavra “AQUI” havia sido pressionada com tanta força que o papel se rasgara levemente no centro. Helena não sabia o que havia acontecido durante os últimos dias da vida dele, mas tinha certeza de que aquela anotação fora feita por um homem que acreditava estar vendo algo impossível.
Onze dias antes de morrer, Amaro Velloso ainda não possuía aquela mapa.
Naquela terça-feira, saiu de casa pouco depois das oito para comprar seus grãos de café e um baguete, ele fazia praticamente o mesmo percurso todas as manhãs: descia a Rua dos Ferroviários, atravessava a Praça do Saber que ficava diante do antigo Teatro Lucis, comprava um jornal na banca de seu Aderbal e então seguia até a Mercearia da dona Áurea. Amaro gostava de rotinas, não porque fosse incapaz de improvisar, mas porque acreditava que repetir caminhos o ajudava a perceber quando alguma coisa mudava. Para alguém que passara mais de 40 anos ensinando pessoas a observar territórios, fronteiras e transformações urbanas, a cidade era algo que deveria ser lido diariamente.
Foi provavelmente por isso que ele percebeu a loja.
Começou a chover antes que ele alcançasse a praça, era uma chuva fina e morna, dessas que parecem inofensivas até você descobrir que está completamente molhado. Como carregava um jornal debaixo do braço, Amaro procurou uma marquise e acabou parando entre uma sapataria e uma assistência técnica de eletrodomésticos, foi então que viu a porta estreita no espaço entre os dois estabelecimentos. Amaro conhecia aquela rua havia décadas e não lembrava de existir uma loja ali, onde sempre foi um terreno vazio.
Isso por si só, não significava nada, Iork New era uma cidade grande, lojas fechavam, outras surgiam, casas eram construídas de um dia pro outro, fachadas eram reformadas e bairros inteiros conseguiam mudar afetando diretamente à memória de quem passou ali meses atrás. Ainda assim, Amaro demorou alguns segundos olhando para a vitrine, tentando decidir se tinha simplesmente ignorado aquele lugar durante anos, não havia placa e atrás do vidro empoeirado estavam empilhados livros, relógios, fotografias, moedas, brinquedos, discos e diversos objetos cuja utilidade não era imediatamente clara.
Entre eles havia um pequeno globo.
Amaro aproximou o rosto do vidro e pôde perceber uma coisa curiosa: Os continentes estavam errados.
Não era apenas uma questão de proporção ou por ser um desenho antigo, as massas da terra simplesmente não correspondiam àquilo que ele conhecia. Regiões inteiras pareciam deslocadas, algumas ilhas inexistiam e havia um grande oceano ocupando uma área onde deveria haver terra firme, no centro daquele oceano, quase invisível, alguém havia desenhado uma montanha.
A curiosidade venceu o desconforto e então Amaro empurrou a porta e ouviu um pequeno sino tocar acima de sua cabeça. O interior da loja era ainda mais apertado do que parecia do lado de fora. Caixas ocupavam o chão, livros formavam pilhas instáveis e havia um cheiro difícil de identificar, mistura de papel úmido, madeira envelhecida, mofo velho e alguma coisa ligeiramente salgada. Atrás do balcão estava um homem muito magro usando uma camisa branca de mangas compridas, apesar do calor que fazia naquele dia.
-Posso ajudar? - Perguntou o homem.
-Aquilo é de onde? - Amaro apontou para o globo que estava próximo à vitrine.
O vendedor olhou pra vitrine como se precisasse confirmar de qual objeto ele falava e fez uma expressão como se estivesse indeciso sobre o que realmente era aquele item.
-Então você não sabe o que é e mesmo assim coloca para vender? - Amaro sorriu, esperando que a conversa ganhasse algum sentido.
-Aquilo não está à venda. - Respondeu o homem. - É um item incompleto, está ali apenas pra exibição.
-E o que falta?
-Não sei.
Aquela resposta deveria ter encerrado o interesse de Amaro, mas produziu o efeito contrário, ele continuou caminhando pela loja sem muita pressa, examinando caixas e objetos, e encontrou um velho mapa dentro de uma caixa de papelão próximo ao chão, que tinha um nome rasurado escrito em sua lateral. Estava dobrado entre plantas de imóveis, fotografias antigas e recibos que pareciam ter décadas, quando o abriu, reconheceu Bethlehem quase imediatamente, depois Tarunia, Cocite, Brasar, Charroux e Midgard.
A geografia estava correta, algumas fronteiras pareciam antigas, certos nomes estavam grafados de maneiras diferentes e havia estradas que Amaro não reconhecia, mas aquilo era claramente um mapa daquele mundo. O papel, entretanto, parecia ter envelhecido por muitas décadas.
