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Sem Retorno – Capitulo 2 Sensível

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Sem Retorno – Capitulo 2

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Sem Retorno – Capitulo 2


Faziam menos de duas horas que meu pai tinha partido, e minha mãe já estava angustiada.

Ela mandou mensagens e ligou algumas vezes para ele.

Eu disse pra ela ter calma, pois ele nem deve ter chego no aeroporto ainda.

Mas ela estava inquieta, e queria saber se ele já tinha embarcado.

Eu estava morrendo de sono, pois quase não dormi na noite passada, estava quase cochilando no sofá da sala, enquanto assistia algum programa depois do café da manhã.

Minha mãe angustiada passava de lá pra cá, sempre com o celular na mão esperando noticias do meu pai.


- até agora ele não respondeu filho.


- calma mãe, ele acabou de sair.


Eu digo meio sonolento tentando acalmá-la, mas não surge muito efeito, pois ela continua de olho no celular.

Eu caio no sono por alguns instantes, não sei por quanto tempo dormi, mas sou acordado pela euforia da minha mãe que entra apressada na sala com o celular na mão.


- seu pai tá no telefone filho.


Ela me diz em tom baixo, com um sorriso aliviada.


- oi amor, você tá bem, já chegou no aeroporto.


- já sim querida, estava fazendo o check-in e despachando a bagagem, por isso demorei para responder.


Minha mãe segurava o celular entre nós dois e estava no viva voz, meu pai falava num tom de voz baixa quase difícil de ouvir.


- mas está tudo bem ai amor?, eu já estava preocupada por que você não respondia.


- está sim querida, só estava ocupado, mas fica tranquila está tudo bem.


- que bom amor, eu já estou aflita aqui vai me mandando mensagem quando conseguir, só pra mim ficar mais tranquila.


- pode deixar querida, mas eu vou embarcar daqui a pouco, pode ser que eu fique fora de área durante o voo, mas quando conseguir te mando uma mensagem antes de ir para o hotel para avisar que cheguei.


- por favor meu amor, vou ficar muito mais tranquila sabendo que você chegou em segurança.


- pode deixar, e o Edu tá ai com você.


- to ouvindo sim pai.


- que bom filhão, e as coisa ai tá tudo bem.


- tudo certo pai, só a mãe que tá quase infartando.


Digo em tom de brincadeira, e minha mãe faz cara de brava me dando um leve beliscão no ombro.


- imagino, mas cuida da usa mãe que logo eu estou de volta. Agora eu tenho que ir, acho que vai começar o embarque agora, se cuidem amo vocês.


- tá bom pai, boa viagem.


- boa viagem amor, nós te amamos, vai com deus, e não esquece de me ligar quando chegar.


Minha mãe fala apressada com a voz levemente embargada, mas a ligação e encerrada as pressas.

Assim que a ligação termina, minha mãe está com os olhos marejados, mas com uma expressão de alivio, eu a envolvo em um abraço passando um braço por seus ombros, e ela sorri se aninhando em meu peito enquanto abraça minha cintura.


- viu mãe, fica tranquila, tá tudo bem.


Ela limpa suavemente os olhos das lagrimas que começaram a brotar.


- agora estou mais tranquila.


Eu também estou mais tranquilo, não comentei nada sobre o vizinho o senhor Luiz, não vi necessidade para isso, mas é bom saber como meu pai se preocupa com a gente.


Nós sorrimos e eu decido tomar um banho e ir me deitar um pouco, pois mal consigo ficar em pé de sono.

Quando acordo já é fim de tarde, minha mãe já fez todos os afazeres da casa, e está começando a preparar as coisas para o jantar, ela sempre mantém o celular por perto esperando noticias do meu pai.

Depois do jantar sempre ficamos juntos no sofá assistindo alguma serie ou filme antes de ir para cama.

Já se passaram horas depois da ultima ligação de meu pai, e minha mãe já está começando a ficar impaciente.

Eu explico pra ela o tempo de viagem para tranquilizá-la, ela assente e tenta se acalmar.

Depois do filme vamos dormir talvez amanhã meu pai mande noticias.


Eu acordo cedo e minha mãe já está preparando o café.

Estou animado e motivado, vou aproveitar o dia de hoje para procurar uma boa faculdade para que possa me inscrever, e estou decidido a fazer administração e deixar meu pai orgulhoso.

Vou começar as pesquisar depois do café, e minha mãe pede que eu vá até a padaria para comprar pão, e mais algumas coisas.

Saindo de casa fico aliviado ao não ver o velho Luiz no portão, ele costuma acordar cedo e ficar sentado na calçada curiando o movimento, acho isso irritante, pois ele sempre tenta fazer uma gracinha pra puxar assunto.

Porem quando estou chegando perto da padaria que fica no fim da rua, tenho que passar pela oficina do velho Luiz, e para meu desgosto o velho está lá sentado na porta.

Eu fecho a cara e tento passar rápido, fingindo não ver ele, mas o velho não perde a oportunidade.


- opa, bom dia rapaz, acordou cedo hoje.


Ele diz me olhando com um sorriso curioso.

Desejo-lhe um bom dia educadamente, e tento apressar o passo para passar logo.


- e como tá seu pai, já teve noticias.


O velho pergunta me olhando com curiosidade, eu penso em deixar ele falando e fingir que não ouvi, mas ele fica de pé, quase se colocando na minha frente, eu sou obrigado a parar e respondo a pergunta.


- sim ele tá muito bem, disse que logo tá de volta.


Respondo seco e ríspido, olhando nos olhos dele.

O velho me encara e abre um sorriso.


- graças a deus, o cumpadi Tony nunca fica tanto tempo longe de casa, e não é difícil de saber por que né, a sua mãezinha e doida por ele, deve tá aguniada de ficar longe dele. Que bom que ele volta rápido né.

O velho fala de modo sarcástico com um sorriso malicioso, não gosto de ouvir a voz dele com aquele sotaque e o tom roco irritante, e o modo como fala, como se soubesse de algo sobre minha família, isso me irrita.

Instintivamente meus punhos se fecham, eu sinto vontade de dar um soco bem dado na cara dele.

Eu não sou um valentão, nada desse tipo. Mas acabaria com esse velho facilmente.

Não sou de briga, mas tenho alguns aparelhos em casa e costumo fazer meus exercícios e musculação diariamente.

Meu corpo está em forma e ainda me lembro de alguma coisa do boxe, que meu pai me fez praticar até os quinze anos.

Então conseguiria da um jeito nesse velho facilmente, embora ele seja acostumado em trabalhos braçais, da pra ver nitidamente que ele não tem resistência nenhuma e os anos de negligencia com seu corpo e o abuso do tabaco o deixaram acabado, até pra levantar ele fica ofegante.

Ouvi meu pai falando dele uma vez, disse que ele teve um enfisema e teve de operar, que ele mal consegue andar sem perder o folego, fora outros problemas.

Então não seria difícil dar um apavoro nele.

mas não é pra tudo isso então tento manter a calma.


- não se preocupa não, eu to em casa pra cuidar da minha mãe, até meu pai voltar.


Digo de forma firme estufando o peito.

O velho perde o sorriso por um instante, mas logo da um sorrisinho debochado.


- tá certo garotão, tu é o homem da casa agora, é assim que se fala.


Mais uma vez não gosto do modo que ele fala, mas ignoro e dou um passo a frente e ele abre passagem.

Continuo meu caminho até a padaria, dou uma olhada pra trás para encará-lo, e ele continua me olhando com um sorriso enquanto me afasto.

A padaria e do outro lado da rua a alguns metros da oficina do velho, e percebo ele me olhando enquanto espero ser atendido na fila de espera.

Logo uma velha que mora na casa ao lado da oficina do velho sai pelo portão de sua casa, segurando uma vassoura, ela cumprimenta o velho e os dois começam a conversar, não consigo ouvir o que eles dizem, mas depois de algumas palavras, vejo a velha olhando pra mim na fila.

Quando ela percebe que eu estou olhando, ela desvia o olhar como quem não quer nada, e volta a conversar com o senhor Luiz.

Eu paro de prestar atenção naqueles dois velhos fofoqueiro, não me importo com o que eles dizem.

Desde que viemos morar aqui, por causa de eu e minha mãe nos mantermos distante deles, sempre tem uma fofoquinha sobre nossa vida.

Vizinhança de fofoqueiro é assim mesmo, eles gostam de falar da vida dos outros que não conhecem, e como não damos liberdade pra eles, sempre torcem o nariz falando por nossas costas.

Depois que sou atendido, passo por eles e percebo eles parando o assunto quando estou me aproximando.

A velha me olha curiosa e me deseja bom dia, eu respondo educadamente e continuo meu caminho.


- ai sim hein, fala que o velho Luiz desejou um bom dia pra sua mãe, e diz que depois passo lá pra tomar um café.


Esse velho é insuportável, eu o encaro com raiva sem dizer nada, ele me olha com um sorriso achando que fez graça.

Eu dou as costas sem responder e continuo meu caminho.


Em casa depois do café, minha mãe está preocupada, e pergunta se meu pai já deveria ter chego na china, ela manda uma mensagem e tenta ligar, mas está dando como fora de área.

Tento acalmá-la e digo que é assim mesmo, o voo pode atrasar as vezes.

Fiquei o dia todo pesquisando sofre os cursos de administração, e as faculdades.

Mesmo meu pai tendo essa oportunidade que pode melhorar as nossas condições, não quero extrapolar, e procuro uma que tenha um meio termo, uma faculdade com o nome considerado, mas com valor acessível com a nossa realidade.

Encontro algumas e separo para ver depois, em qual posso me inscrever depois que meu pai retorna da viagem.

A noite chega e nada ainda de noticias, explico que o voo demora mais de um dia de viagem, mas minha mãe ainda está angustiada.

Passei a noite inteira conversando com minha mãe, e tentando explicando sobre os trajetos de viagens, e mostrando como a china e longe comparado a onde moramos, tudo pra tentar acalmá-la.

Mas ela só vai ficar tranquila, quando conseguir conversar com meu pai.

Acordei pela manhã e minha mãe parece que não pregou o olho a noite toda.

O café já está na mesa, e minha mãe está visivelmente angustiada.


- filho, da uma olhada no meu celular pra mim, vê se ele não tá com algum problema.

eu sei que não tem nada, mas olho pra deixá-la tranquila.


- tá normal mãe.


Digo dando uma conferida rápida.


- liga do seu celular pra mim, vê se tá recebendo chamada.


- não tem nada de errado mãe, ele tá funcionado. E se o pai tivesse ligado e não conseguisse falar com você, ele ligaria pra mim.


Digo meio desinteressado, sabendo que o celular não está com defeito.


- vai filho por favor, só pra ter certeza.


Minha mãe faz uma carinha angustiada, e eu não suporto ver ela assim.

Então por descargo de consciência vou até meu quarto pegar meu celular, do meu quarto mesmo, busco o numero da minha mãe e faço a chamada.

