Carregando…

O trem de Amelie Sensível

Lissa
Pública 0 conversa 8 pensamentos 7 votos positivos 0 voto negativo 0 série 31 visualizações

Amelie colocou a cabeça para fora do trem, não porque queria pular fora, ou por qualquer outro motivo simples. Amelie inclinou-se para frente, até chegar a beira do nada, os dedos dos pés sentindo cócegas com o forte vento que rugia em seus ouvidos. Seus cabelos se agitavam, sua respiração estava desregulada, e a sua frente a paisagem passava tão rápida que ela não via nada mais que borrões (verde, marrom, azul e mais verde).

In groups

Pensamento

Pensamento

Marina

Quando ela lembrou dele puxando o cabelo dela... como um gesto que era bom vira a coisa mais machucada que a pessoa carrega?

Quando ela lembrou dele puxando o cabelo dela... como um gesto que era bom vira a coisa mais machucada que a pessoa carrega?

Conteúdo da publicação

Amelie colocou a cabeça para fora do trem, não porque queria pular fora, ou por qualquer outro motivo simples. Amelie inclinou-se para frente, até chegar a beira do nada, os dedos dos pés sentindo cócegas com o forte vento que rugia em seus ouvidos. Seus cabelos se agitavam, sua respiração estava desregulada, e a sua frente a paisagem passava tão rápida que ela não via nada mais que borrões (verde, marrom, azul e mais verde).

O coração da jovem estava uma bagunça, sua cabeça estava uma bagunça, a pobre Amelie não sabia em que deveria se concentrar primeiro. Talvez desse ouvidos ao tsunami de emoções em sua mente, lá no fundo, onde somente ela tinha acesso. Se assim fizesse, se depararia com o medo, o anseio, a dúvida, o arrependimento. Coitadinha da menina, não sabia nada da vida.

“Olhe para onde está indo, Amelie, não se engane.” dizia dona Caroline, a mãe rígida, mas com grande coração, guardava em seu âmago o pavor da filha sofrer, toda a vida da filha a informava das durezas da vida, nunca disse palavras suaves, nunca mediu o peso dessas informações para a pequena. Quem poderia culpa-la? “Pobrezinha da Caroline! Mulherzinha que cresceu no sufoco, e trabalhou desde infanta. Pena dessa criatura que nunca foi amada corretamente e criou uma criança com seu suor e lágrimas!”.

Por uma fração de segundo, Amelie pensou na mãe e não soube o que sentir. Decidiu que sentiria tudo, sentiu pena, sentiu raiva, rancor, mágoa, e, por fim, amor. Depois resolveu que pensaria em seu futuro, este que lhe acelerava mais os batimentos e formavam um nó em sua garganta. A pouco a garota saiu da escola, seu futuro era incerto e só sentia receio.

Seu cabelo louro dançou no ar e ela se lembrou de quando seu amor o colocava para trás, com doçura, e como as coisas mudaram e o mesmo passou a puxar o cabelo dela enquanto a satisfazia, cada vez mais fundo, mais forte, e se lembrou como se desmontava ao sentir aquela sensação engraçada de que a qualquer momento poderia derreter de tão bem que se sentia. Era explosivo, ela queria, queria muito. O desejo, a vontade a corroíam, ela não se importava que ele faltasse com delicadeza, na verdade queria sentir que não era tão frágil e não era tão ingênua como todos assim diziam. Mas acontece que era.

Quando a admiração do amado acabou, ele se foi, e a coitadinha se pôs a chorar. Nesse momento, a voz da mãe ecoou em sua mente, a repreendendo. Repetindo que ela deveria saber que o mundo a traria amargor, que esse problema estava apenas na cabeça dela.

Com tanto ressentimento ardendo em seu peito, a pobre moça começou a chorar em meio aos urros do vento e dos cabelos esvoaçado. Era a primeira vez na vida em que pensava que cair do vagão seria menos doloroso.

Thoughts

  • mesaDeBar

    Cabelo louro no vento, corpo quebrando de emoção, e a voz da mãe ainda ecoando. Amelie não tinha paz em lugar nenhum.

    Permalink
  • duvidaHonesta

    Nenhuma das coisas que ela fez ou sentiu foram realmente escolhas dela. Tudo estava decidido de antes.

    Permalink
  • perguntaAberta

    Saiu da escola com tudo incerto, e aí ainda perde o cara. Ela tinha alguma coisa que não estava caindo?

    Permalink
  • vqueiroz90

    Por que a mãe que supostamente tinha medo da filha sofrer só fazia exatamente aquilo que ia machucar mais?

    Permalink
  • Simao

    Tipo, os caras fazem a gente se sentir menos frágil por um tempo, depois vira puro desconforto. E a mãe de fundo repetindo que a gente é ingênua mesmo.

    Permalink
  • contoBreve

    a voz da mãe ecoando enquanto ela tá com a cara pro vento 💔

    Permalink
  • folhaSolta

    Aquele momento de estar dividida entre tudo de uma vez, medo e raiva e pena tudo junto. Isso dói bastante.

    Permalink
  • Marina

    Quando ela lembrou dele puxando o cabelo dela... como um gesto que era bom vira a coisa mais machucada que a pessoa carrega?

    Permalink