-Quanto por esse? - Perguntou.
O vendedor ergueu os olhos e, pela primeira vez, demonstrou uma reação que Amaro conseguiu interpretar, não era surpresa, parecia incômodo.
-Onde o encontrou?
-Nessa caixa.
-Ela não estava aí.
-Estava. - Amaro olhou pro papel e depois para o homem.
O vendedor rapidamente saiu de trás do balcão e se aproximou. Passou os dedos por uma das bordas do mapa, mas não quis pegá-lo, soltou apenas alto: “Pode levar”.
-Quanto? - Questionou Amaro.
-Nada, é só levar.
-De graça?
-Sim, é só levar.
Amaro soltou um breve riso - isso nunca é uma frase muito boa em lojas de antiguidades -. O homem não acompanhou a brincadeira, apenas recuou um passo e disse:
- Se quiser pode levar, só não me traz de volta.
Qualquer pessoa que estivesse ouvindo essa história pela primeira vez poderia imaginar que Amaro deveria ter deixado o mapa exatamente onde estava, o problema é que pessoas reais não costumam reconhecer o momento em que entram em uma história ruim. Para Amaro, aquele homem era apenas um vendedor excêntrico e o mapa, um objeto curioso que talvez tivesse algum valor histórico, ele o dobrou, colocou debaixo do braço entre os jornais e saiu para a chuva, só percebeu que não havia comprado o café quando já estava em casa.
Naquela tarde, abriu o mapa sobre a mesa e começou a examiná-lo com atenção. Quanto mais observava, mais interessante parecia. Iork New estava desenhada, mas era muito menor do que deveria, alguns bairros atuais simplesmente não apareciam, isso permitiria estimar aproximadamente a época em que o mapa fora produzido, mas havia um problema: certas rodovias ali representadas só haviam sido construídas muito depois do crescimento urbano de respectivos bairros.
Amaro pegou dois atlas modernos, um livro sobre a expansão urbana de Bethlehem e antigos mapas rodoviários que guardava desde os tempos de universidade. Passou quase três horas comparando detalhes, se o objeto fosse antigo, possuía alguma informação sobre o futuro. Se fosse moderno, alguém ainda mais maluco por geografia que ele havia feito um trabalho extraordinário para envelhecer o papel e usar grafias históricas, em pontos específicos - nenhuma das possibilidades fazia muito sentido -.
No fim daquela primeira tarde, Amaro decidiu que provavelmente se tratava de uma reprodução produzida por algum colecionador.
Era uma explicação imperfeita, mas suficiente.
Guardou algumas anotações, deixou o mapa aberto sobre a mesa e foi preparar o seu jantar, naquela noite, dormiu acreditando que havia encontrado apenas um pequeno enigma para ocupar os dias de aposentaria.
Na manhã seguinte, encontrou uma cidade chamada Véspera.
O nome de Véspera estava no norte de Bethlehem, próximo a região de Vaatus, região que Amaro conhecia razoavelmente bem. Ele não lembrava de ter visto Véspera no dia anterior, ou de ter passado pela cidade enquanto viajava pelo país, mas seria absurdo confiar apenas na memória já idosa diante de um mapa tão detalhado quanto aquele, ele pegou um atlas moderno e procurou: Véspera realmente existia.
Tinha pouco mais de 40.000 habitantes, uma antiga estação ferroviária e uma economia baseada principalmente na produção de frutas e legumes. Amaro leu as informações duas vezes, nunca tinha ouvido falar da cidade, ele então ligou para Geraldo, um antigo colega da universidade Nilfren.
-Geraldo? Desculpe a pergunta assim tão de repente, mas você conhece Véspera?
-Há quanto tempo, Amaro. - Completou Geraldo quase automaticamente. - É claro que conheço, costumo visitar toda primavera, é o melhor período do ano pra comprar frutas.
-Onde fica? - Questionou.
-Norte de Bethlehem, pega a estrada em direção à Vaatus e vai encontrar, é uma cidade de beira de estrada, mas bastante conhecida. Por quê?
-Nada não, só estava olhando um mapa antigo.
-Hahaha - Era possível ouvir a risada pesada de um ex-fumante enquanto se misturava com uma tosse crônica. - Você tá ficando velho e cada vez mais gagá, precisa de um hobby melhor, Amaro, qualquer coisa me avise que te levo lá…
Antes mesmo que Geraldo terminasse a frase, Amaro desligou a ligação enquanto encarava o mapa por alguns minutos. Ele lentamente foi se aproximando do mapa e sim - Véspera ainda continua ali. - Ele então marcou a cidade com um círculo pequeno feito a lápis e escreveu ao lado: “Geraldo conhece”.