Em segundos depois o celular dela toca na cozinha, ela atende e só pra confirmar eu respondo pra mostrar que tá tudo bem com o celular.

Mas isso só deixou ela ainda mais aflita, e ela esfrega o celular com as duas mãos angustiada.


- já se passaram mais de vinte quatro horas filho, e nada ainda.


- calma mãe é assim mesmo se lembra que te mostrei ontem, ele pode ter feito alguma escalá e pode ter demorado mais um pouco.


- mas se ele tivesse feito escala, ele poderia ter ligado nesse tempo.


A voz da minha mãe saiu angustiada, e me deu um pouco de preocupação pois não tinha pensado nisso.

A verdade é que eu não sabia muito sobre o voo do meu pai, só sabia que ele estava indo pra china.

E realmente se ele não tivesse feito escalas, ele já deveria ter chego.

Mas nunca viajamos de avião, então não tinha noção das complicações da viagem, então isso poderia ser normal.


- relaxa mãe, logo ele vai entrar em contato falta pouco agora, a gente só tem que esperar, e para de ficar assim que faz mal pra senhora.


Digo para acalmá-la, mas já sinto um pouco de preocupação brotando em mim.


Já ia dar meio dia, minha mãe tentava se ocupar com os afazeres da casa para aliviar a preocupação.

Mas não estava funcionando, pois via ela constantemente andando de um lado para o outro agarrada ao celular.

Eu também já sentia que algo estava estranho, e fiz uma pesquisa rápida na internet.

Descobri que não era possível fazer ligações durante o voo.

Mas era possível mandar mensagens via whatsapp. E se era possível, por que meu pai não mandou uma mensagem ainda.

Tentei formular algumas explicações, talvez ele não saiba disso, talvez o avião não tenha Wi-Fi disponível, não sei tentei entender o que poderia estar acontecendo.

Pois se meu pai tivesse feito alguma escala, ele arrumaria um jeito de ligar.

Mas estava começando a ficar preocupado, mas não poderia transparecer pra minha mãe, então tentei me manter calmo e acalmar ela, a única coisa que poderia fazer era esperar.


Mas as horas foram passando já passaram-se quarenta e oito horas desde que meu pai embarcou e não tivemos mais noticia dele.

Minha mãe agora já estava desesperada, eu também, agora não conseguia mais esconder a preocupação.

Tanto minha mãe quanto eu ligávamos para o celular dele, deixamos dezenas de mensagens, e nada de resposta.

Minha mãe estava aflita assistindo aos noticiários, angustiada atrás de alguma noticia.

Eu também procurava na internet sobre voos e sobre algum acidente, para pelo menos ter alguma ideia.

Um pequeno alivio foi não encontrar nada, tanto eu quanto minha mãe, porem ainda não tínhamos respostas.

Contra nosso gosto, mas por desespero, ligamos para minha avó a mãe do meu pai, talvez ele não tenha conseguido o contato conosco, e pode ter entrado em contato com ela.

Mas chamava, chamava e ninguém atendia, até o telefone ficar fora de área, a bruxa não queria nos atender.

Entrei em contato com a companhia aérea perguntando sobre o voo em que meu pai embarcou.

Depois de algum tempo verificando, a atendente confirmou a chegada do voo ao seu destino em segurança.

Isso nos deu alivio, mas nos deixou muito mais confusos.

O pior foi quando a atendente disse que não tinha na lista de passageiros o nome da pessoa que estávamos procurando nesse voo.

Eu e minha mãe nos olhamos assustados e confusos. A atendente revisou algumas vezes, mas não encontrou o nome do meu pai.

Estávamos perdidos, poderia ser um erro mas a atendente foi clara.

Não tínhamos mais escolhas, minha mãe estava entrando em desespero total.

Minha mãe queria ir na casa da minha vó, mas eu disse que não ia adiantar de nada, que era melhor irmos na policia direto.

Minha mãe concordou imediatamente, pegamos os documentos que iriamos precisar e fomos para a delegacia mais próxima.

Fomos de uber, no caminho embora eu tentasse acalmar minha mãe, ela já não se controlava mais, e as lagrimas escorriam por seu rosto.

Chegando na delegacia ela tentou se recompor mas estava muito nervosa para falar, então eu disse o que estava acontecendo para o oficial que nos atendeu.

Ele registrou toda a ocorrência, e entregamos pra ele todos os dados que ele solicitou.

Na nossa frente ele fez uma ligação para a companhia aérea para confirmar o que dissemos, se não havia registro do passageiro Antony Alencar Gonçalvez, no voo G35777.


Esse é o nome completo do meu pai. Antony Alencar Gonçalves

a mãe do meu pai proibiu que ele desse o nome da família dela tanto para minha mãe como para mim.

Então tanto eu quanto minha mãe não temos o Alencar no nome, apenas Gonçalves Santos, Santos por parte da família da minha mãe, e Gonçalves era a parte do pai do meu pai, que deu a permissão para termos o seu sobrenome.

Esse é o tamanho do ressentimento que a mãe do meu pai sente por mim e por minha mãe.


Depois que o policial confirmou a nossa versão, ele disse que o caso iria entrar em investigação, e que teríamos que aguardar respostas.

Disse para caso meu pai entrasse em contato, para que avisássemos imediatamente.

E assim que tivessem alguma noticia seriamos informados.


O caminho de volta para casa foi quase fúnebre. Minha mãe vinha no carro deitada em meu peito aos prantos.

Embora eu estivesse tentando tranquilizá-la, eu mesmo quase não conseguia segurar o choro.

Quando o carro nos deixou no portão de casa, para a maior revolta o velho Luiz estava no portão, com seus olhos curioso.

Ele disse alguma coisa, mas minha cabeça estava tão confusa que nem ouvi.

Minha mãe também nem prestou atenção, e entramos imediatamente depois de pagar a corrida.

Dentro de casa minha mãe desabou de vez, as lagrimas escorriam sem controle.


- meu deus, o que será que aconteceu meu filho, onde será que seu pai está.


Eu abracei ela com força, e me controlei pra não ir aos prantos com ela.


- vamos ter calma mãe, a gente não sabe de nada, vamos esperar, se desesperar agora não vai adiantar nada.


Eu tentava me manter forte por ela, mas era difícil manter as esperanças.

Tudo parecia tão confuso, e nada fazia sentido.

Dei um calmante pra minha mãe, e levei ela pra cama, aquela noite nem comemos nada, não tínhamos estomago pra isso.

Eu a todo instante mandava mensagens para o meu pai, e tentava fazer ligações constantemente.

Mas não tinha nenhuma resposta.

Passei a noite na internet procurando por noticias, entrei no site da companhia aérea e procurava por alguma resposta, mas só ficava mais confuso.


No dia seguinte o clima era horrível, minha mãe não saiu da cama, eu tentei levar o café pra ela, mas ela não comeu nada, no almoço foi a mesma coisa.

Ela só chorava abraçada ao travesseiro do meu pai, e rezava pedindo ajuda aos céus.

Eu não sabia o que fazer, então a todo instante tentava ligar para o telefone do meu pai, mas o resultado era o mesmo.

Eram sete da noite naquele dia quando o telefone tocou.

Eu estava na sala e atendi prontamente, minha mãe quando ouviu o toque correu pra sala.

Era o oficial encarregado da investigação do caso. Eu e minha mãe estávamos esperançosos por noticias, mas a informação só nos confundiu ainda mais.

O oficial disse que conseguiu o contato com minha avó.

Na delegacia quando ele pergunto sobre parentes próximos, incluímos os dados da mãe do meu pai no relatório.

Dissemos que tínhamos tentado o contato com ela antes de ir na delegacia, mas não conseguimos falar com ela.

O oficial disse que ela também não sabia o que estava acontecendo, e que nem ficou sabendo que o filho dela tinha saído em uma viagem.

O pior foi que o oficial me perguntou se estávamos tendo problemas em casa, se meu pai estava irritado conosco antes de partir.

Não entendi muito bem a pergunta, mas com certeza a velha da minha avó, falou alguma mentira de merda difamando nossa família.

Disse para o oficial tudo o que já tínhamos contado, sobre o motivo da viagem do meu pai, da reunião com algum parceiro chines.

Ele pergunto se tínhamos o nome desse parceiro, ou alguma informação de onde ele iria ficar.

Mas eu não sabia de mais nada, perguntei para minha mãe, e ela também não sabia.

Por fim, ele num tom suspeito disse para que aguardássemos, e iria continuar com a investigação.

Eu e minha mãe nos entre olhamos ainda mais confusos, meu pai tinha partido e não avisou nada pra mãe dele, isso pareceu muito estranho.

E o pior aquela velha ao invés de ter algo para ajudar, com certeza bagunçou ainda mais as coisas.

Não tínhamos o que fazer, agora tínhamos que aguardar.


Os dias foram passando e nenhuma informação do meu pai.

Minha mãe estava destruída, e vivia a base de remédio para se acalmar.

Eu tomava conta dela e não ficava sossegado até que ela se alimentasse.

As coisas estavam ficando cada vez pior, pois nosso dinheiro estava acabando, e estávamos ficando sem alimento.

Eu precisava trabalhar, e procurei por vagas na internet.

Foi difícil achar um emprego que atendesse o que eu queria, pois eu não podia ficar muito tempo fora de casa, tinha que tomar conta da minha mãe.

E eu também não tinha experiencia, isso dificultou ainda mais as coisas.

Mas por sorte achei algo que iria servir, pelo menos até as coisas se ajeitarem.

O emprego era como suporte júnior em uma empresa de telemarketing, eu iria ficar a disposição para corrigir falhas no sistema quando fosse necessário, o melhor do emprego e que era apenas quatro horas por dia, o salario não era nada bom, mas supriria um pouco nossas necessidades, e era temporário só até tudo voltar ao normal.

Fui avisar minha mãe, eu iria fazer uma entrevista amanhã e queria ter certeza que ela ficaria bem.

Ela estava deitada no quarto escuro, seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, e ela sempre ficava agarrada ao travesseiro do meu pai.


- mãe como a senhora está.


Ela limpa o rosto e senta na cama um pouco envergonhada.


- filho, tem alguma noticia.


Ela pergunta esperançosa, mas não tenho nada sobre o caso.


- ainda não mãe, mas vim avisar que consegui um emprego, amanhã vou pra uma entrevista.


Ela se ajeita na cama e me puxa pra sentar ao lado dela.


- não filho, você tem que estudar, e a faculdade que você tava procurando.


- agora não da mãe, e melhor esperar as coisas se acertarem primeiro.


Ela segura minha mão e da um leve beijo e faz carinho nas costas da minha mão.


- me desculpa filho, desculpa por ser essa mãe ruim, mas sem seu pai eu fico completamente perdida.


Minha mãe chora envergonhada olhando pro chão escondendo o rosto.

Eu gentilmente seguro o rosto dela com uma das mãos e levanto pra olhar nos olhos dela.


