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Professores alertam: superproteção pode criar filhos despreparados para lidar com frustrações, regras e responsabilidades

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Professores alertam: superproteção pode criar filhos despreparados para lidar com frustrações, regras e responsabilidades

Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal

Vivemos uma época em que muitos pais desejam poupar seus filhos de qualquer sofrimento. Querem evitar que chorem, que sejam contrariados, que recebam um “não”, que enfrentem dificuldades ou que experimentem as consequências de determinadas escolhas. O desejo de proteger é legítimo e faz parte da responsabilidade familiar. Entretanto, quando proteção se transforma em superproteção, aquilo que deveria fortalecer a criança pode acabar enfraquecendo sua capacidade de enfrentar a vida.

A criança precisa de amor, cuidado, segurança e proteção. Mas também precisa aprender que a vida possui limites, regras, responsabilidades, perdas, esperas e frustrações. Ninguém consegue eliminar todos os obstáculos do caminho de uma criança. E, quando os adultos tentam fazer isso permanentemente, podem impedir que ela desenvolva ferramentas emocionais para enfrentar situações inevitáveis.

Como afirma o psicólogo e pesquisador Daniel J. Siegel, ao discutir o desenvolvimento emocional infantil,

“não se trata de impedir que nossos filhos experimentem dificuldades, mas de ajudá-los a atravessá-las”.

A diferença é profunda: proteger é oferecer segurança para que a criança enfrente desafios; superproteger é retirar dela todos os desafios possíveis.

O “não” também educa

Uma das primeiras palavras que a criança precisa aprender a ouvir é “não”.

Não porque os pais devam ser autoritários, mas porque a vida é constituída de limites.

Não podemos ter tudo o que queremos.

Não podemos fazer tudo o que desejamos.

Não podemos interromper constantemente os outros.

Não podemos desrespeitar professores, colegas ou familiares.

Não podemos fugir das consequências de nossas escolhas.

Aprender isso desde cedo é parte da educação.

O problema aparece quando os adultos interpretam qualquer frustração da criança como sofrimento que precisa ser imediatamente eliminado.

Se a criança chora porque não ganhou determinado brinquedo, compra-se outro.

Se não quer fazer uma atividade, alguém faz por ela.

Se esqueceu o material escolar, alguém corre para levar.

Se recebeu uma consequência por comportamento inadequado, os pais vão à escola exigir que a consequência seja retirada.

Se tirou uma nota baixa, a culpa é imediatamente atribuída ao professor.

Pouco a pouco, a criança pode aprender uma mensagem perigosa:

“Quando alguma coisa não acontece como eu quero, alguém deve resolver por mim.”

Frustração também é aprendizagem

A frustração não precisa ser confundida com abandono, violência ou sofrimento deliberadamente provocado.

Existe uma diferença entre frustrar pedagogicamente e submeter uma criança a sofrimento.

A primeira faz parte da educação.

A segunda é inadequada.

Quando uma criança precisa esperar sua vez, ouvir um “não”, refazer uma tarefa, aceitar uma regra ou compreender que perdeu um jogo, ela está diante de pequenas experiências de frustração.

Essas experiências, quando acompanhadas por adultos presentes e afetivos, podem contribuir para o desenvolvimento da tolerância à frustração.

A psicóloga Carol Dweck, ao estudar mentalidade e aprendizagem, destacou a importância de compreender erros e dificuldades como parte do processo de desenvolvimento. Sua perspectiva ajuda a combater uma cultura na qual a criança precisa acertar sempre e ser constantemente protegida do fracasso

“Tornar-se é melhor do que ser.”

A ideia é particularmente importante para a educação: a criança não precisa ser perfeita; precisa ter oportunidades para aprender, tentar, errar, corrigir e tentar novamente.

Quando os pais resolvem tudo

A superproteção pode aparecer de formas muito sutis.

Pais que arrumam a mochila todos os dias.

Pais que fazem a tarefa de casa.

Pais que justificam constantemente os atrasos dos filhos.

Pais que resolvem conflitos que as próprias crianças já poderiam tentar resolver.

Pais que não permitem que o filho seja responsabilizado por seus comportamentos.

Pais que negociam cada regra estabelecida pela escola.

Pais que dizem:

“Meu filho não fez isso.”

Mesmo quando não conhecem toda a história.

O problema não está em defender os filhos. Pais precisam, sim, protegê-los de injustiças, violência e situações inadequadas.

O problema está em defendê-los até mesmo das consequências educativas de seus próprios atos.

A escola percebe aquilo que a família nem sempre percebe

Professores convivem diariamente com crianças e adolescentes em situações coletivas.

Eles observam como cada estudante reage quando perde, quando é contrariado, quando precisa esperar, quando recebe uma correção, quando precisa trabalhar em equipe ou quando uma atividade não sai como esperava.

Por isso, muitas vezes, a escola percebe comportamentos que podem passar despercebidos dentro de casa.

Uma criança pode ser extremamente dependente dos adultos.