Na manhã seguinte, Véspera havia desaparecido, porém o círculo e a anotação de Amaro continuava lá, dentro do círculo, porém, não havia nome algum. Amaro aproximou o mapa da janela, imaginando que pudesse ser alguma falha na iluminação ou a tinta desgastada, mas não, a cidade simplesmente não estava mais representada, ele novamente pegou o Atlas antes utilizado para comparação e Véspera também havia desaparecido de lá.
Procurou em outro e nada.
Foi até o computador e digitou o nome, mas encontrou resultado para vésperas de feriados, festivais e eventos, mas nenhum que realmente indicasse alguma cidade, ele rapidamente pegou o telefone e ligou novamente para Geraldo.
-Geraldo, onde fica Véspera?
Houve um silêncio perturbador antes de uma tosse.
-Véspera de quê?
-A cidade, Geraldo… Onde fica a cidade de Véspera?
-Amaro… - Geraldo soltou uma risada forte que mais parecia um engasgo. - Acho que está na hora de você começar a dormir as 8 horas por dia que o médico indicou, corte o café também, tá começando a afetar sua cabecinha branca.
Amaro apenas encerrou a ligação sem se despedir, ficou algum tempo parado diante da mesa tentando organizar aquilo dentro de uma explicação que aceitasse. Talvez tivesse confundido o nome, talvez Geraldo tivesse entendido alguma outra coisa, talvez ele realmente estivesse cansado pelas tantas noites mal dormidas na sua juventude, mas ainda assim, havia um círculo no mapa exatamente onde a cidade estivera.
Ele pegou um caderno e escreveu: VÉSPERA - NORTE DE BETHLEHEM - APROXIMADAMENTE 40 MIL HABITANTES - GERALDO CONHECIA A CIDADE EM 12 DE JUNHO.
No dia seguinte apareceu Santa Véria.
Dessa vez, Amaro não confiou apenas nas pesquisas, ele encontrou registros da cidade em mapas modernos, páginas comerciais e antigos resultado de eleições. Santa Véria tinha 20.000 habitantes, uma igreja construída no início do século anterior, uma fábrica de conservas e um pequeno hospital municipal. Havia fotografias, anúncios de hotéis e até uma programação de festividades locais e ele, claro, anotou tudo. Durante sua pesquisa ele encontrou o telefone de uma farmácia e ligou.
-Farmácia Central, boa noite, no que posso ajudar?
-Estou falando com a farmácia de Santa Véria?
-Sim.
-Poderia me ajudar com uma rápida pesquisa?
-Sim… - Era possível notar o tom confuso na voz da atendente.
Amaro explicou que era professor aposentado e estudava a história da região para um artigo, a mulher então, pareceu relaxar, ela chamava-se Lucinda e nascera em Santa Véria, sua mãe era de lá e disse que a cidade existia “desde antes de todo mundo”, uma resposta pouco científica, mas suficiente para comprovar que havia uma pessoa do outro lado da linha que acreditava viver naquele lugar, até que em determinado momento a ligação caiu.
Ao tentar novamente, a voz dizia: “O número para o qual você ligou está incorreto ou não existe”.
Pesquisou por Santa Véria e não encontrou resultado algum.
Rapidamente Amaro correu para o mapa e viu que a cidade havia desaparecido, dessa vez não havia um círculo, visto que Amaro ainda não tivera tempo de marcá-la.
Foi então que percebeu algo que o incomodou ainda mais: o círculo que havia desenhado ao redor de Véspera também não estava mais lá, o papel não parecia apagado, não haviam marcas de borracha ou desgaste, era como se Amaro jamais tivesse tocado ou desenhado algo naquele ponto, mas seu caderno ainda tinha suas anotações.
Foi nesse momento que ele deixou de tratar aquilo como uma curiosidade e passou o restante dos dias copiando todos os nomes possíveis, Anotou todas as cidades grandes que conseguia encontrar no mapa, inclusive as cidades que ele não conhecia bem: Iork New, Leorio, Lucis, Baal, Claudioland, Xion, Shan Gri-La, Hazard, Azoth, Mogester, Tártaro e dezenas de outras. Escreveu localizações aproximadas, características geográficas que só um professor de geografia saberia descrever e escreveu tudo aquilo que pudesse ser usado para comprovar que determinado lugar realmente existia.
A rotina dos dias seguintes se tornou simples e profundamente desagradável, Amaro acordava, preparava café e comparava o mapa com o seu caderno. Quando algum nome novo surgia, ele pesquisava. Às vezes a cidade permanecia durante dois dias, às vezes desaparecia em poucas horas. Em todos os casos, quando o nome sumia do mapa antigo, desaparecia também de todos os outros registros: Livros mudavam, sites mudavam, mapas mudavam, pessoas esqueciam, mas o seu caderno não.
