Cena — O último perdão
A casa estava completamente tomada pelas chamas. O teto estalava, a fumaça dificultava a respiração e Gabriel mal conseguia enxergar.
No meio dos destroços, ele ouviu um grito.
— Gabriel! Socorro!
Gabriel reconheceu a voz.
Era Rafael, o homem responsável pelo assassinato de seu pai, Leandro.
Por alguns segundos, Gabriel ficou parado. A lembrança do pai veio à sua mente. A dor, a raiva, tudo aquilo que carregava havia tantos anos.
Mas então ele ouviu Rafael tossir.
— Eu não consigo sair...
Gabriel respirou fundo.
— Eu não vou deixar você morrer aqui.
Ele correu até Rafael, puxou uma viga que estava sobre suas pernas e conseguiu libertá-lo. Com muita dificuldade, colocou o braço de Rafael sobre seus ombros e começou a levá-lo para fora.
— Por que você está fazendo isso? — Rafael perguntou, chorando.
— Porque eu não sou você.
Os dois conseguiram chegar até a porta. Gabriel empurrou Rafael para fora, mas, antes que pudesse sair também, parte do teto desabou.
Gabriel conseguiu escapar por pouco.
Rafael, porém, estava gravemente ferido.
No hospital, horas depois, Gabriel recebeu a notícia de que Rafael não resistira.
Antes de morrer, entretanto, Rafael havia deixado um pedido para Gabriel.
Quando Gabriel entrou no quarto, Rafael mal conseguia falar.
— Gabriel...
— Estou aqui.
— Eu... matei seu pai.
Gabriel abaixou os olhos.
— Eu sei.
— Não espero que você me perdoe... mas eu precisava dizer...
Rafael segurou a mão dele.
— Me perdoa. Por favor.
Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Eu nunca vou esquecer meu pai. Nunca. Mas também não quero carregar ódio pelo resto da minha vida.
Rafael começou a chorar.
— Obrigado...
Pouco depois, Rafael faleceu.
O velório
Dias depois, Gabriel apareceu no velório.
Algumas pessoas ficaram surpresas ao vê-lo ali.
Ele caminhou lentamente até o caixão e ficou alguns segundos olhando para Rafael.
Não havia sorriso.
Não havia comemoração.
Só silêncio.
Gabriel colocou uma pequena flor sobre o caixão.
— Você tirou meu pai de mim... — disse baixinho. — E isso sempre vai fazer parte da minha história.
Ele respirou fundo.
— Mas eu não vou tirar sua vida em troca. Nem vou comemorar sua morte.
Gabriel enxugou uma lágrima.
— Que você descanse. Eu escolhi salvar sua vida quando poderia ter escolhido o contrário. E faria isso novamente.
Então ele se afastou do caixão.
Gabriel não foi ao velório porque esqueceu o que Rafael fez.
Foi porque, para ele, uma vida continuava sendo uma vida, mesmo quando pertencia a alguém que havia cometido um crime terrível.