- não mãe, a senhora é a melhor mãe do mundo, e eu estou aqui com você, nos estamos juntos.


Ela me da um sorriso singelo, e eu enxugo as lagrimas dela com o polegar.


- obrigado meu amor, e graças a você que eu tenho forças, pois se não fosse isso, eu nem sei o que faria.


Ela fala num tom pesado.


- para mãe, nós vamos ficar juntos, e ainda não sabemos de nada, nós não podemos perder as esperanças.


Minha mãe da um sorriso tímido e assente positivamente.


- olha, amanhã vou fazer essa entrevista, e se tudo der certo será menos uma preocupação, o melhor é que é só meio período, então não vou ficar por muito tempo fora.


- que bom amor, mas fico preocupada com seus estudos.


- não se preocupa mãe, é só temporário, e quando o pai voltar tudo vai se ajeitar.


Minha mãe da um leve sorriso me reconfortando.

Eu tentei ser o mais otimista possível, mas já faziam dias sem noticias, e mesmo pra mim as palavras soaram desanimadoras.


- agora levanta o que a senhora acha de me ajudar a preparar o jantar, eu tenho que estar bem para a entrevista amanhã cedo.


Ela acaricia suavemente meu rosto me olhando nos olhos.


- vamos sim meu amor, eu vou preparar o que você quiser, eu te amo demais meu filho.


O jeito que ela me olha me alegra muito, pois sei que mesmo que o mundo esteja desabando, se tivermos um ao outro, nunca iremos desistir.


Minha mãe se esforçou para jantar graças a minha insistência, depois passamos um tempo juntos.

Mas era difícil esquecer o que estava acontecendo e ela sempre caia no choro.

Depois de algum tempo, dei um remédio pra ela e fiquei com ela até ela pegar no sono.

Depois deixei tudo arrumando e fui para meu quarto para dormir.


No dia seguinte acordei cedo. Minha entrevista era as oito e como o lugar não era muito distante, eu tinha tempo de sobra.

Minha mãe mesmo ainda sonolenta com o efeito do remédio, fez questão de levantar e quis me preparar o café.

Depois de um abraço apertado, e um desejo de boa sorte da minha mãe, sai com tempo de sobra.

Quando chego no local marcado, me mandam para uma sala com mais algumas outras pessoas.

Descubro que a entrevista é um teste na pratica, e mesmo sendo o mais jovem, e único sem experiencia comprovada na área, no mesmo dia consigo uma das vagas para o serviço.

O complicado foi que eles me informaram que os horários de serviço eram informados diariamente pelo encarregado do setor.

Ou seja, eu trabalharia apenas quatro horar no dia, porem poderia ser das sete as onze, ou das doze as dezesseis, dependia da necessidade do setor no dia.

Não atrapalharia muito, mas eu preferiria ter um horário fixo.

Estava animado seria meu primeiro emprego, porem quando chego na rua da minha casa, uma visão faz meu sangue gelar.

A rua da minha casa é uma reta, e de longe consigo ver o portão de casa.

E no portão vejo o velho Luiz parado virado para a frente da casa, como se estivesse falando com alguém.

Eu acelero meus passos, porem quando me aproximo o velho já está entrando na casa dele.

Eu penso em ir falar com ele, mas prefiro entrar em casa.

Estou agitado e quando abro o portão, minha mãe abre a porta de entrada surpresa, e quando me vê me da um sorriso alegre.

Ela abre os braços para me receber, mas eu estou desconfiado.


- o que o senhor Luiz queria no nosso portão.


Pergunto um pouco afoito.

Minha mãe me ajuda a entrar, um pouco surpresa com a pergunta.


- ele veio perguntar sobre seu pai.


Agora me lembrei que não contamos nada pra ninguém, os únicos que sabem somos eu minha mãe e minha avó.

Mas duvido que ela tenha dito alguma coisa, ela despreza nosso bairro, diz com a boca cheia que não se mistura com essa raça.


- e a senhora contou pra ele.

- contei filho, ele é um amigo de seu pai


- poxa mãe, o senhor Luiz é muito fofoqueiro, logo o bairro todo vai ficar sabendo.


- mas o que que tem filho, uma hora eles vão saber mesmo, eu estava até pensando mesmo em falar com ele, achei que ele poderia saber de alguma coisa.


- e ele sabia.


- não,


eu também tinha pensado nisso, achei que como meu pai tinha comentando sobre a viagem com ele, ele poderia saber algo pra nos ajudar, mas pelo jeito não.


- ele disse que se precisar de alguma coisa ele pode ajudar.


Quando minha mãe falou isso meu sangue ferveu, eu conhecia bem as intenções do velho.


- mãe não da trela pro senhor Luiz, a senhora sabe que ele é bocudo, logo tá falando da nossa vida pra cidade toda, deixa que a gente se resolve, não precisamos da ajuda dele.


Digo tentando me controlar, mas não consigo conter minha irritação.


- eu sei filho, pode ficar tranquilo, só tive um pouco de esperança que ele pudesse saber de algo, mas não se preocupa.


Fico mais aliviado ouvindo isso da minha mãe, mas e difícil não ficar preocupado, sabendo que esse velho pode ficar rondando nossa casa.


Depois desse momento minha mãe pergunta das novidades, eu dou a boa noticia, que consegui o emprego e começo amanhã, expliquei sobre os horários, e ela ficou orgulhosa da minha conquista.

Era ótimo ver ela sorrir novamente, mesmo que por um breve momento.

Os dias foram passando e eu já estava adaptado ao meu trabalho, não era nada difícil, pra ser honesto era bem chato e monótono.

Minha mãe tinha prometido se cuidar mais, mas eu sempre estava em casa depois do serviço pra me certificar que ela estava bem, eu recebia por semana, e isso ajudou muito a não ficarmos sem comida.

Porem ainda não tínhamos nenhuma noticia sobre meu pai, e o fim do mês estava chegando.

E meu salario não iria dar para cobrir todas as despesas, alguma coisa teria de ficar de fora.

Ou eu teria de arrumar outro emprego, ou trabalhar em tempo integral para receber mais.

Porem ainda tínhamos que resolver as questões da loja do meu pai, e não sabíamos o que fazer.

Ela estava fechada desde que ele partiu, e uma solução boa seria tentar vender a loja para adiantar um dinheiro para nos mantermos.

Ou eu poderia assumir os negócios com minha mãe, quem sabe podemos conseguir manter a loja e tocar o negocio.

Era uma opção difícil, pois mesmo meu pai que tinha muita experiencia e era muito mais articulado que a gente, estava com dificuldades.

Eu conversei com minha mãe, ela sabia que tínhamos que nos mover, não podíamos ficar parados.

Mesmo estando no escuro, totalmente perdidos, destruídos e sem respostas, tínhamos que continuar.

Combinamos de encontrar um advogado que cuidasse dessa parte.

Para ver o que deveria ser feito, o que seria necessário pra tomarmos nossa decisão.

Encontramos uma advogada e falamos sobre nosso caso.

Ela disse que seria necessário ter toda a documentação do imóvel e todos os registros.

Eu e minha mãe não fazíamos ideia, então reviramos a casa toda procurando alguma coisa.

Por fim achamos uma maleta com alguns papeis, e por sorte lá estava alguns documento que fazia referencia a concessionaria.

Entregamos tudo para a advogada, menos a chave, não conseguimos encontrar, e possível que meu pai tenha levado com ele.

Ela disse que não tinha problema, mas que precisaria de alguns dias para analisar.

Havia um sentimento de tristeza fazer isso.

Estávamos eu e minha mãe sozinhos, decidindo o que faríamos com o legado de meu pai, sem ele.

Realmente parecia algo que se faz quando alguém morre.

Minha mãe chorou muito aquele dia, eu também não me contive, e sozinho no meu quarto não segurei o choro.

Tínhamos que esperar agora, o mais viável para nós era vender mesmo, poderia render um bom dinheiro, o que daria tempo pra gente se reerguer.

A advogada sabendo da nossa situação, deu um conselho caso queiramos vender a loja.

Ela disse que poderíamos investir o dinheiro, e usar os dividendos do investimento como ponto de apoio.

Achei boa ideia, e comecei a pesquisar sobre investimentos para ter mais noção.


Enquanto aguardava, eu continuei trabalhando.

Fiquei contente por vê minha mãe se esforçando, ela ainda sofria muito, mas se esforçava para comer, só para não me deixar preocupado.

Eu já tinha me acostumado com a rotina do serviço, mesmo entrando em horários diferentes.

Porem em mais um dias desses que estava voltando para casa, me deparo com o velho Luiz no portão da minha casa.

Meu sangue ferve e dessa vez quase corro pra me aproximar.

Ele está concentrado, e devido a diferença de relevo dos muros, ele não me vê chegar.

Minha casa tem o muro um pouco mais a frente do que a casa do lado, e consigo me esconder ali.

Eu ia chegar intimando ele, mas de ultima hora preferi esperar, e me escondi naquela saliência do muro, para ouvir o que ele estava falando, da onde eu estava, conseguia ouvir a conversa.


- oh minha linda, tu não precisa passar por isso não, eu sei que você tá tristinha, já te falei, quando quiser e só falar comigo que eu te ajudo.


O tom manhoso que aquele velho usava me dava nervoso.


- tá tudo bem senhor Luiz, não preciso de nada não, eu fico muito agradecida por sua gentileza, mas não precisa não.


Minha mãe é educada, e tenta recusar sem perceber a malicia nas intenções do velho.


- eu sei que você é uma mulher guerreira minha linda, mas prometi pro cumpadi Tony, que quando precisar, eu iria ajudar vocês, então para de manhã, pega aqui é pra ajudar vocês. E com todo carinho.


Eu olho com cuidado e vejo que o velho está segurando algumas notas de dinheiro, estendendo em direção a minha mãe.


- não precisa senhor Luiz, eu fico muito agradecida, mas não precisa de verdade.


- pega mulher, deixa de ser besta, deixa eu te ajudar, eu faço com todo gosto, por que uma mulher bonita como você, não pode tá passando dificuldade.

Eu perco minha paciência, o jeito que aquele velho tá coagindo minha mãe insistindo, me tira do serio.

Minha mãe tá do lado de dentro do portão, e ele do lado de fora, o portão está entre aberto, e ele está quase empurrando minha mãe pra dentro e entrando junto com sua insistência.

E não suporto mais ouvir e saio do canto do muro num impulso.

Ele não me vê, pois já está quase dentro do portão da minha casa.


- o que tá acontecendo.


Digo firme, até engrossando um pouco a voz.

O velho toma um susto e da um passo pra trás.


- oi filho, já chegou.


Minha mãe me diz com um sorriso, meio sem graça, e visivelmente desconfortável.

Eu me mantenho serio e fico encarando o velho.


- tá tudo bem aqui.


Pergunto encarando ele.


- oh rapaz, tá trabalhando agora é, é isso ai tem que tomar conta da tua mãe.


Ele diz com aquele sorriso sarcástico.


