Sinto saudade da infância...
Saudade das tardes compridas,
quando o tempo andava devagar
e a felicidade morava nas coisas simples.
Saudade das brincadeiras na rua,
dos pés sujos de poeira,
dos joelhos ralados,
das gargalhadas que ecoavam sem preocupação.
Saudade das calçadas cheias de gente,
das cadeiras na porta de casa,
das histórias contadas sob a luz fraca dos postes,
como se a noite tivesse sido feita
apenas para ouvir e sonhar.
Naquele tempo,
a gente não sabia que estava vivendo
os dias que mais faria falta.
Não sabíamos que um dia
as ruas ficariam vazias,
que os amigos seguiriam caminhos diferentes,
que algumas vozes se calariam para sempre.
Hoje passo pelas lembranças
como quem visita uma casa abandonada.
Ainda consigo ouvir os ecos das brincadeiras,
mas já não encontro as crianças.
Ainda lembro das histórias,
mas muitos dos que as contavam
já não estão aqui.
E é triste perceber
que a infância não foi embora de uma vez.
Ela foi partindo aos poucos...
em cada despedida,
em cada mudança,
em cada pessoa que o tempo levou.
Restaram apenas as memórias,
guardadas como fotografias antigas,
amareladas pela saudade.
E às vezes o coração chora baixinho,
não porque o passado foi ruim,
mas porque foi tão bonito
que dói saber
que nunca mais voltará.
A rua continua lá.
A calçada continua lá.
Mas a criança que corria por elas,
essa ficou perdida
em algum lugar do tempo.