Amaro não conseguia encontrar uma explicação para isso, talvez por estar próximo do mapa, talvez fosse apenas uma outra regra sem sentido, e esse tipo de regra é especialmente difícil de aceitar para alguém que passou a vida ensinando que territórios possuem lógica.
Na quinta noite, apareceu Mar Alto.
Era uma cidade costeira de quase 90.000 habitantes, Amaro encontrou fotografias, mapas turísticos e horários de ônibus, dessa vez ele decidiu ir até lá. Se conseguisse chegar a uma cidade antes que desaparecesse talvez entendesse o que acontecia com seus moradores. Arrumou suas coisas e comprou uma passagem naquela mesma manhã.
O motorista confirmou que o ônibus passaria por Mar Alto antes de seguir para o interior, a viagem deveria durar aproximadamente quatro horas, Amaro sentou-se próximo à janela e levou o caderno no colo. Duas horas depois, perguntou ao cobrador do ônibus quanto tempo faltava para chegar.
-Pra onde? - Questionou o cobrador.
-Mar Alto
Ambos motorista e cobrador se entreolharam pelo retrovisor, antes da resposta seca surgir:
-Nunca nem ouvi falar, tem certeza que é pra esse lugar?
-Mas o motorista disse hoje de manhã que passaríamos por lá antes de irmos para o interior
-Não disse, não - Respondeu o motorista.
-Disse! Disse sim! - Retrucou o velho.
-Senhor, esse ônibus vai para Leorio. Não existe parada em Mar Alto, esse lugar sequer existe na nossa rota.
Amaro não insistiu, ele olhou pela janela e tentou reconhecer a estrada. O trajeto parecia correto, mas uma das bifurcações que havia estudado no mapa não existe mais, onde antes deveria haver uma rodovia seguindo em direção à costa, havia apenas uma densa mata, mas ao longe o mar parecia estranho… Mais alto, talvez.
Amaro desceu na parada seguinte e pegou o primeiro ônibus de volta para Iork New, quando entrou no apartamento encontrou o mapa no chão, mas tinha certeza de que havia deixado ele sobre a mesa. Mar Alto havia desaparecido. Foi então que percebeu a montanha, ela estava no centro do oceano, ela não era grande, mas Amaro sabia que não estava ali antes, ele havia analisado aquela região inúmeras vezes durante os últimos dias e havia apenas água, ele pegou o lápis e escreveu abaixo do desenho: NÃO ESTAVA AQUI QUANDO COMPREI.
Na manhã seguinte, a montanha estava maior - não muito - talvez um centímetro no papel, mas ainda assim era impossível negar que continuava do mesmo tamanho. Amaro finalmente tentou se livrar do mapa, guardou-o em uma gaveta, fechou e foi até a cozinha, mas quando voltou, o papel estava aberto sobre a mesa. Tentou colocá-lo dentro de um armário, trancando a porta com a chave, mas durante a madrugada quando se levantou para ir ao banheiro se deparou com o mapa estendido no chão ao lado da cama.
No dia seguinte, levou o mapa até uma lixeira a seis quarteirões do prédio, dobrou o papel, colocou-o no fundo de um saco cheio de lixo e ficou observando por alguns segundos antes de voltar para casa. Quando abriu a porta do apartamento, o mapa estava preso na parede da cozinha, mas dessa vez Amaro não tentou removê-lo.
Seria fácil dizer que deveria tê-lo queimado - ele pensou nisso - pegou uma caixa de fósforos e chegou a acender um deles, aproximando a chama da borda. O motivo pelo qual parou, entretanto, não teve nada a ver com o medo de libertar alguma coisa ou provocar uma maldição. Amaro percebeu algo ainda mais simples: se destruísse o mapa, perderia a única coisa capaz de avisá-lo sobre qual lugar desaparecia em seguida, então ele apagou o fósforo.
Durante os três dias seguintes, surgiram Belmonte, Nova Esperança, Atalaias e Orfeu. Algumas cidade eram bem pequenas, outras possuíam centenas de milhares de habitantes, Amaro confirmou a existência de todas antes de vê-las desaparecer, e o processo era sempre igual: Uma cidade deixava de existir, e o mundo reorganizava tudo ao redor de sua ausência.
Isso era o pior
Não haviam ruínas ou famílias procurando familiares desaparecidos.
Rodovias mudaram de direção, rios seguiam outros cursos, linhas ferroviárias terminaram antes e pessoas que anteriormente diziam ter nascido naquela cidade passavam a possuir histórias diferentes. O desaparecimento não deixava um vazio, o próprio mundo corrigia o espaço para fingir que nada estivera ali.