- é o senhor o que está fazendo aqui.


Eu estou sem paciência, estou quase soltando a mochila e dando um soco nele.


- tá tudo bem filho, o senhor Luiz só veio ver se a gente precisava de alguma coisa.


- se a gente não foi pedir, e por que não tá precisando, não é mesmo.


Digo ríspido encarando ele, de modo tão cortante que até minha mãe se assusta.


- pois é, o cumpadi era muito meu amigo, e eu fico feliz em ajudar a família do meu amigo.

Eu prometi pra ele que eu ia ajudar, e sei bem como é esses momento de tristeza, e com tu trabalhando agora, e difícil pra sua mãe ficar sozinha sem ninguém pra ajudar.

Por isso só quero lembrar que quando precisar é só contar comigo.


As palavras dele soam como um aviso, ele diz de modo passivo agressivo, como se estivesse me desafiando.


- o seu negocio com meu pai, é só com ele.

A gente não precisa de ajuda não, e se precisasse não seria pra você que iriamos pedir.

Minha mãe não tá sozinha não, eu to com ela, e o senhor trata de não ficar vindo aqui arrumar assunto, por que a gente tem muita coisa pra fazer.


Eu estou perto de explodir, os olhos da minha mãe se arregalam surpresa, eu já estou em posição esperando o confronto.

Desde pequeno eu vejo esse velho rodeando minha mãe, ele se acostumou a fazer sua gracinhas pra minha mãe quando meu pai não tava por perto, e se acostumou a me ver como um pirralho.

Pois nunca se preocupou com minha presença pra ficar dando cantadinhas e cobiçando minha mãe na minha frente.

Agora que somos só eu e ela, não vou deixar esse tipo se aproximar dela.

Sei que ela não é uma desmiolada, e todas as escolhas são dela. Mas esse é o meu papel, eu vou peitar qualquer um que se meta a besta.

O velho da mais um passo pra trás, mas continua com um sorriso debochado no rosto.


- tá tudo bem garoto, fica tranquilo, não quis aborrecer ninguém não.

É melhor eu ir indo, o rapaz acabou de começar a trabalhar e já está estressado.


Eu não gostei do modo que ele falou, me chamando de garoto, e quase me chamando de mole, insinuando que não aguento trabalhar.

Ele se vira e vai em direção ao portão dele, eu já ia avançando pra cima dele, quando minha mãe segura meu braço, me impedindo de ir atrás dele.

Ela me puxa pra dentro de casa, e envolve meu braço com os braços dela, escorando a cabeça no meu ombro.


- o que foi isso filho.


Ela diz carinhosa afastando um pouco a cabeça para me olhar nos olhos.


- ah mãe, velho chato, a senhora precisa descansar, e ele fica aqui querendo encher o saco.


- calma filho, você sabe como o senhor Luiz é, ele só quis ajudar.


Minha mãe é muito ingenua, ela não nota as malicia que o velho tem com ela.

Ela leva na brincadeira, e confia na amizade dele com meu pai.


- a gente não precisa da ajuda dele, espero que ele se toque a partir de agora.


Minha mãe fica surpresa com minha reação, eu nunca tinha agido assim.

Mas agora ela era minha responsabilidade, até que meu pai volte, eu sou o responsável por proteger ela.

Ela não diz, mas fico feliz quando ela me abraça, e gruda o corpo na lateral do meu corpo.

Uma demonstração de orgulho por minha atitude, ela me leva pra dentro de casa, e tenta me acalmar, sentindo que estou com os nervos a flor da pele.

Ela me pede gentilmente pra ir tomar um banho, e depois vir almoçar.

Almoçamos juntos, e conversamos sobre o trabalho, eu conto que tudo está indo bem, e ela diz que quer começar a trabalhar para me ajudar.

Eu não me sinto confortável com essa ideia, meu pai sempre foi o provedor da casa.

Nunca permitiu que minha mãe trabalhasse para os outros.

E sentiria que estou falhando se ela tivesse que fazer isso agora.


- calma mãe, eu não estou ganhando muito e verdade, mas já conseguimos nos virar.

E tem outra, se der tudo certo e a gente conseguir vender a concessionaria, eu estava estudando alguns investimentos que a advogada falou, o rendimento é muito bom.

Não dá pra gente viver de luxo, mas já vai sustentar a casa inteira, e ainda vou poder fazer uma faculdade, e depois que me formar, ou até antes, posso arrumar um emprego melhor.


Eu falo empolgado, já visualizando o futuro.

Minha mãe me olha com admiração, com um leve sorriso orgulhosa.


- seu pai ficaria muito orgulhoso do homem que você tá se tornando meu filho.

Ela diz de um modo natural, com honestidade, e um olhar de admiração.

Sinto meu rosto queimar e fico meio envergonhado.

Ela me olha nos olhos, mas logo aquele olhar de orgulho e admiração se enche em lagrimas, e a lembrança do buraco que existe em nossas vidas, inunda esse momento com a tristeza.

As lagrimas rolam sem controle, eu tento conter o choro, mas sem perceber já estou chorando.

Estamos de mãos dadas um de frente para o outro, eu me levanto as presas e me abaixo envolvendo minha mãe em um abraço carinhoso.


- onde está o seu pai filho.


A voz embargada, angustiada. Mas eu não tenho responta.

O que posso fazer e tentar manter o controle, e estar aqui pra ela.


Enquanto não tínhamos resposta ou noticias sobre meu pai, tínhamos que tocar a nossa vida, eu tentei me concentrar no trabalho meu salario conseguia nos manter dentro de casa, mas o mês estava acabando e logo logo as contas vão chegar.

Eu queria resolver os assuntos da loja do meu pai rápido, para ter noção do quanto teríamos para nos manter.

Mas a advogada disse que ainda estava pesquisando e não deu muitas respostas.

Mesmo minha mãe se esforçando para não me preocupar, eu estava preocupado com ela.

Ela estava muito abatida ainda, e só dormia a base de remédios, e quase não saia da cama.

Ela tentava esconder, mas sei que ela chorava o tempo todo escondida, e só se acalmava quando eu estava por perto. E também só se alimentava quando eu insistia.

Era muito doloroso ver ela assim.

Mas eu não tinha escolha pelo menos por agora.

Eu ia me dedicando a esse trabalho até conseguir vender a loja, depois disso teríamos mais opções.

Uma das minhas preocupações era o velho Luiz.

Disse pra minha mãe não atender se ele chamasse, mas ela me disse que depois daquele dia ele não incomodou mais.

A melhor coisa foi ter me imposto contra aquele velho, pois até quando ele me vê na rua parou de fazer gracinha.

Sei que ele fala as besteiras dele sobre mim e minha mãe para os vizinhos, eu percebo os olhares.

Eu não me importo, nenhum deles se importa verdadeiramente, só querem saber sobre a vida dos outros, pra ter o que fofocar.

E o velho Luiz. é assim, ele gosta de espalhar as historias dele pela vizinhança.

Percebo os olhares das vizinhas quando passo, aquele clima desconfortável que elas fazem quando a gente passa pela rua. Parando a conversa e dando toques uma para as outras, como se não estivéssemos percebido.

Elas nos olham de canto de olho, como se soubessem algo sobre nossas vidas, que nem mesmo nós sabemos. É irritante.

Mas pelo menos, tirei do velho Luiz aquele comportamento dele, de me desrespeitar ao menos na minha frente.


As coisas não estavam fáceis e nesse momento vivíamos nos limite financeiro.

O dinheiro só cobria a alimentação e as contas básicas.

Eu e minha mãe fazíamos o possível para reduzir as despesas.

mas tínhamos a esperança de a qualquer momento o negocio ia dar certo, e a advogada ia nos dar a noticia autorizando a venda da loja.

Mas como diz o ditado, nada está tão ruim, que não possa piorar.


Era dia primeiro de agosto, eu iria só entrar a tarde no trabalho nesse dia.

Então enquanto minha mãe preparava o café da manhã, eu estava com as contas na mesa, e juntos estávamos conversando sobre quais contas seriam as mais importantes, as quais deveríamos dar prioridade no pagamento.

Sabia que com meu salario não conseguiria arcar com todas as contas de uma só vez.

Então pagaríamos as mais importantes e essenciais, e as outras, pagaríamos depois que conseguíssemos vender a loja.

Enquanto estávamos decidindo esse assunto, escutamos o toque da campainha.

Eu e minha mãe nos olhamos surpresos, pois não estávamos esperando ninguém, devia apenas ser algum vendedor ou coisa desse tipo, minha mãe estava ocupada então eu fui atender.

Quando abri a porta da frente um senhor baixinho, calvo e meio rechonchudo estava no portão.

Ele tinha um sorriso amisto e parecia ser meio asiático com seus olhos levemente puxados.


- bom dia.


- ola bom dia, me chamo senhor Collins venho em nome da WH associados, estou procurando o proprietário, o senhor Antony Alencar Gonçalves está.


Ele tinha algumas folhas de papel em mãos onde lia o nome do meu pai, apertando ainda mais os olhos repuxados.


- não, ele não está no momento.


Disse com a voz falha, mas não vi a necessidade de falar sobre os acontecidos com aquele estranho.


- oh, entendo, e você sabe aonde posso encontrá-lo.


O senhor Collins me olha um pouco confuso, o sol bate levemente nos pequenos óculos redondo do homem, e ele aperta os olhos para olhar em minha direção, é uma aparência até meio cômica.


- não infelizmente não sei.


Digo sentindo o peso dessa resposta.

O homem fica pensativo por alguns instantes.


- o senhor tem algum parentesco com ele.


- sou filho dele.


Digo com orgulho


- então posso deixar isso com você.


O senhor Collins me diz estendendo os papeis em minha direção.

Eu me aproximo do portão para pegar os papeis, quando noto a presença de mais dois homens.

Esses altos e com uma aparência ameaçadora, usando ternos pretos e óculos escuro.

Eles estão de pé ao lado do carro preto que está estacionado na frente da minha casa.

Parecem seguranças, pela postura que estão.

Eu pego os papeis e sinto meu corpo gelar assim que leio as primeiras palavras que estão em destaque no documento.

( ordem de despejo )

logo depois sinto uma leve tontura e olho totalmente confuso para o homenzinho a minha frente.


- o que é isso.


Pergunto de forma imbecil.

Senhor Collins ajeita os óculos de forma desconfortável, percebendo minha reação.


- tem certeza que não sabe onde posso encontrar o senhor Alencar, tenho certeza que ele pode explicar com mais clareza.


Eu fico com uma cara de tonto sem resposta.

Nesse momento minha mãe aparece na porta, preocupada com minha demora.

Ela se junta ao meu lado, e de imediato lé o papel que estou segurando.


- o que é isso, despejo, o que tá acontecendo.


Eu ainda estou paralisado e meio tonto, tentando entender.


- acho que o senhor está no lugar errado.


Minha mãe diz também sem entender o que está acontecendo.


