Há uma ideia limpa de diário que quase ninguém cumpre: o caderno absolutamente privado, escrito para ninguém, onde a pessoa se diz a verdade sem testemunha. Soa nobre. Também soa a coisa que, na prática, se abandona à terceira página. Escrevi assim durante anos e sei como termina: em branco.
Convém separar duas objeções que costumam vir juntas. A primeira diz que um diário escrito para leitores deixa de ser diário, porque a presença de olhos alheios transforma a confissão em pose. Tem razão, e não é pouco. No instante em que imagino quem me lê, começo a arrumar-me, a escolher o pecado apresentável, a poupar-me no que interessa. A segunda objeção, porém, é a que raramente se diz: o diário perfeitamente secreto, sem ninguém do outro lado, quase nunca chega a ser escrito. Falta-lhe o peso que obriga.
A tradição de que venho sabia disto, e resolveu-o sem ingenuidade. As Confissões de Agostinho são o exame de consciência mais nu que temos, e foram escritas para serem lidas. Ele não fala sozinho; fala diante de Deus e, de caminho, diante de nós. O que o impede de posar não é o segredo, é a presença de um leitor que ele não pode enganar. O mesmo se via no confessionário e na direção espiritual: não a multidão, não o zero, mas uma testemunha concreta perante quem a mentira custa.
É esse o meio que defendo, e não por conveniência. Um público pequeno e real faz ao diário o que o segredo não faz: obriga a acabar a frase, a voltar no dia seguinte, a não fugir. E faz o que a multidão desfaz: como esses poucos me conhecem, a pose apanha-se depressa, e escrever para os impressionar sai mais caro do que dizer a verdade.
Não estou a dizer que ponha a alma na praça. A praça corrompe o exame tão certamente como o segredo o dissolve. Digo que escrever-se sem mentir quase sempre precisou de alguém do outro lado, poucos e fiáveis, nem Deus sozinho nem o mundo inteiro. Se quer manter um diário que sobreviva a fevereiro e ainda lhe diga a verdade, não o feche a sete chaves nem o abra à rua. Dê-o a ler a três pessoas que o conheçam bem o suficiente para o apanharem a mentir.