No oitavo dia, Amaro percebeu que os nomes novos estavam surgindo cada vez mais próximos de Iork New, primeiro tinham sido cidades distantes, depois cidades mais próximas de Bethlehem, mas agora eram municípios vizinhos.
Naquela noite, ele espalhou mapas pela cozinha e marcou Iork New em todos, deixou o caderno aberto e decidiu não dormir, ele queria assistir. Pouco depois das duas da madrugada ele ouviu um ruído de papel: O mapa estava se mexendo.
Uma de suas bordas se dobrou sozinha.
Amaro permaneceu parado enquanto observava o papel se dobrando novamente, depois uma terceira vez. Não era um movimento rápido ou violento, parecia mais um movimento cuidadoso, como se mãos invisíveis estivessem tentando guardar o mapa.
-PARADO AÍ! - Ele gritou.
Mas o papel continuava.
Ele correu e segurou as duas bordas com as mãos e o movimento simplesmente cessou, por alguns segundos nada aconteceu, foi então que ele ouviu três batidas na parede.
Toc. Toc. Toc.
O som vinha exatamente detrás do mapa, Amaro o arrancou da parede.
Não havia nada ali além da tinta branca e de uma pequena mancha de umidade, ele se aproximou lentamente encostando seu ouvido contra a parede.
Silêncio.
Quando voltou a olhar para o mapa, viu um nome que antes não estava ali: San Lázaro, seu bairro.
Amaro se sentou à mesa e escreveu imediatamente: SAN LÁZARO - BAIRRO NORTE DE IORK NEW - EU MORO AQUI.
Dormiu apenas quando o sol já começava a aparecer.
Na manhã seguinte, saiu do prédio quase esperando encontrar um terreno vazio do outro lado da porta, mas San Lázaro continuava ali. A padaria funcionava, os ônibus passavam e uma mulher reclamava com o filho porque ele se recusava a ir para a escola, Amaro caminhou até a esquina e perguntou a um rapaz no ponto de ônibus: - Aqui é San Lázaro, né?
-Claro, meu senhor. Sempre foi! - O Rapaz o encarou, confuso.
Amaro, confuso retornou para seu apartamento, mas curioso, e ficou observando o mapa praticamente o dia inteiro. Naquela noite, San Lázaro desapareceu do mapa, mas seu bairro, contudo, permaneceu. Foi então que Amaro compreendeu que havia interpretado tudo ao contrário: O mapa não estava apagando os lugares, estava antecipando alguma coisa.
As cidades apareciam porque, por algum motivo, estavam sendo “escolhidas”, e agora havia chegado até o bairro onde ele morava.
Na manhã seguinte, ele encontrou um círculo em volta de Iork New.
O nome sempre estivera no mapa.
O círculo não.
Amaro passou alguns minutos olhando para ele antes de pegar o telefone e ligar para sua sobrinha Helena, ela atendeu na quarta tentativa: - Tio? - Questionou com uma voz confusa. - Aconteceu alguma coisa?
-Helena, minha querida… Você lembra onde eu moro? - Sua voz tremia.
-Bom… - Houve uma pausa que pareceu infinito aos ouvidos de Amaro. - …O senhor mora em Iork New.
-E você?
-Moro em Claudioland.
-Helena, fica a quantas horas daqui?
-Umas sete, por quê? Aconteceu alguma coisa? O senhor tá me assustando…
-Pega um papel. - Amaro dizia desesperadamente… Ele seguia anotando tudo o que Helena dizia sobre Claudioland.
-O quê? Tio, o que está acontecendo?
-Helena, apenas me escuta… Pega um papel e escreve “Iork New”.
Era possível escutar Helena se movimentando do outro lado da linha enquanto procurava algo para escrever as palavras ditas pelo seu tio. - Pronto tio, escrevi.
-Agora escreva meu nome.
-Pronto, escrevi… Amaro… Velloso…
-Minha filha, por favor! Não joga esse papel fora!
-Tio… - Era possível perceber a voz de Helena mudando. - Aconteceu alguma coisa? O senhor tá precisando que eu vá aí?
Amaro olhou para o mapa, a montanha no oceano parecia maior do que no dia anterior.
-Amanhã você pode não lembrar porque escreveu. - Disse ele.
-Tio, você tá bêbado?
-Não. - Riu Amaro.
-Então explica… Porque o senhor está realmente me assustando com tudo isso.
-Helena… - Amaro ficou algum tempo em silêncio. Como se explica que uma cidade poderia deixar de existir? - Eu acho que lugares podem morrer haha.
-O quê?
-E acho que quando esses lugares morrem, ninguém percebe.
