Episódio 1: A Origem do caos
O som das máquinas ecoava pelos corredores do laboratório subterrâneo escondido sob um hospital. Cientistas caminhavam apressados, carregando pranchetas e tablets repletos de informações.
No centro da sala principal, uma rocha negra coberta por rachaduras azuladas permanecia presa dentro de uma cúpula de vidro reforçado, enquanto era constantemente analisada por pesquisadores de diversas áreas.
A pedra emitia pulsos de energia luminosa que percorriam a superfície da redoma em intervalos regulares.
Era como se estivesse viva.
Enquanto isso, na sala de reuniões, os cinco cientistas-chefes — Arthur, Elizabeth, Scarlett, Laura e Ícaro — discutiam as consequências da evolução da tecnologia e da comunicação.
Informações confidenciais estavam sendo vazadas. As pessoas começavam a fazer perguntas demais. Teorias surgiam em fóruns, jornais e redes de comunicação.
O mundo estava ficando curioso demais.
Scarlett: — Não vamos conseguir esconder isso por muito tempo.
Ela comentou enquanto ajustava os óculos, mantendo uma calma quase assustadora.
— As pessoas estão começando a perceber nossos padrões, e isso logo se tornará um grande problema.
Ícaro soltou um suspiro irritado.
Ícaro: — Então qual é a solução? Silenciar milhões de pessoas apenas porque foram curiosas?
Um silêncio tomou conta da sala.
Arthur levantou-se lentamente. Seus movimentos eram elegantes, quase calculados, mas seus olhos transmitiam uma frieza inquietante.
Arthur: — Talvez não seja necessário silenciá-las...
Ele fez uma breve pausa.
— Basta controlá-las através do medo.
Todos voltaram seus olhares para ele.
Arthur caminhou até o centro da mesa, pegou um controle remoto e ativou o painel holográfico.
Diversos arquivos surgiram no ar: análises genéticas, estudos celulares e imagens da misteriosa rocha.
Arthur: — Pelo que consegui registrar, aquela pedra possui uma fonte de energia diferente de tudo que já estudei em toda a minha carreira.
Elizabeth levantou a mão.
Elizabeth: — Diferente como?
Arthur virou-se para ela.
Arthur: — Excelente pergunta. Essa energia é capaz de alterar e aprimorar estruturas celulares. Em teoria, um organismo exposto corretamente a ela poderia desenvolver capacidades muito além dos limites humanos.
Ícaro cruzou os braços.
Ícaro: — Impressionante... Mas como isso ajudaria a controlar a população?
Arthur sorriu discretamente.
Arthur: — Pensei nisso durante semanas... E o que seria mais irônico do que transformar a própria humanidade em sua maior ameaça?
O holograma mudou.
Agora mostrava modelos anatômicos alterados, acompanhados por observações científicas.
Arthur: — Nos documentos que entreguei a vocês estão os indivíduos que pretendo modificar. Seres biologicamente aprimorados. Fortes o suficiente para impor ordem e adaptáveis o bastante para superar qualquer resistência.
Elizabeth franziu a testa.
Elizabeth: — Você está sugerindo criar soldados modificados?
Arthur balançou a cabeça negativamente.
Arthur: — Soldados obedecem ordens temporárias.
Ele encarou todos os presentes.
— Estou propondo algo muito maior.
Fez uma breve pausa antes de concluir.
— Um novo estágio da evolução humana.
Os cientistas permaneceram em silêncio.
Alguns pareciam fascinados.
Outros, completamente horrorizados.
Após horas de debates, cálculos de risco e inúmeras objeções, uma decisão foi tomada.
O projeto seria aprovado.
Seu nome seria:
Projeto Quimera.
Entretanto, as cobaias deveriam ser crianças.
Segundo os pesquisadores, seus corpos apresentavam maior capacidade de adaptação e, além disso, seriam muito mais fáceis de manipular do que adultos.
Dois anos depois...
O laboratório havia mudado completamente.
Novas salas foram construídas.
Os sistemas de segurança foram reforçados.
Diversas câmaras de contenção foram criadas para manter os experimentos isolados.
Os resultados, porém, ainda eram inconsistentes.
Muitas cobaias apresentavam deformações.
Outras simplesmente não sobreviviam.
Pouquíssimas conseguiam resistir ao processo e despertar habilidades extraordinárias.
Na sala de reuniões, os pesquisadores analisavam os relatórios mais recentes.
Arthur observava cada documento sem demonstrar qualquer emoção.
Elizabeth aproximou-se.
Elizabeth: — Estamos ficando sem opções.
Arthur permaneceu alguns segundos em silêncio.
Arthur: — Não.
Ele ergueu o olhar.
— Apenas ainda não encontramos os hospedeiros ideais.
Scarlett cruzou os braços.
Scarlett: — Já capturamos diversas crianças próximas ao hospital. Continuar fazendo isso aumentará o risco de descobrirem nossas pesquisas.
Ícaro concordou.
Ícaro: — Já tentamos praticamente tudo. A maioria simplesmente não suporta a transformação.
Laura observava os relatórios atentamente.
Laura: — Talvez exista algo impedindo que elas aceitem essa energia.
Arthur deslizou algumas pastas sobre a mesa.
Arthur: — Exatamente.
Todos abriram os documentos.
