Para aqueles que partiram, mas nunca deixaram de existir em nós.
Há dias em que a casa parece maior,
as paredes parecem guardar silêncio,
e o coração procura, pelos cantos,
as vozes daqueles que o tempo levou.
A mesa ainda está no mesmo lugar,
a fotografia ainda sorri na parede,
mas existe uma cadeira vazia
que ninguém consegue ocupar.
Porque algumas ausências
não cabem dentro de uma casa.
Cabem dentro do peito.
E foi assim que aprendemos
que a saudade não é apenas lembrar.
Saudade é querer contar uma novidade
para quem não pode mais ouvir.
É preparar um café
e lembrar de quem tomava junto.
É ouvir uma música antiga
e, por alguns segundos,
sentir que aquela pessoa voltou.
É fechar os olhos
e procurar no escuro
um abraço que o tempo não devolve.
Então veio a doença.
Veio sem pedir licença,
levando força, levando noites de sono,
mudando planos, assustando a família.
O câncer chegou como uma tempestade
na vida de quem só queria continuar vivendo.
Houve lágrimas escondidas.
Houve orações sussurradas.
Houve mãos apertadas umas nas outras
pedindo a Deus mais um dia.
Mais uma conversa.
Mais um abraço.
Mais um “eu te amo”.
E talvez seja isso que mais doa:
perceber que, quando a vida fica frágil,
a gente descobre o valor
das coisas que antes pareciam pequenas.
Um abraço demora mais.
Um beijo se torna precioso.
Uma conversa na cozinha
vira uma lembrança para a vida inteira.
E quando alguém parte,
descobrimos que o amor
não sabe morrer.
O corpo vai embora.
A voz silencia.
Os passos deixam de ecoar pelo corredor.
Mas o amor...
O amor fica.
Fica naquela fotografia antiga.
Fica naquela roupa guardada.
Fica no cheiro da casa.
Fica nas histórias contadas pelos filhos.
Fica nas lágrimas que caem sem pedir licença.
Fica dentro de nós.
E existem noites em que eu olho para o céu
e penso em todos vocês.
Naqueles que a vida levou antes da hora.
Imagino vocês juntos,
sem dor, sem medo, sem hospitais,
sem despedidas.
E penso que talvez exista um lugar
onde ninguém precise dizer adeus.
Um lugar onde o câncer não consiga chegar.
Um lugar onde o abraço dure para sempre.
Se eu pudesse voltar no tempo,
não pediria riqueza,
não pediria uma vida perfeita.
Eu pediria apenas cinco minutos.
Cinco minutos com cada pessoa que se foi.
Para dizer:
“Eu te amo.”
“Eu sinto sua falta.”
“Obrigado por ter feito parte da minha vida.”
“Perdoe aquilo que eu não consegui dizer.”
E então eu abraçaria.
Abraçaria como se o mundo fosse acabar
e aquele fosse o último abraço.
Porque hoje eu sei:
alguns abraços deveriam durar para sempre.
A família mudou.
Há nomes que agora são pronunciados com lágrimas.
Há aniversários em que a ausência senta à mesa.
Há festas em que alguém olha para a porta
esperando, por um segundo,
que aquela pessoa apareça.
Mas ninguém aparece.
E o coração entende, mais uma vez,
que algumas saudades não passam.
Elas apenas aprendem a morar conosco.
Por isso, quando alguém disser
que o tempo cura tudo,
talvez não compreenda.
O tempo não cura a saudade.
O tempo nos ensina a carregá-la.
E nós seguimos.
Seguimos pelos filhos.
Pelos netos.
Pelos sonhos que ainda precisam nascer.
Pelas histórias que ainda precisam ser contadas.
Seguimos porque aqueles que partiram
também vivem em nossas escolhas,
em nossos gestos,
em nosso jeito de amar.
Talvez seja essa a forma mais bonita
de manter alguém vivo:
continuar amando aquilo que essa pessoa nos ensinou a amar.
E quando a noite cair
e o silêncio ficar grande demais,
olhe para o céu.
Escolha uma estrela.
Não importa qual.
Imagine que ali mora
um pedacinho de quem você perdeu.
E diga baixinho:
“Eu ainda lembro de você.”
Talvez ninguém responda.
Mas o seu coração vai entender.
Porque o amor verdadeiro
não precisa de resposta.
Ele simplesmente permanece.
E quando chegar o dia
em que a saudade apertar tanto
que você pensar que não vai conseguir continuar,
lembre-se:
você não está carregando apenas uma ausência.
Você está carregando uma história.
Uma família.
Uma vida.
Mil lembranças.
Mil abraços.
Mil momentos que jamais poderão ser apagados.
E talvez seja por isso
que ainda conseguimos sorrir
mesmo chorando.
Porque quem partiu
não levou tudo.
Deixou o amor.
Deixou lembranças.
Deixou ensinamentos.
Deixou um pedaço de si
dentro de cada pessoa que amou.
E enquanto houver alguém
capaz de dizer o nome deles,
eles jamais terão partido completamente.
Porque há pessoas que deixam esta vida...
mas nunca deixam o nosso coração.
E é por isso que, hoje,
entre lágrimas e saudade,
eu não digo apenas adeus.
Eu digo:
até um dia.
Porque o amor que nasceu nesta família
é maior que a distância,
maior que o tempo,
maior que a doença
e maior até mesmo que a morte.
E quando nos encontrarmos novamente,
que o primeiro abraço seja tão forte
que faça toda a saudade
valer a pena.
— João Guilherme
Engenheiro Beltrão – Paraná