- essa não é a casa do senhor Antony Alencar.


O homem diz de forma confusa, mais como um modo de confirmação.


- sim, mas o que isso tem a ver.


- senhora acho que vai ser mais viável o próprio senhor Alencar explicar a situação.


- nos não sabemos onde ele está.


Eu digo de forma distante, recuperando aos pouco meus sentido.


- e não sabem como encontrá-lo, ou a que horas ele volta.


Eu faço um gesto negativo com a cabeça.


- não, ele desapareceu e não temos noticias desde então.


O senhor Collins faz um gesto de pesar, mas não parece surpreso com minha resposta.


- bom, o senhor Alencar vendeu essa propriedade para nossa organização, e o prazo para desocupação é no dia de hoje.

Então se olharem os documentos, verão que temos tudo pronto para a aquisição do imóvel.


Cada palavra dele nos atingiu como um disparo de calibre dose.

Minha mãe está agitada e folheia os papeis incrédula.


- não isso é impossível, essa casa e nossa, eu comprei com meu dinheiro.


Senhor Collins faz um gesto de pesar, e parece sem jeito.


- bem senhora, o registro da propriedade estava em nome legal do senhor Antony Alencar.

A senhora vai ver pelos documentos que tudo está dentro da lei.


Eu olho os papeis sem entender uma palavra que leio, minha mente está embaralhada.

Minha mãe olha os papeis, e sinto sua respiração agitada.


- não, mas eu que paguei por essa casa, ela é minha e do meu filho.


- senhora sou apenas o executor, peço que procure seu advogado, e verá que tudo está dentro da lei.

A nossa associação adquiriu legalmente esse imóvel, diretamente com o responsável legal.


Minha mãe coloca uma mão na testa, visivelmente em desespero, sem saber o que dizer.


- e quando foi feita essa venda.


Eu pergunto meio que no automático.

O homem procura apressado em seus papeis.


- foi no dia trinta de abril.


Ele me entrega outro papel, com a assinatura visível do meu pai.

três messes antes da viagem, esse pensamento afunda minha mente no abismo.

Minha mãe fica ofegante e se move de um lado para o outro com a mão na testa, parecendo não acreditar.

Eu tenho que reagir e envolvo ela pelo ombro com um dos braços, trazendo ela para meu lado, tentando fazer ela se acalmar.

O senhor Collins nos olha com desconforto mas de forma firme.


- e o que faremos agora. Nós não podemos sair assim. Moço foi eu que paguei por essa casa, isso não tá certo.


Sinto o corpo da minha mãe tremendo, ou é o meu, ou ambos, não sei ao certo.

Ela está se esforçando para conter o choro, mas sua voz já demonstra o desespero.

O senhor Collins ajeita os óculos usando o dedo indicado entre os olhos, mas continua com uma expressão fria.


- escutá sei que tudo pode ser esclarecido pelo senhor Alencar, vocês tem certeza que não sabem como encontrá-lo.


O senhor Collins nos encara com o rosto frio, de forma seria, como se estivesse nos lendo.


- não moço, meu marido sumiu em uma viagem, a vários dias, e até agora a gente não sabe de nada.


Minha mãe diz indignada, já com a voz embargada.

Eu aperto o ombro dela no meu corpo, para sustentá-la.


- é verdade senhor, não temos a mínima ideia do que está acontecendo.


Digo envergonhado.

O senhor Collins suspira, e solta o ar dos pulmões.

Ele ajeita mais uma vez os óculos, e procura algo no bolso de seu terno.

Ele retira um pequeno cartão preto, e uma caneta branca.

Sem dizer nada, ele usa a pasta que carrega como apoio para escrever algo no pequeno cartão.

Depois estende o cartão na minha direção.


- olha como eu disse, eu só executo as ordens. Peço que vocês falem diretamente com o chefe.

Vá para esse lugar, e entregue esse cartão na recepção. Vá o quanto antes falar com ele. Pois o limite para a execução da desapropriação é hoje, e apenas o chefe pode resolver isso.


Eu pego o cartão da mão do senhor Collins e assim que meu cérebro associa o que estou vendo, sinto um frio congelante passando pelo meu corpo.

O cartão e todo preto minimalista tem apenas um WH pequeno na cor branca em letra executiva no centro.

Mas o que me chama a atenção, e um pequeno simbolo, no canto superior direito do cartão.

É o desenho de uma pequena mão branca, com um ponto preto no meio.

Eu reconheço imediatamente aquele simbolo, e o que ele significa.

WH são as iniciais de White Hand e aquele simbolo não deixa duvida, é a mão branca.

Eu não tinha associado o WH com a mão branca até ver aquele simbolo.

Mas a WH era muito conhecida em todos os lugares.

Eles estavam envolvido em tudo, politica, policia, saúde, tudo.

Era uma organização bilionária muito poderosa e respeitada.

Eles ditavam todas as regras da nossa sociedade, e estavam envolvidos em tudo, mas também obtinham muitos projetos de caridade e filantropia.

Mas tinha outro lado, embora a WH associados estivesse estampado em todos os lugares, para promover a WH como uma empresa.

O outro lado era comentado as escondidas.

Mesmo que eles não fizessem questão de esconder o que tinha por trás da HW.

Ninguém ousava fazer ligação direto desse outro lado da HW associados.

O outro lado era a mão branca. Era assim que era chamada comumente.

A mão branca atuava em tudo do sub mundo, ela controlava quase tudo.

Ou seja, a HW associados, não era uma simples empresa, mas sim uma organização criminosa.

E eles tinham todos os poderosos em seus bolsos.

Eram mafiosos e só a menção de sua ligação com a mão branca, já era o suficiente para impor medo e respeito.

Como toda organização criminosa com esse poder, logico ela tinha muitos admiradores, principalmente por jovens, que sonhavam em ter aquela admiração por fazer parte do grupo.

Na escola em rodinha de conversas, era comum ouvir sobre os feitos dos membros da mão branca.

A molecada falava com admiração, e quando queriam se aparecer, sempre tinha um que falava, que o pai, ou o tio ou o irmão faziam parte da mão branca.

Até dizer que conhecer alguém que fazia parte já era motivo de admiração.

A verdade é que os lideres da mão branca não eram muito conhecidos, os que apareciam em eventos ou na TV, sempre apareciam como representantes da WH.

Ouvi muitos casos sobre eles, e a única coisa que tinha certeza é que, estar envolvido com a mão branca não era boa coisa, mas estar contra eles era muito pior.


Eu congelei por um instante ao segurar aquele cartão, ao olhar novamente para o senhor Collins, involuntariamente meus ombros deram uma leve caída em expressão de submissão.

E acho que ele entendeu que eu sabia, o que significava.

Eu tentei parecer o mais natural possível, para não assustar minha mãe.

Do outro lado do cartão, tinha uma numeração e um endereço. escritos com tinta branca.


- como disse, sugiro que encontrem-se com o chefe o quanto antes.


O senhor Collins diz agora com um olhar fixo em mim, e faz um leve gesto com a cabeça, como se me desse um aviso.

Eu respondo com o mesmo gesto, um pouco mais contundente.

O senhor Collins estende a mão direita espalmada em minha direção e eu me aproximo para apertar a mão dele. Ele fica mais próximo de mim e aperta minha mão com firmeza.


- escuta rapaz, vá imediatamente para esse endereço e resolva com o chefe.

Não demore, pois a próxima vez que eu estiver aqui, significa que não haverá mais conversa.


O senhor Collins diz em tom baixo para que minha mãe não escute, ele me olha nos olhos, e sei que aquilo é um conselho. Sua expressão é sombria e seria.

Eu não consigo esconder o medo em meu olhar, mas faço um sinal positivo com a cabeça confirmando.

Depois ele da um leve sorriso amistoso e aquela aparência cômico que tinha visto de inicio volta em seu rosto.

Ele se despede educadamente e entra no carro, assim que os dois seguranças embarcam o carro sai rapidamente.

Eu estava ainda atordoado, acompanhando o carro partindo.

Quando vejo o Velho Luiz. como um rato brechando com os olhos compridos tudo o que acontecia.

Eu não sei o quanto ele ouviu, ou se ouviu alguma coisa.

Mas não me importo, eu ignoro a presença dele, e ele desvia o olhar quando viu que eu notei ele.

Eu não posso perder tempo, e mesmo sentindo minhas pernas tremendo, tenho que ir a esse endereço.

Minha mãe está parada atrás de mim sem entender o que estava acontecendo.

Ela estica a mão e pede o cartão que o senhor Collins me deu.

Eu entrego e ela lé o que foi escrito.


- é lá no centro, eu vou me arrumar e vou la ver o que é isso.


Quando ela diz isso, meu corpo parece entrar em sinal de alerta.

Eu me adianto e pego o cartão da mão dela.


- não mãe eu vou lá pode deixar.


- não filho, então vamos juntos.


Minha mãe não faz noções quem é a mão branca, ela não tem noção de quem são essas pessoas.

Eu não quero que ela tenha o mínimo de envolvimento com eles.

Então é muito importante pra mim que eu vá sozinho.

Eu abraço os ombros dela e direciono ela pra dentro de casa, e bem provável que aquele velho curioso possa estar ouvindo nossa conversa aqui no quintal.

Dentro de casa, nos sentamos no sofá e tentamos entender tudo o que aconteceu.

Eu ainda não posso dizer pra ela o que significa aquele WH, e com quem estamos envolvidos.

Sei que se ela souber quem são, não vai me deixar ir lá sozinho, e pior pode até quer ir na policia ao invés disso.

Preciso primeiro saber se podemos fazer alguma coisa, antes de tomarmos alguma atitude.


- isso deve ser um erro meu filho, não tem como isso estar certo.


- eu sei mãe, por isso é melhor eu ir lá pra saber o que podemos fazer.


- eu vou com você, vamos nos arrumar, o quanto antes resolvermos isso é melhor.


- não mãe eu vou sozinho, e melhor assim.


- por que é melhor assim, eu quero estar lá com você.


Eu não quero demonstrar minha preocupação, mas eu não quero que ela vá de jeito nenhum.


- faz assim mãe, pra gente se adiantar, enquanto eu vou lá nesse endereço pra conversar, e obter mais informação. A senhora pega esses papeis e vai na nossa advogada, tenta saber mais sobre isso com ela.


Vejo o semblante da minha mãe ter uma mudança, como se algo estivesse acendido uma ponta de esperança nela.


- e verdade filho, isso pode ser um golpe, algum espertinho ficou sabendo do que aconteceu com seu pai, e tenha forjado esses papeis. Ainda bem que não assinamos nada. Melhor ainda, depois de falar com a advogada, eu vou direto na policia mostrar isso.


Eu dou um pulo de alerta instintivamente na direção dela. Que faz ela até se assustar.


- não mãe, só fala com a advogada, depois a gente se reúne aqui, e vê o que da pra fazer com a informação que a gente tiver. Mas não envolve a policia ainda, vamos ver o que a gente consegue primeiro.