Helena tentou convencê-lo a procurar um médico com urgência e claro, Amaro recusou, porém com toda a preocupação no ar, ela lhe disse que viajaria para Iork New na manhã seguinte para buscá-lo.
-Não venha! - Ele gritou. - Eu acho que Iork New é a próxima… - Disse ele enquanto a ligação prontamente se encerrou.
Amaro não sabia se ela havia acreditado em alguma coisa, provavelmente não, mas ele havia tentado e naquela madrugada ele ficou sentado diante do mapa. Às 04h11, as luzes de uma rua distante se apagaram, não todas ao mesmo tempo, foi em cadência, primeiro um poste, depois o outro, a escuridão avançava em direção ao prédio.
Amaro se levantou e foi até a janela.
Conseguia ver pessoas caminhando nas calçadas, um casal conversando junto a um carro, um homem brincando com um cachorro, mas ninguém parecia notar que, atrás deles, algumas ruas simplesmente deixavam de existir.
Não ficavam escuras.
Desapareciam.
Prédios, postes, árvores e pavimento eram substituídos por uma extensão negra, que aos poucos, começou a refletir a luz da lua. Amaro sabia que aquilo…
Era água.
Amaro recuou correndo em direção ao seu caderno e escreveu: IORK NEW EXISTE.
Repetiu a frase várias e várias vezes, não porque acreditasse que aquilo impediria o desaparecimento, mas porque precisava ter certeza que alguém ainda se lembraria da cidade, mesmo que esse alguém fosse apenas ele. Pegou seu telefone e tentou ligar novamente para Helena que prontamente atendeu.
-Helena? - Questionou com sua voz trêmula e baixa. - Helena, sou eu…
-Desculpa, quem fala? - A voz da garota respondeu com cautela, fazendo Amaro perder a força de suas pernas.
-Sou eu, seu tio…
-Acho que o senhor ligou pro número errado! - E antes que ela pudesse desligar ouviu as seguintes palavras:
-Helena Velloso… Sua mãe era Marina Velloso, estou certo não?
-Quem é você?
A ligação caiu.
Amaro olhou para o seu caderno e o nome de Helena continuava escrito lá, acompanhado de informações sobre sua família e sobre Claudioland. Amaro começou a escrever tudo o que conseguia lembrar: nomes de ruas, escolas, restaurantes, praças, antigos alunos, colegas, vizinhos. Não tinha qualquer motivo para acreditar que aquilo salvaria alguém, mas a idéia de deixar o mundo apagar tudo sem alguém lutando contra lhe pareceu ainda pior.
Foi então que as batidas voltaram, mas dessa vez na parede da sala.
Toc. Toc. Toc.
Alguns minutos, depois vieram da porta.
Toc. Toc. Toc.
Depois da janela, mas Amaro morava no sexto andar.
Toc. Toc. Toc.
Quando ouviu o mesmo som vindo de dentro do armário da cozinha, já não teve coragem de procurar a origem, ele apenas olhou para o mapa e percebeu - Iork New havia desaparecido. - No lugar da cidade existia agora uma pequena extensão azul ligada ao oceano.
Ele foi até a janela, restavam poucos prédios visíveis, pois a água avançava entre eles de maneira impossível, não como uma inundação, mas como se o mar sempre tivesse ocupado aquele espaço e apenas estivesse sendo revelado. Ao longe, alguma coisa surgia acima da linha do horizonte: uma montanha.
Amaro reconheceu aquela montanha imediatamente, era a mesma desenhada no mapa.
Ele continou escrevendo até a sua mão começar a falhar.
Não sabemos exatamente o que aconteceu depois, o caderno não registra mais nada daquela madrugada, e ninguém estava com Amaro para contar. Sabemos apenas que, três dias depois, seus vizinhos chamaram a polícia por causa do cheiro e o encontraram sentado no chão da cozinha, segurando o caderno contra o peito. Iork New existia normalmente quando chegaram, as ruas estavam no lugar, o mar permanecia a quilômetros de distância e nenhuma pessoa lembrava de ter visto bairros inteiros desaparecerem.
Helena chegou naquele mesmo dia.
Enquanto organizava os pertences do tio, ela acabou encontrando o caderno. As p[aginas continham nomes que não significavam nada para ela: Véspera, Santa Véria, Mar Alto, Belmonte e São Orfeu, algumas possuíam descrições detalhadas, populações, estradas e nomes de pessoas. Depois encontrou San Lázaro e Iork New, onde havia dezenas de frases repetindo que aquele lugar, ou melhor, que aquela cidade existia.
Mais adiante ela encontrou seu próprio nome: HELENA VELLOSO - MINHA SOBRINHA - MORA EM CLAUDIOLAND. Ela sentiu um gélido arrepio, mas continuou lendo até chegar à última página, onde Amaro escrevera apenas uma orientação: SE VOCÊ ESTÁ LENDO, NÃO CONFIE NO MAPA.