Pode não conseguir organizar seus materiais.

Pode não aceitar regras.

Pode apresentar dificuldade para ouvir “não”.

Pode desistir rapidamente diante de uma tarefa difícil.

Pode reagir de maneira desproporcional a pequenas frustrações.

Esses comportamentos não devem ser tratados automaticamente como “má criação”. É preciso compreender suas causas.

Mas também não devem ser simplesmente ignorados.

Educar significa observar, compreender e intervir.

Responsabilidade precisa ser construída desde cedo

A criança precisa ter responsabilidades compatíveis com sua idade.

Guardar os brinquedos.

Organizar os materiais.

Cuidar dos próprios pertences.

Ajudar em pequenas tarefas domésticas.

Cumprir horários.

Fazer atividades escolares.

Respeitar combinados.

Assumir quando comete um erro.

Pedir desculpas.

Tentar novamente.

Essas pequenas responsabilidades formam hábitos que serão importantes na adolescência e na vida adulta.

Uma criança que nunca precisa cuidar de nada pode chegar à adolescência acreditando que tudo será resolvido por alguém.

E isso pode produzir adultos com dificuldades para lidar com responsabilidades, críticas, contrariedades e consequências.

Autonomia não significa abandono

Alguns pais confundem autonomia com deixar a criança fazer tudo sozinha.

Não é isso.

Autonomia significa permitir que a criança faça progressivamente aquilo que já possui condições de realizar, oferecendo orientação e apoio quando necessário.

Maria Montessori sintetizou essa ideia na conhecida expressão:

“Ajude-me a fazer sozinho.”

A frase representa uma concepção educativa extremamente atual.

O adulto não deve fazer pela criança aquilo que ela já pode aprender a fazer.

Se a criança consegue guardar seus brinquedos, por que o adulto precisa guardar?

Se consegue organizar parte do material escolar, por que alguém precisa fazer tudo?

Se consegue resolver um pequeno conflito conversando, por que o adulto precisa intervir imediatamente?

A autonomia nasce da oportunidade.

O perigo de criar filhos que não sabem perder

Um dos espaços mais ricos para aprender a lidar com frustrações é a brincadeira.

Jogos e brincadeiras apresentam regras.

Existem vencedores e perdedores.

Existem momentos de espera.

Existem erros.

Existem tentativas.

Existem mudanças de estratégia.

Quando os adultos permitem que a criança perca e aprendam a lidar com isso, estão ensinando uma habilidade importante para a vida.

O problema aparece quando o adulto deixa a criança ganhar sempre.

À primeira vista, parece uma demonstração de carinho.

Mas, pedagogicamente, pode transmitir uma mensagem equivocada:

“Você precisa vencer sempre.”

Na vida real, isso não acontecerá.

A criança precisará enfrentar provas difíceis, processos seletivos, rejeições, críticas, erros, perdas, mudanças e situações nas quais não será escolhida.

É melhor aprender pequenas frustrações durante a infância, em ambientes seguros e acolhedores, do que descobrir apenas na vida adulta que o mundo não funciona conforme nossos desejos.

Superproteção e escola: quando os conflitos chegam à sala de aula

A superproteção pode criar dificuldades para a convivência escolar.

Uma criança acostumada a ter seus desejos imediatamente atendidos pode interpretar uma regra como uma agressão.

Pode entender uma correção como perseguição.

Pode considerar uma nota baixa uma injustiça.

Pode acreditar que o professor deve adaptar todas as regras às suas vontades.

E, quando a família reforça essa interpretação, o conflito se intensifica.

A escola precisa estabelecer limites claros, mas também precisa ouvir o estudante e a família.

A família, por sua vez, precisa compreender que nem toda correção é perseguição e nem toda frustração é injustiça.

Às vezes, o professor está justamente tentando ensinar aquilo que a criança ainda não aprendeu: responsabilidade.

“Meu filho não pode sofrer”

Essa frase precisa ser analisada com cuidado.

Nenhum pai ou mãe deseja ver o filho sofrer. Isso é natural.

Mas será possível eliminar todas as frustrações da vida?

Não.

A criança crescerá.

Terá amigos que irão discordar dela.

Perderá jogos.

Receberá críticas.

Terá professores diferentes.

Precisará cumprir horários.

Poderá ser rejeitada.

Terá dificuldades acadêmicas.

Precisará lidar com responsabilidades profissionais.

Enfrentará perdas.

Por isso, a função dos pais não é construir uma vida sem dificuldades.

É preparar os filhos para enfrentar as dificuldades com segurança, responsabilidade e equilíbrio emocional.

Como afirmou o educador Rudolf Dreikurs:

“Uma criança malcomportada é uma criança desencorajada.”

Essa perspectiva nos convida a olhar para o comportamento infantil não apenas como desobediência, mas também como uma oportunidade de compreender necessidades, estabelecer limites e ensinar competências.

Limites não são falta de amor

Há uma cultura equivocada segundo a qual impor limites seria ser frio ou autoritário.

