Existe algo profundamente irônico em uma sociedade que transformou o diploma em símbolo de superioridade intelectual, mas que, diante do ídolo político certo, parece jogá-lo pela janela. São pessoas com graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, experiência internacional e discursos intermináveis sobre ciência, educação, cultura e pensamento crítico. Gente que passou anos aprendendo a questionar, analisar fontes, confrontar argumentos e desconfiar de discursos fáceis. Até que aparece o político de estimação.
A partir daí, a régua muda. O despreparo vira “autenticidade”. A contradição vira “complexidade”. O populismo vira “proximidade com o povo”. A crítica vira “ódio”. A cobrança por competência vira “elitismo”. E fatos inconvenientes passam a ser tratados como detalhes menores diante da narrativa. É aí que a coisa fica realmente patética. Porque não estamos falando de pessoas que nunca tiveram acesso à educação. Estamos falando justamente daqueles que passaram anos dizendo que educação transforma, que conhecimento liberta e que pensamento crítico é indispensável. Mas basta o político vestir a camisa ideológica correta para o pensamento crítico entrar em férias. O diploma continua na parede. A coerência, não.
Há uma explicação bastante simples para isso: política, para muita gente, deixou de ser uma busca por princípios e virou uma torcida organizada. O importante já não é saber se o líder está certo. É saber se ele é “dos nossos”. Se for dos nossos, encontramos justificativas. Se for dos outros, encontramos escândalos. Se o adversário erra, é prova de incompetência. Se o aliado erra, é contexto. Se o adversário mente, é caráter. Se o aliado mente, é estratégia. Se o adversário é populista, manipula as massas. Se o aliado é populista, “fala a linguagem do povo”. Isso não é pensamento crítico. É dupla contabilidade moral.
E talvez a parte mais cruel seja transformar o povo em argumento para justificar a mediocridade. Dizer que alguém representa o povo porque fala errado, desconhece determinados assuntos ou despreza o conhecimento não é necessariamente valorizar o povo. Pode ser exatamente o contrário: pressupor que o povo não merece mais do que isso. O cidadão comum merece competência. Merece educação. Merece informação. Merece governantes preparados. Merece ser tratado como adulto — não como massa de manobra eleitoral.
Romantizar o despreparo como se fosse virtude popular é uma forma bastante sofisticada de paternalismo. E existe ainda uma camada mais desconfortável: muitos dos que defendem esse discurso sabem perfeitamente que estão relativizando aquilo que condenariam em qualquer adversário. Não é falta de inteligência. É conveniência.
Porque reconhecer a realidade pode custar caro: o convite pode desaparecer, o financiamento pode diminuir, o contrato pode não vir, o círculo social pode se fechar e o indivíduo pode descobrir que está sozinho fora da bolha. Então acontece a rendição. A pessoa continua falando em liberdade, mas não pode discordar do próprio grupo. Continua falando em ciência, mas escolhe os fatos que confirmam sua narrativa. Continua falando em democracia, mas trata qualquer questionamento ao seu líder como ameaça. Continua falando em pensamento crítico, mas pratica obediência ideológica.
No fim, sobra uma cena quase caricatural: gente altamente escolarizada utilizando toda a sua inteligência para justificar aquilo que já decidiu acreditar. E esse talvez seja o maior fracasso da educação. Não é faltar diploma. É ter diploma e continuar incapaz de dizer: “Meu lado também pode estar errado.”
Porque o verdadeiro pensamento crítico começa justamente no dia em que deixamos de perguntar apenas “quem disse?” e começamos a perguntar: “É verdade?” E essa pergunta, por mais simples que pareça, é capaz de destruir muitas carreiras políticas, muitas reputações intelectuais e, principalmente, muitas ilusões confortáveis.