Helena levantou os olhos e percebeu que o mapa estava sobre a mesa, ela se aproximou e tentou observá-lo como o tio provavelmente havia feito, tantas e tantas vezes. Bethlehem, Cocite, Tarunia, Brasar e todas as outras regiões pareciam normais, mas a montanha no centro do oceano, porém, chamava sua atenção pois as linhas desenhadas ao redor dela pareciam representar ondas. Helena abriu novamente o caderno e procurou por Claudioland, olhou pro mapa, procurou e também estava lá. Ela estranhamente suspirou aliviada e começou a pensar que talvez os últimos dias de Amaro tivessem sido resultado de algum problema neurológico, o que explicaria suas anotações, a paranóia e talvez até a morte.
Ela foi até a cozinha beber água e quando voltou, havia um círculo ao redor de Claudioland. Helena parou no meio da sala e ficou encarando aquele velho mapa pois tinha certeza de que o círculo não estava ali antes. Aproximou-se devagar e percebeu que abaixo do nome da cidade havia uma palavra escrita a lápis - AMANHÃ - com a caligrafia do seu tio. Ela não conseguiu dormir naquela noite, ligou para seus amigos na cidade, falou com seu pai, verificou mapas na internet e tudo parecia extremamente normal. A cidade continuava existindo, as pessoas estavam em casa e ninguém compreendia por que ela insistia em fazer aquelas perguntas estranhas, foi somente na manhã seguinte, quando estava na rodoviária para voltar, que ela percebeu.
-Uma passagem para Claudioland, por favor! - Disse à atendente, enquanto escutava o som das teclas sendo pressionadas com uma surpreendente velocidade.
-Poderia repetir? - A atendente tinha uma expressão confusa enquanto olhava para Helena e em seguida para a tela do seu computador.
-Claudioland.
-Sinto muito, senhorita! Mas esse lugar não aparece no nosso sistema…
-Como assim não aparece? - Helena sentiu o peito apertar. - Claro que aparecesse, eu vim de lá anteontem.
-Esse destino não consta no sistema, talvez você esteja confundindo com uma cidade de outro país, nesse caso sugiro que busque atendimento no aeroporto mais próximo.
Helena abriu o caderno de seu tio e mostrou a anotação que ele havia feito sobre Claudioland dias atrás, a atendente leu e olhou para Helena como se estivesse buscando algum ferimento ou pancada em sua cabeça.
-Senhorita, como pode ver, isso é apenas uma anotação em um caderno…
Helena fechou o caderno bruscamente e saiu correndo da rodoviária, entrando na primeira papelaria que encontrou, comprou um mapa atualizado de Bethlehem e o abriu sobre o balcão, ali mesmo naquela papelaria, procurou, procurou, mas Claudioland não existia. No lugar onde deveria estar a cidade grande havia apenas uma faixa de território rural que ela não reconhecia, largou o mapa ali mesmo e voltou correndo para o apartamento de Amaro, mas ao chegar lá percebeu algo curioso: a porta estava aberta. - mas ela tinha certeza que a havia trancado -.
Ela lentamente entrou no apartamento segurando um guarda-chuva que estava próximo a porta, pronta para usá-lo como arma, mas não havia ninguém além dela naquele apartamento. Ela foi até a cozinha e percebeu o mapa jogado ali no chão e curiosamente, Claudioland havia desaparecido dele também.
Não havia cidade, estrada, ou qualquer marca indicando que alguma coisa existira naquela região, apenas o caderno continuava afirmando que Helena tinha uma casa, amigos e uma vida em um lugar que agora ninguém mais conhecia. Ela se sentou no chão, puxou o mapa para perto dela e notou que Iork New estava circulada e abaixo havia outra palavra escrita a lápis: HOJE.
Helena permaneceu ali imóvel durante alguns segundos, tentando convencer a si mesma de que aquela palavra já estava ali, mas não conseguiu, o medo que sentiu não foi provocado apenas pelo mapa, mas pela compreensão de que, se Amaro estivesse certo, dentro de algumas horas ninguém mais se lembraria daquela cidade, talvez ninguém se lembrasse dela também. Foi quando começou a escutar pessoas gritando na rua, ela foi até a janela e no horizonte, por trás dos prédios, havia uma linha azul.
Helena conhecia Iork New bem o suficiente para saber que o mar não poderia ser visto dali, mas ela estava vendo, vendo que a água parecia avançar lentamente entre os edifícios, não como uma inundação, mas como uma paisagem substituindo outra. Algumas construções desapareciam quando a linha azul as alcançava, e as pessoas ao redor continuavam caminhando como se nada estivesse acontecendo, Helena olhou pro caderno em suas mãos, depois para o mapa no chão e finalmente para aquela água impossível que se aproximava
Ao longe, muito além dos telhados, havia alguma coisa escura erguendo-se do oceano: Uma montanha.