Eu sabia que a WH não fazia esse tipo de armação.

Se eles estavam envolvidos eles estariam totalmente cobertos pela lei.

Envolver a policia não daria em nada, só poderia piorar as coisas.

Minha mãe ficou um pouco desapontada, mas consentiu. E combinamos só tomar providencias depois.


Eu e minha mãe fomos nos arrumar. Como o escritório da nossa advogada era no caminho para o centro, fomos juntos no mesmo carro.

Quando chegamos no escritório da nossa advogada, minha mãe desembarcou, antes me deu um abraço apertado e disse pra eu voltar logo.

Eu estava tentando meu melhor para parecer calmo, mas quando fiquei sozinho no bando de trás do carro, não consegui esconder minha preocupação.

Minha mãe ainda mantinha o mínimo de otimismo sobre tudo isso.

Mas toda essa situação parecia um buraco que ia ficando cada vez mais fundo.

Eu não sabia o que me esperava, mas eu ainda procurava forças, pra encontrar uma explicação para tudo isso, tentava de todo modo encontrar algo que indicasse que tudo isso fosse apenas um erro, e logo eles iriam descobrir que estavam errados, e tudo ficaria bem.


Quando finalmente chego no endereço que o senhor Collins me indicou.

Estou de frente para um prédio de aproximadamente trinta andares, com uma fachada imponente, que fica no centro de outros dois prédios menores.

O centro da cidade está muito movimentado como sempre, as pessoas passam apressadas de um lado para o outro, cada um no seu mundo, cada um com seus problemas.

Mas estou com aquele sentimento que os meus problemas nesse momento são os maiores que qualquer um ali.

E mesmo tentando pensar positivamente, sinto que estão prestes a piorar.

Quando entro dentro do prédio com o numero marcado, logo no piso o WH marca a entrada do local.

Embora eu esteja nervoso o lugar é bem diferente do que eu estava esperando.

Nada como nos filmes de mafiosos, com homens de ternos extravagantes e fumaça de charutos pairando pelo ar.

Apenas um prédio comercial como muitos outros.

Porem existia muito luxo sim, mas de muito bom gosto.

O piso polido quase refletia minha imagem como um espelho. E a sigla WH em dourado estava cravada em lugares estratégicos para não deixar que eu esqueça o motivo que eu estou ali.

Pessoas passam conversando tranquilamente de um lado para o outro.

Eu não sei o que fazer, então faço apenas o que o senhor Collins me instruiu.

vou até a recepção e uma moça muito bonita e bem alinhada com um uniforme profissional, sorri educadamente quando me aproximo.

Eu estou nervoso e não sei o que dizer, então sem muito jeito apenas mostro o cartão que o senhor Collins me deu.

A moça pega gentilmente o cartão da minha mão, olha com atenção.


- só um instante por favor.


Ela diz suavemente, como se já soubesse o que fazer.

Ela pega o telefone da recepção e assim que é atendida ela diz o numero que foi anotado no cartão.

Ela mantém os grandes olhos verdes em mim, logo depois ela coloca o aparelho no gancho e me diz.


- trigésimo terceiro andar, ele está aguardando.


Eu estou confuso, foi rápido, e não sei pra onde ir.

A recepcionista aponta para os elevadores, e eu agradeço com um gesto de cabeça, ela me deseja um bom dia, e eu sigo para os elevadores em passos curtos.

Existe quarto elevadores, eu me posiciono ao lado direito junto com os demais que esperam para ir para os andares de cima.

Assim que o elevador chega algumas pessoas entram comigo, elas conversam distraídas e despreocupadas, eu sou o único tenso ali, perdido como um peixe fora da água.

Mas eles nem parecem notar minha presença.

Cada um aperta o numero do seu andar de destino, eu copio a ação e aperto o numero trinta e três.

Nesse momento sinto como se tivesse feito algo errado, pois todos os que estão dentro do elevador ficam em silencio e sem disfarçar me olham com espanto.

Me sinto ainda mais desconfortável, e eles logo tentam disfarçar o espanto e desviam o olhar, mas agora eles ficam em silencio esperando chegar no andar que solicitaram.

Percebo alguns dando uma ultima olhada curiosa na minha direção, quando estão desembarcando nos seus andares.

Quanto mais o elevador sobe, mais pessoas vão descendo, até que sobra apenas eu.

O trigésimo terceiro andar se aproxima, agora estou sozinho.

Quando as portas do elevador se abrem, o clima naquele andar é totalmente diferente do resto do prédio.

Todos os outros andares por onde passei, o clima era tipico de escritórios, pessoas passando, e o barulho dos teclados e conversas casuais.

No trinta e três não, aqui é muito silencioso, saindo do elevador estou de frente para uma porta que parece muito pesada, apenas um quadrado retangular preto que parece de vidro do tamanho da minha cabeça.

Exitem duas câmeras uma de cada lado, eu não sei o que fazer, então fico parado.

Mas logo escuto um estalo, e a porta pesada se abre.

Um homem muito alto usando um terno preto, assim como os dois que acompanhavam o senhor Collins está a minha frente no fim de um curto corredor.

Ele me faz um sinal para que eu me aproxime, eu obedeço.

Quando chego próximo a ele faz um sinal pra eu parar, e eu paro.

Ele me observa depois aperta um botão vermelho ao lado da porta, alguns segundo depois o botão fica verde, e mais um estalo e a porta se abre.

Sem dizer nada o segurança faz um sinal para que eu entre.

Eu obedeço e assim que passo pela porta ela se fecha atrás de mim.

Estou parado na porta, em uma sala muito ampla e luxuosa. Esse lugar sim me lembra os filmes de mafiosos.

Paredes forradas com madeira tratada, lembram muito aqueles carros de alto luxo da Ross Royce ou Bentley.

Quadros de pintores famosos, um tapete gigante de alta qualidade, e algumas esculturas.

O mobiliário do lugar e algo que eu nem consigo imaginar o valor.

O lugar é muito amplo e bem a frente da sala, uma grande mesa de escritório talhada e maciça.

A mesa parece extremamente pesada, o lugar está um pouco mais escuro que o resto do prédio.

Minha vista vai se ajustando, é quando percebo uma figura sentada bem postada do outro lado da mesa.


- aproxime-se.


Aquela voz parece mais um trovão, que faz meu corpo obedecer imediatamente.

Quando me aproximo, existe um homem enorme sentado em um grande apoltrona de couro negro do outro lado da mesa.

O sujeito é monstruoso, ele está sentado e mesmo assim está quase da minha altura.

Seus ombros são muito largos, quase do tamanho daquela mesa gigante.

Ele veste um terno na medida, mas é possível ver o volume de seus músculos, comprimidos pelo tecido do terno.

O homem não me olha, ele está concentrado folheando alguns papeis em sua mesa.

Eu consigo ver sua face, é um homem negro, careca, com a pele lisa. E uma barba rala mas bem feita.

Eu fico parado sem reação, esperando o comando dele.


- então você é o filho do tal Tony.


Ele diz sem tirar os olhos dos papeis.


- sim senhor.


Respondo com a voz falha.


- então suponho que esteja com meu dinheiro


eu estou em choque, não era isso que eu esperava ouvir.


- não senhor, na verdade acho que ouve um equívoco.


Eu tento parecer o mais educado possível, mas logo depois do que eu disse, o homem levanta as sobrancelhas, e agora ele está de olho em mim.

Sinto um frio na espinha quando reconheço quem está na minha frente.

Não, eu nunca o tinha visto antes, mas já ouvi muitas historias sobre ele.

Sempre achei que eram mais invenções do que realidade, mas agora de frente com ele, posso dizer que as historias parecem muito verdadeiras.

O chamam de Oggi o matador de leões.

A historia mais conhecida sobre Oggi é que ele veio da africa, e ainda jovem lutou sozinho contra um leão alfa.

Ele venceu e matou a fera com suas próprias mãos, o ferimento causado pela fera e o colar feito de dente e ossos do leão que ele carrega, é o simbolo de sua façanha.

Eu olho timidamente para ele, e vejo seu olho esquerdo esbranquiçado, com uma cicatriz profunda, que vai quase do meio da testa, até próximo a boca.

E quase uma linha perfeita avermelhada. Que deixa aquele monstro com uma aparência ainda mais assustadora.

Ele me olha profundamente, e quase sinto minha alma sendo sugada, eu desvio olhar e abaixo a cabeça intimidado.


- venha aqui rapaz, sente-se.


Sua voz é praticamente um comando, e eu obedeço.

Quanto mais eu me aproximo, maior ele fica. Quando me sento na poltrona em sua frente, do outro lado da mesa, Oggi parece uma montanha na minha frente.


- se não trouxe o meu dinheiro, o que está fazendo aqui rapaz.


Ele endireita o corpo se recostando na poltrona, e agora vejo o famoso colar com ossos e dentes de leão. E cada vez mais me sinto intimidado.

Explico que o senhor Collins me deu a instrução para vir conversar com ele.

E falo sobre a notificação de despejo.


- e onde está o equívoco que você disse.


Ele pergunta me encarando.


- senhor, até esse momento, eu e minha mãe não tínhamos a menor noção sobre isso.

Não sei o que aconteceu, mas meu pai nunca nos falou sobre nada disso.


- é você tem alguma noção aonde possa estar seu pai.


Ele me pergunta olhando no fundo dos meus olhos, como se estivesse olhando minha alma.


- não senhor, a ultima vez que falamos com ele foi pelo celular, pouco antes de embarcar em seu voo.


Eu encolho meus ombros, me sentindo meio estupido e ignorante.

Oggi organiza os papeis na sua mesa e os coloca de lado.


- conte-me tudo rapaz, diga-me tudo que sabe sobre seu pai, até o momento da partida dele.


Ele se inclina pra frente nos cotovelos sob mesa e junta as mãos na minha direção e se prepara para ouvir meus relatos.

Eu não sei o que ele quer ouvir, mas não tenho o que esconder, então conto tudo o que sei, até o momento que me trouxe aqui.

Quando termino de contar o que sei, ele se afasta se recostando novamente na poltrona.

Ele abre espaço e num leve impulso fica de pé.

A sala parece escurecer ainda mais com o volume do corpo daquele homem.

O cara é gigantesco, facilmente tem mais de dois metros de altura.

Mesmo a vestimenta do terno, não escondem as marcações de seus músculos.

Ele parece um amontoado maciço de rochas.

Ele da uma leve alongada no corpo, e mesmo com a aparência monstruosa seus movimentos são elegantes, ele coloca uma das mãos gigantescas no bolso da calça, e começa a andar calmamente.

Ele olha para o vazio, como se estivesse pensando.


- diga me rapaz, sabe quem eu sou, já ouviu algo sobre mim por ai.


Ele pergunta de forma curiosa.

Eu não sei o que responder, tenho receio de parecer um fofoqueiro.

Mas resolvo falar a verdade, e digo que sim. Ele me olha com interesse.