Arthur: — As crianças que capturamos possuem fortes laços familiares e sociais. Essas conexões fortalecem a mente e tornam seus organismos mais resistentes ao processo.
Ele fez outra pausa.
— Precisamos quebrar esse padrão.
Os pesquisadores continuaram lendo.
Entre os documentos havia uma ficha simples.
Charlotte — 13 anos.
Moradora de uma comunidade rural.
Poucos registros escolares.
Quase nenhum histórico médico.
Poucos vínculos sociais além da família.
Pais enfrentando graves dificuldades financeiras.
Elizabeth fechou a pasta.
Elizabeth: — Ela parece perfeita.
Arthur caminhou lentamente até o vidro reforçado da câmara onde a rocha permanecia presa.
As rachaduras azuladas pulsavam continuamente.
Ele sorriu.
Arthur: — Ela será nossa nova arma...
Sua voz tornou-se fria.
— ...e o maior medo da humanidade.
Sem perceber, Arthur acabava de escolher aquela que um dia se tornaria seu maior pesadelo.
Em uma pequena comunidade do interior, distante das grandes cidades, Charlotte carregava um balde de água enquanto caminhava por uma estrada de terra.
O vento balançava seus cabelos escuros e crespos.
Os campos verdes se estendiam até onde a vista alcançava.
Apesar das dificuldades, aquela vida simples tinha sua beleza.
Charlotte olhou para o céu.
Gostava de imaginar como seria viver em outro lugar.
Conhecer pessoas novas.
Escolher o próprio destino.
De repente, uma voz veio da casa.
José: — Charlotte!
Ela sorriu.
Charlotte: — Já estou indo!
Ao entrar, encontrou seu pai organizando os equipamentos de pesca, enquanto seu irmão, Luccas, verificava algumas armadilhas de caça.
José: — Vamos até o rio.
Disse ele com um sorriso cansado.
— Depois passaremos pela floresta. Precisamos conseguir algo para o jantar.
Charlotte assentiu.
Charlotte: — Claro.
Pouco tempo depois, os três caminhavam juntos pela trilha.
O rio refletia a luz dourada do fim da tarde.
O canto dos pássaros preenchia o ambiente.
Durante horas, tudo parecia tranquilo.
Conversavam.
Pescavam.
Charlotte ria discretamente das tentativas frustradas de Luccas em capturar um peixe maior.
Para ela, aqueles momentos eram preciosos.
Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, entraram na floresta para verificar as armadilhas.
Mas eles não estavam sozinhos.
Escondidos entre as árvores, agentes do laboratório observavam cada movimento.
Pelos comunicadores, recebiam novas ordens.
Agente 1: — Alvo confirmado.
Agente 2: — Aguardando instruções.
Agente 3: — Capturem a garota. Neutralizem as testemunhas sem causar mortes desnecessárias.
Agente 4: — Vamos incapacitar os dois homens primeiro.
Naquele instante, Charlotte sentiu um arrepio.
Como se alguém estivesse observando cada um de seus passos.
Ela aproximou-se do pai e falou em voz baixa.
Charlotte: — Pai... você ouviu isso?
José franziu a testa.
Luccas virou-se imediatamente.
Luccas: — Quem está aí?
Nenhuma resposta.
Então tudo aconteceu em segundos.
Um dardo tranquilizante atravessou o ar e atingiu o braço de José.
Ele caiu de joelhos.
Outro disparo acertou as costas de Luccas, fazendo-o desabar.
Mesmo quase inconsciente, José gritou.
José: — Corram!
Charlotte tentou ajudá-lo.
Mas ele a empurrou.
José: — Vai! Corre!
Vários homens mascarados surgiram entre as árvores.
Charlotte virou-se e correu desesperadamente.
Os galhos arranhavam sua pele enquanto lágrimas escorriam pelo rosto.
Atrás dela, ouvia as ordens.
Agente 1: — Não a percam de vista!
Agente 2: — Cerquem pela direita!
Charlotte tropeçou em uma raiz escondida sob as folhas e caiu violentamente.
Antes que pudesse levantar, mãos fortes prenderam seus braços.
Ela se debateu desesperadamente.
Charlotte: — Me soltem!
As lágrimas escorriam sem parar.
Charlotte: — Pai! Luccas!
Um pano embebido em anestésico foi pressionado contra seu rosto.
Sua visão começou a escurecer.
As últimas coisas que ouviu foram o som distante da floresta e a voz de um dos agentes.
Agente 1: — A candidata foi capturada.
Alguns minutos depois, Charlotte despertou lentamente.
Sua visão ainda estava turva.
Ao olhar ao redor, percebeu que estava dentro de uma van preta.
Suas mãos e pernas estavam amarradas.
Ao seu lado, outras sete crianças permaneciam desacordadas.
Três homens vestidos de preto e usando máscaras vigiavam o compartimento.
Charlotte tentou se mover.
Antes que pudesse reagir, um dos agentes aplicou outra dose de tranquilizante em seu pescoço.
Enquanto a consciência desaparecia novamente, ela ainda conseguiu ouvir uma última mensagem sendo transmitida pelo rádio.
Agente 4: — Cobaias localizadas e capturadas. Iniciando o processo de transferência.
E, mais uma vez, tudo ficou escuro.