Não é.

Limites dão previsibilidade.

A criança precisa saber o que pode e o que não pode fazer.

Precisa saber que determinadas atitudes possuem consequências.

Precisa compreender que liberdade não significa ausência de responsabilidade.

O professor precisa estabelecer limites.

Os pais precisam estabelecer limites.

A sociedade precisa estabelecer limites.

Mas esses limites devem ser coerentes, claros, proporcionais e acompanhados de diálogo.

Autoridade não é violência.

Autoridade educativa é responsabilidade.

O professor não pode ser o “vilão” da história

Quando a escola estabelece regras, alguns pais podem interpretar qualquer contrariedade como perseguição ao filho.

Essa postura pode enfraquecer a autoridade pedagógica.

É claro que professores podem errar e devem ser responsabilizados quando cometem injustiças.

Mas também é necessário reconhecer que o professor possui a responsabilidade de estabelecer regras de convivência e garantir o direito coletivo à aprendizagem.

Não é possível construir uma sala de aula em que cada estudante possa fazer aquilo que quiser.

A liberdade de um termina quando começa a prejudicar o direito do outro.

Se um estudante interrompe constantemente a aula, agride colegas ou desrespeita professores, a escola precisa intervir.

A família não deveria automaticamente perguntar:

“O que fizeram com meu filho?”

Também deveria perguntar:

“O que meu filho fez? O que podemos fazer juntos para ajudá-lo a melhorar?”

Essa mudança de pergunta pode transformar completamente a relação entre família e escola.

Educar para a vida, não para uma bolha

Uma criança superprotegida pode crescer dentro de uma espécie de “bolha”.

Nessa bolha, tudo é adaptado às suas necessidades.

Todos procuram evitar que ela se frustre.

Os adultos resolvem seus problemas.

As responsabilidades são reduzidas.

As consequências são negociadas.

Os erros são sempre atribuídos a terceiros.

Mas a vida não funciona assim.

Por isso, educar significa preparar para o mundo real.

E preparar para o mundo real significa ensinar:

respeito, responsabilidade, autonomia, empatia, perseverança, autocontrole, capacidade de ouvir críticas e disposição para recomeçar.

O equilíbrio entre proteção e autonomia

É importante destacar: superproteção não deve ser confundida com cuidado, presença ou afeto.

Pais presentes são fundamentais.

Pais que acompanham a vida escolar são fundamentais.

Pais que conversam, orientam e protegem são fundamentais.

O problema aparece quando o cuidado impede o crescimento.

A criança precisa de um adulto que diga:

“Estou aqui para ajudá-lo.”

Mas também precisa ouvir:

“Agora tente você.”

Precisa saber:

“Se errar, eu vou ajudá-lo a compreender o erro.”

E não:

“Eu não deixarei você errar nunca.”

Precisa aprender:

“Você pode perder e continuar sendo amado.”

Conclusão

A superproteção nasce, muitas vezes, de uma intenção legítima: proteger os filhos.

Mas amar não significa eliminar todos os obstáculos do caminho.

Amar também significa preparar.

Preparar para ouvir “não”.

Preparar para esperar.

Preparar para perder.

Preparar para cumprir regras.

Preparar para assumir responsabilidades.

Preparar para reconhecer erros.

Preparar para pedir ajuda.

Preparar para tentar novamente.

Preparar para conviver com pessoas diferentes.

Como escreveu Paulo Freire:

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

Essa ideia também pode ser aplicada à educação familiar: educar não é fazer tudo pela criança, mas criar condições para que ela desenvolva capacidades que lhe permitam caminhar progressivamente com autonomia.

A escola pode ensinar conteúdos, desenvolver competências e estabelecer regras. A família pode ensinar valores, limites, responsabilidades e oferecer segurança afetiva. Quando essas duas instituições caminham em direções opostas, quem perde é a criança.

Por isso, o grande desafio não é escolher entre proteção ou liberdade.

É encontrar o equilíbrio entre ambas.

Proteger sem aprisionar.

Cuidar sem fazer tudo pela criança.

Amar sem permitir tudo.

Corrigir sem humilhar.

Estabelecer limites sem violência.

Dar autonomia sem abandonar.

A criança não precisa de pais que removam todas as pedras do caminho.

Precisa de pais que caminhem ao seu lado enquanto ela aprende a desviar das pedras, levantar quando cair e continuar caminhando.

E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades da educação: não criar filhos preparados apenas para uma vida confortável, mas seres humanos preparados para uma vida real.

Referências bibliográficas

DWECK, Carol S. Mindset: a nova psicologia do sucesso. São Paulo: Objetiva, 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MONTESSORI, Maria. A criança. Rio de Janeiro: Nórdica.

SIEGEL, Daniel J.; BRYSON, Tina Payne. O cérebro da criança. São Paulo: nVersos.

DREIKURS, Rudolf; SOLTZ, Vicki. Children: The Challenge.New York: Plume.