- e o que ouviu.


Mais uma vez ele parece curioso, tenho medo de dizer algo errado, e tocar em assuntos delicados, mas prefiro ser sincero.


- ouvi que o senhor lutou com um leão, e o venceu sozinho, e tanto o colar quanto a cicatriz são lembranças dessa vitoria.


Ele me olha com uma expressão seria, e me faz encolher achando que disse algo que não devia.

Mas logo da um leve sorriso animado.


- eu adoro essas historias, gosto de verdade, fico feliz só de imaginar isso.


Ele pega com o polegar e o indicador o dente de leão em seu colar, e da um beijo rápido.


- você pode imaginar algo assim, essas historias são maravilhosas. O mundo seria um lugar muito melhor, se vivêssemos em nossa imaginação, tudo seria muito melhor.


Ele diz de forma divertida, com um sorriso sonhador. Mas logo sua expressão muda, e ele fica com um ar mais sombrio.


- mas a vida real não é assim, não é mesmo. Essa vida é injusta e cruel.

Quem me dera se as marcas de minha vida viessem de batalhas gloriosas.

Deixe me te contar a verdade rapaz.


Oggi fica a poucos metros de mim, com a postura ereta, como se fosse um professor na frente da classe.

Ele me olha como se quisesse me mostrar o que tem em sua mente, como se quisesse me levar para dentro da historia que está contando.

Eu fico em silencio, mais por medo do que qualquer outra coisa, eu olho nos olhos dele, para demonstrar respeito.


- é verdade como dizem, eu nasci na africa, não da pra negar.


Ele da um sorriso divertido, abrindo os braços, como se mostrasse a sua cor de pele.


- sou nascido em Burundi, se não me engano é o pais mais pobre do mundo.

Como pode imaginar minha infância não foi fácil, não por causas de leões e os perigos da savana.

Mas por causa do pior de todos os animais, o homem.

E o pior desses animais, é o que menos você espera, aquele que está bem próximo de você.

Como toda família miserável, o maior passa tempo é fazer filho.

E meu pai fez muitos filhos, eu fui o nono filho.

Muitos já haviam morrido antes de mim, e muitos nasceram depois. Pessoas miseráveis, gostam de espalhar a miséria.

Não tínhamos nada, apenas um monte de bocas famintas.

Minha mãe coitada, era uma vitima incapaz, e fazia o que podia para salvar os filhos que conseguisse.

Eu já tinha perdido muito dos meus irmão, e o futuro para mim e o resto de meus irmão, não parecia ser diferente.

Porem um dia meu pai disse que iriamos viajar, que ele comprou uma terra fértil em outro lugar, e viveríamos por lá.

Toda a família foi junta, e estávamos cheios de esperança. Um lugar só nosso onde poderíamos plantar e ter nossa própria criação.

Era essa historia que meu pai contava, nos enchendo de sonhos.

Porem essa não era a verdade.

Meu pai tinha nos vendido como escravos, e vendeu a minha mãe como puta.

Eu era o mais velho dos filhos que tinha sobrado, eu estava com quinze anos na época.

Eu me neguei a ir, tentei lutar e proteger minha mãe e meus irmãos.

Meu pai me bateu, e usou o chicote com ponta de ferro para me incapacitar.

Foi nesse dia que ganhei essa cicatriz.

Ele me entregou desacordado para meus novos donos.

Quando acordei não sabia onde estava minha mãe, e a maioria dos meus irmãos.

Alguns anos se passaram, e vi os poucos irmão que ainda estavam ao meu lado, morrendo de exaustão e sendo descartados como lixo.

Eu me neguei a morrer, a única coisa que eu tinha na cabeça, era sobreviver, pra um dia ter a minha vingança.

Um dia consegui fugir daquele lugar, passei por muita dificuldade, mas por sorte tempos depois conheci um homem que mudaria completamente minha vida.

Esse homem me deu uma estrutura, e o mais importante, conhecimento.

Com apoio desse homem eu voltei até os homens que me escravizaram, e os fiz sofrer.

Tentei achar minha mãe e os meus outros irmão, mas infelizmente já era tarde demais.

Eu não podia mais salvar aqueles que eu amava, mas ainda podia vingá-los.


Oggi faz uma pausa como se estivesse revivendo todos aqueles momentos.

Eu sinto meus pelos arrepiados, minha boca está seca. Eu sinto realmente como se eu estivesse presenciando tudo o que aconteceu, por causa da emoção que sinto nas palavras desse homem.

Por fim ele parece despertar do transe e lembra que está em seu escritório.

Ele me olha um pouco sem jeito, e vem em minha direção.


- sabe o que quero dizer com isso rapaz, quero te dizer que conhecimento é tudo.

Assim como eu, você foi enganado pela pessoa que mais confiava.

A pessoa que deveria te proteger, na verdade era a maior inimiga.


Oggi pega os papeis que folheava antes, e os coloca em minhas mãos.

Eu fico sem entender, segurando os papeis.


- seu pai, assim como o meu era um grande filho da puta.

Ele não só enganou a mim, e minha organização, mas também enganou você é sua mãe.


Minhas mãos tremiam, e eu olha para os papeis tentando assimilar o que eu estava ouvindo.


- há uns meses, seu pai me procurou com algumas propostas.

Ele disse que tinha algumas propriedades que queria vender, e pediu valores razoáveis.

Nossa equipe analisou a oferta, e adquirimos os imoveis do seu pai por uma quantia generosa.

Os documentos estavam legais, e tudo foi feito dentro da lei.

Porem pouco tempo depois, descobrimos que ele com a ajuda de outro falsário, conseguiu adulterar os documentos de uma das propriedades, a qual já não pertencia mais a ele.

Ele nos enganou e fugiu.

Meus investigadores estavam de olho nele há um tempo, até a analise do negocio ser concluída.

Mas perdemos seu rastro quando ele foi para o japão.


São muitas informações para assimilar, mas eu corrijo o senhor Oggi, pensando que ele tinha cometido um equívoco.


- mas meu pai viajou pra china senhor.


- não rapaz, essa foi só mais uma das mentiras do seu pai.

Ele mostrou pra você é sua mãe, informações falsas. Eu obtive essas informações com a policia na ocorrência que vocês abriram.

Não existia nenhum negocio com os chineses, ele nunca foi nem pretendia ir pra china.


Eu estou paralisado, um buraco negro parece se abris abaixo dos meus pés.

Sinto um desconforto percorrendo meu corpo, e uma dor em minhas costas.


- nesses papeis você vai descobrir toda a verdade sobre sue pai. Ao menos tudo o que sabemos sobre ele.


Eu folheei rapidamente os papeis, e vi que continha fotos também.

As imagens fizeram meu coração disparar.

Obtinha fotos do meu pai com outra mulher, e eu sabia quem era aquela mulher, era a Lilian a secretaria da loja.

Toda aquela informação estava fritando meu cérebro, foi quando vejo a mão gigante de Oggi estendida na minha frente.

Ele segurava um copo com água e me oferecia. Eu peguei e bebi rapidamente como se meu corpo estivesse completamente seco.

Oggi logo depois encheu novamente meu copo usando uma garrafa trabalhada em cristal, e me entregou novamente o copo cheio.

Dessa vez eu bebi com mais calma tentando controlar minha respiração.

Oggi me olhava com empatia, sabia pelo que eu estava passando.


- se acalme rapaz, agora é o momento de ser racional, não permita ser dominado pelo desespero.


As palavras dele faziam sentido, mas era bem mais fácil falar do que fazer.

Oggi sentou na poltrona ao meu lado e apoiou os cotovelos nos joelhos, ficando bem próximo de mim.


- seu pai não valia nada essa é a verdade, um mulherengo e esbanjador.

Nesses papeis você vai saber, como ele veio enganado sua mãe por anos, não só por sua infidelidade com o casamento. Mas roubando tudo o que pertencia a ela.


Oggi passa alguns dos papeis, e aponta para uma linha que descrevia um negocio formalizado a anos atrás.

A venda do sitio dos meus avós maternos, o valor que ele diz ter recebido pela venda, era muito inferior ao valor que ele recebeu.


- seu pai escondeu esse dinheiro de vocês, e usou para viver uma vida de luxos, escondido de vocês.

Anos atrás, ele conheceu essa moça chamada Lilian, os dois começaram a se relacionar e ela ficou com ele se passando por secretaria.

Seu pai já não tinha a mínima responsabilidade com seus gastos, e agora junto com essa moça, fazendo os gostos dela, e bancando todas as extravagancias dela. Logo ele ficou sem nada.

Foi quando ele decidiu procurar a nossa associação, e fazer negocio conosco.


Oggi falava calmamente, para ter certeza que eu estava acompanhando tudo.

Eu ouvia atônito mas prestava atenção.


- ele tinha três imoveis que dizia estar em seu nome, e queria nos vender.

A loja da concessionaria, Um apartamento de alto padrão na zona nobre da cidade, e a casa onde ele morava com você e sua mãe.

Ele nos apresentou toda documentação e na primeira analise parecia tudo em ordem.

Porem depois que o negocio tinha sido concluído, alguns podres começaram a aparecer.

A concessionaria já havia falido a muito tempo, e não pertencia mais a ele.

E o apartamento, ele e a amante já haviam vendido.

Com a ajuda de um falsificador, e alguns contatos nos cartórios, seu pai conseguiu com documentos antigos, mudar de forma ilegal os nomes nas escrituras, e usou esses documentos para nos enganar.

Minha equipe conseguiu chegar aos que ajudaram seu pai a falsificar os documentos.

Logico eles não sabiam que seu pai planejava enganar nossa associação.

Mas agora não iram enganar mais ninguém.

O problema é que seu pai conseguiu fugir antes que conseguíssemos pegá-lo.

E a ultima noticia que temos dele é que ele embarcou em um voo para o japão.


Eu escuto com atenção, e observo os papeis que Oggi me mostra comprovando tudo o que diz.

A ultima pagina é uma foto da câmera de segurança do aeroporto.

Nela meu pai veste um sobre tudo comprido, e um boné, tentando esconder o rosto.

Ele está abraçado com uma mulher, que também usa boné, e um sobre tudo um pouco mais curto, mostrando as penas.

Não preciso olhar por muito tempo pra reconhecer os dois, é meu pai e a Lilian.


- você já ouviu falar sobre Yonige-ya.


Oggi me pergunta, esperando uma resposta. Eu faço um sinal negativo com a cabeça dizendo que não.


- Yonige-ya é um tipo de empresa que ajuda pessoas a desaparecerem do mapa. Ou como eles chamam os Jôhatsu.

São pessoas que querem começar uma nova vida, e apagar a identidade passada.

Achamos que seu pai foi até o japão para essa finalidade.

Temos contatos no japão, inclusive com algumas dessas empresas, mas não conseguimos achar a responsável no caso do seu pai.

E como essas empresas são extremamente sigilosas, nossa pistas terminaram aqui.