Helena reconheceu rapidamente o formato porque passara a última hora olhando para seu desenho no mapa, ela tentou calcular a distância, mas não conseguia entender como algo tão grande podia estar visível dali. Por alguns instantes ela acreditou que fosse apenas uma ilusão causada por alguma névoa nas cidades vizinhas, mas então viu a montanha se mover - Não foi um movimento brusco - A formação simplesmente pareceu inclinar-se alguns graus, como alguma coisa enorme mudando lentamente de posição debaixo da superfície, as ondas ao redor aumentaram e, ao mesmo momento, todas as luzes e outdoors eletrônicos das ruas abaixo se apagaram.
Ela recuou da janela e sentiu seu telefone vibrando no seu bolso, era uma mensagem de seu pai: “Filha, você já está em casa?”.
Helena olhou para aquilo sem saber o que responder - Que casa? qual casa? Claudioland ainda existia? Seu pai lembrava dela? Se ele lembrava dela, ele lembrava da cidade? - Muitas dúvidas recaíram sobre sua mente: Qual sua origem? Qual seu endereço atual? Qual foi sua vida até aquele momento? O que o mundo fez para explicar uma outra vida inteira feita apenas para preencher o espaço deixado pela ausência de Claudioland?
Antes que ela pudesse escrever alguma coisa, outra mensagem apareceu: Desculpa, acredito que mandei mensagem pro número errado... Seu contato está salvo como "Filha Helena", mas não conheço nenhuma Helena.
Helena jogou o telefone no chão e apertou o caderno contra o peito da mesma forma que Amaro havia feito, foi então que as batidas começaram na parede.
Três
Toc.Toc. Toc.
Depois outras três, mais próximas.
Toc. Toc. Toc.
Ela tentou não olhar para o mapa, mas percebeu alguma coisa mudando em sua superfície: uma nova palavra surgindo no papel. Não foi surgindo de uma vez, as letras apareceram lentamente, como tinta atravessando o papel pelo lado de baixo, como se alguém estivesse do outro lado escrevendo lentamente "Helena"
O nome dela não estava sobre uma cidade, seu nome estava no oceano próximo à montanha. Ela ficou olhando até perceber que havia ourta coisa surgindo abaixo dele, uma pequena linha desenhada em direção à costa. Ela compreendeu, então, que Amaro talvez estivesse errado em uma única coisa: O mapa não estava avisando quais lugares desapareceriam, ele tampouco estava escolhendo cidades, ele estava mostrando para onde "alguma coisa" estava indo.
Do lado de fora, o mar continuava avançando, e a montanha parecia um pouco mais próxima do que antes. Helena abriu o caderno numa página vazia e começou a escrever tudo o que conseguia lembrar de si mesma: o nome de sua mãe, a rua onde crescera, a escola, a casa de Claudioland, as pessoas que amava, os lugares onde havia estado e também seu nome e o de seu tio. Ela não sabia se aquilo serviria para alguma coisa, mas agora compreendia porque o tio fizera o mesmo.
Quando terminou a primeira página, ouviu novamente as três batidas.
Toc. Toc. Toc.
Desta vez não vieram da parede, da porta ou da janela, o som veio debaixo do chão.
Helena não parou de escrever.
Thoughts
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PermalinkDona Dália reclamando do cheiro... fiquei triste com ele morando sozinho ali e ninguém nem chegou perto antes.
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PermalinkAmaro tava sozinho demais tempo. Que tipo de coisa um homem de 78 tá carregando contra o peito que dá tanto medo soltar?
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PermalinkAchei legal como tudo tá ali e ninguém tá vendo direito. O mapa coberto de círculos e anotação... alguém precisava de você pra contar que aquilo era estranho.
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PermalinkDona Dália ouviu ele arrastando coisa pesada. O que era? O mapa? O caderno? Vai voltar isso depois?
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PermalinkA torneira pingando enquanto ele tá ali... achei estranha essa imagem mesmo. tipo, a gente meio que sente o tempo passando naquele apartamento.
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PermalinkQue tipo de professor de geografia marca um mapa assim? Tá querendo dizer que não era infarto?
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PermalinkNinguém liga pro mapa no começo e só a gente vê. Bom assim, a polícia tá ocupada e nós descobrindo o que eles não notaram.
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PermalinkAquele detalhe do caderno que ele tava segurando... não achei tão importante no começo, mas agora fico achando que tinha coisa ali. O que tava dentro dele?