Eu estava incrédulo, eu não acreditava no que eu estava ouvindo.

Eu olhava para a foto do meu pai, e cada vez mais ele parecia um estranho pra mim.

Oggi ficou durante alguns minutos em silencio, esperando eu absorver todas aquelas informações.

Mas logo me despertou do meu pesadelo.


- minha equipe conseguiu resolver os assuntos das propriedades que seu pai nos enganou.

E eu perdi muito dinheiro com isso.

Infelizmente pra você e sua mãe, a casa aonde vocês moram, é a única que estava legalizada em nome do seu pai, e paguei um bom dinheiro por ela. Por isso ela agora me pertence.


Ele fala de forma pesarosa, como se estivesse com pena da gente.


- senhor, a gente não tinha ideia disso, e você mesmo sabe, que a casa foi paga por minha mãe.

Isso não é justo.


Eu imploro desesperado, pois não tenho mais nada.

Oggi respira fundo, e se recosta na poltrona se afastando de mim.

Um simples movimento dele faz eu me calar imediatamente, mesmo que ele não tenha me oferecido perigo algum, eu prefiro não irritá-lo.

Ele me observa mais uma vez, sugando minha alma.


- sabe rapaz, eu estou com quarenta e cinco anos, vinte e cinco desses anos, dedicados a essa associação. E nunca em todos esses anos eu decepcionei o homem que me salvou.

Eu nunca tinha falhado, e nunca tinha deixado que ninguém diminuísse a reputação da associação.

Mas graças ao seu pai eu falhei duas vezes, ele não só nos roubou, como ridicularizou a reputação que tenho orgulho em carregar. E isso é o que me doí mais.


- eu sinto muito senhor, mas não temos culpa.


Oggi faz um sinal suave levantando um dedo para me interromper, e eu me calo.


- porem eu não sou um monstro, diferente do que dizem, e diferente da aparência que tenho sei o que é injustiça.

E assim como eu a associação e piedosa, não punimos inocentes.


Eu já sentia uma ponta de alivio, mas Oggi continuou.


- porem graças ao seu pai, fomos muito prejudicados, e não posso perdoar uma divida desse tamanho. Isso prejudicaria ainda mais nossa reputação.

Mas não vou expulsar você e sua mãe assim, sem lhe dar uma escolha, ou a oportunidade.

Podemos fazer um acordo, se você estiver interessado.


- qual acordo.


Pergunto com um pouco de esperança.


- eu venderei a casa pra vocês novamente, e parcelarei a divida.

Vou permitir que vocês paguem um valor mensal razoável, assim não precisaram ser despejados.


Eu sinto um leve alivio.


- e como faremos isso senhor.


- veja, eu paguei quinhentos mil pela casa para seu pai, para que você e sua mãe fiquem com a casa, eu vou parcelar essa divida, em vinte mil mensais, e assim que vocês terminarem de pagar todas as parcelas, a casa é de vocês.


Ele fala como se fosse simples, como se os valores fossem insignificantes.

Vinte mil por mês, eu não conseguia ganhar dez por cento disso no mês, e ainda tem as outras contas para pagar.

Eu tento manter a calma, mas sinto minhas mãos suando.


- escuta rapaz, é um valor justo, não estou querendo tirar vantagem de vocês.

Por isso estou cobrando apenas o valor que seu pai me roubou por essa casa.

As dividas das outras propriedades, nem estou considerando.


Eu esfrego minhas mãos pensativo.


- eu entendo senhor, mas é que as coisas estão um pouco difíceis agora.


Oggi me olha e volta a se aproximar de mim.


- Seu nome é Eduardo, não é mesmo.


Eu faço um sinal positivo confirmando, surpreso por ele saber meu nome.


- meu povo acredita muito nos significados dos nomes, sabe o que seu nome significa rapaz.


Eu faço um sinal negativo um pouco confuso.


- parece besteira, mas é verdade escute. Eduardo vem de Eadweard, o Ead significa riqueza, e o Weard significa protetor. Por tanto você não só esta destinado a riqueza, mas também destinado a proteger a ser um protetor. Sabe o que isso significa.


Eu estava um pouco confuso, mas logo minha mãe me veio a cabeça.

Esse era meu destino, essa era minha função, proteger a minha mãe.

E foi nisso que me concentrei nessa explicação do senhor Oggi.


- você tem a capacidade rapaz, não só para conquistar, como para proteger, é seu destino, e seu dever.


O senhor Oggi falava com uma emoção, que me contagiava.


- o meu nome, o nome que meu pai me deu é Ogbonna, significa imagem de seu pai.


Oggi diz isso com pesar, e fica pensativo.


- mas eu me neguei a ser a imagem do meu pai, eu cortei todos esses laços, e graças ao meu salvador, hoje eu sou apenas Oggi.

Me mostre quem é você rapaz, mostre me que não tem nada do seu pai em você.

Cumpra sua obrigação, como homem de verdade, cumpra o seu destino.

Conquiste os tesouros desse mundo, e proteja aqueles que você ama.


Não sei por que, mas mesmo em meio a toda aquela desgraça que eu estava envolvido.

As palavras de Oggi despertaram uma motivação dentro de mim.

Não importa o que acontecesse, eu iria proteger a minha mãe a todo custo.

Sem perceber, meu olhos estavam cheios de lagrimas.

Oggi estendeu a mão que mais parecia a pata de um urso, e apertou meu ombro.


- façamos desse jeito rapaz, vá para sua casa, converse com sua mãe, e faça o seu melhor.

Se no dia primeiro do mês que vem, você não aparecer aqui com o dinheiro, vou entender que não deu pra vocês, e minha equipe vai ocupar a casa.

Mas se você conseguir, eu vou deixar um contrato pronto, pra que você e sua mãe se sintam seguros com nosso acordo. Combinado.


Oggi me olha com honestidade, e eu aceno positivamente.

Ele fica de pé e estende a mão em minha direção, eu fico de pé para demonstrar respeito e aperto a mão dele selando o acordo.


- é isso ai rapaz, é assim que se faz, mostre-me que nem todo fruto, cai perto da arvore.

E fique tranquilo, vou imediatamente pedir uma suspensão na ordem de despejo, você e sua mãe, tem esse mês para se ajeitarem.

Mas não esqueça desse aperto de mão, palavra de homem é palavra de homem.

Se no mês que vem o acordo não for mantido, espero que não me traga problema, Veja.


Oggi leva a mão a boca e puxa a parte inferior do beiço, revelando a carne da parte interna.

Eu consigo ver nitidamente o que tem ali. Uma tatuagem de uma pequena mão desenhada com tinta preta, e dentro da mão o numero 103.

eu tinha ouvido falar dessa marca nos membros da mão branca, mas nunca tinha visto uma.

Acho que poucas pessoas já viram essa marca.

A marca só era dada aos membros mais importantes.

O numero significava o grau de hierarquia na associação, quanto menor o numero, mais alta era a posição.

Oggi era o numero cento e três, ele era o chefe da cidade inteira, e mesmo com tamanho poder, ainda existiam cento e dois, mais poderosos que ele.


- sabe o que isso significa, não é rapaz.


Oggi diz em forma de aviso.


- sim senhor.


Respondo com cautela.


- então sabe que irritar a associação, não é um bom negocio.

Eu assenti demonstrando meu conhecimento.

Embora a mão branca fosse muito poderosa, ela não gostava de mídia negativa.

Então expor seus esquemas, ou tentar prejudicar a marca WH nunca terminava bem.

Um caso antigo, falava sobre um empresario famoso, que se sentiu lesado em uma negociação com a marca.

Ele achou que pagando a mídia para expor sua historia, e indo nas redes sociais falar sua versão. Iria adiantar alguma coisa.

Mas o que aconteceu foi que esse homem nunca mais foi visto.

Então eu sabia bem que só tinha duas opções, pagar a divida, ou sair da casa. E era isso.

Já não tinha pra onde correr, ao menos tinha trinta dias para nos prepararmos.


- então está certo rapaz, te vejo no dia primeiro do mês que vem.

Traga o dinheiro em especie, não vou anotar nosso acordo nos registros, já foi vergonhoso demais ter sido engando, quero poupar meu histórico, então isso só fica entre nós dois.


Eu confirmo com um gesto consentindo.

- E escute, se souber de algo sobre o seu pai, me procure, posso deixar as coisas ainda mais fáceis pra você. E tudo isso pode se resolver rapidamente.


Eu fiquei meio confuso, mas entendi o que ele quis dizer. Então só fiz um gesto positivo confirmando.


- senhor, eu posso levar esses papeis.


- claro, fique com eles.


Eu precisava mostrar isso pra minha mãe, sei que ela ama muito meu pai, e talvez precise de provas pra ela aceitar a verdade sobre ele.


Antes de sair da sala eu paro na porta e faço uma pergunta para Oggi.


- E o senhor, conseguiu encontrar o seu pai.


Eu pergunto sem pensar direito, pois estava mais pensando no meu mesmo.

Oggi me lançou um leve sorriso malicioso, e foi em direção a prateleira em uma grande estante atrás de sua poltrona.

Ele pegou um cranio humano com uma pequena faca enferrujada cravada.


- com certeza, agora ele não sai mais do meu lado. Serve pra me lembrar que o inimigo pode estar em todos os lugares.


Oggi segura aquele cranio com orgulho. E olha com desprezo para as orbitas vazias.


- agora vá rapaz, e não se esqueça do que eu falei.


Estou quase saindo pela porta quando ele me chama novamente.


- e rapaz, escute, se as coisas estiverem realmente ruins, posso arrumar alguns serviços pra você.

Mas você tem que estar disposto.


Sei o que ele está me propondo, mas não quero pensar sobre isso agora

Eu não digo mais nada, e saio da sala.

Oggi me disse tanta coisa que fica difícil pensar na que ele quis dizer, então teria que me lembrar de tudo.


O caminho até a saída do edifício foi pesarosa.

Ignorei completamente os olhares curiosos na minha direção. Estava tentando organizar meus pensamentos, e assimilar tudo o que ouvi lá em cima, Eu sai andando sem rumo.

Já estava andando a um bom tempo sem destino, só tentando pensar.

Foi quando sinto meu celular vibrando.

É uma mensagem da minha mãe, ela pergunta se estou bem, e se já estou indo pra casa.

Eu respondo que sim, e que já estou voltando.

Ela diz que já está em casa, e pede pra eu voltar logo, que está me esperando.

Eu digo que já já estou em casa.

Essa conversa não vai ser fácil, sei que com tudo que Oggi me revelou, ela já deve ter tido algumas más noticias da nossa advogada.

Mas não sei se ela está preparada pra tudo o que eu tenho pra contar.

Eu pensei em encobrir algumas coisas pra não machucar muito ela.

Mas isso não vai ser justo, eu amo minha mãe, e vou estar ao lado dela até o fim, e sustentá-la sempre que ela precisa, mas não vou mentir, nem esconder a verdade.

Consigo pegar um táxi, e vou direto pra casa.