O que fazer quando a escola não consegue corrigir: falta de limite, excesso de tela, rotina bagunçada e ausência dos pais?
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
A escola tem uma função essencial na formação das crianças e dos adolescentes, mas não pode ser responsabilizada sozinha por comportamentos que são construídos, sobretudo, no ambiente familiar e social. Quando um estudante chega à escola sem limites, dorme em horários inadequados, permanece muitas horas diante de telas, não possui rotina de estudos e conta com pouca ou nenhuma participação dos responsáveis, a instituição escolar encontra uma barreira que nenhuma metodologia pedagógica consegue superar isoladamente.
A questão precisa ser enfrentada sem transformar a família em inimiga da escola, mas também sem transferir para o professor uma responsabilidade que não lhe pertence exclusivamente. Educar é uma tarefa compartilhada.A escola ensina, orienta, acolhe, estabelece regras e cria oportunidades de aprendizagem; a família, por sua vez, precisa estabelecer valores, limites, hábitos, responsabilidades e acompanhar sistematicamente a vida escolar dos filhos.
Como afirma Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” A frase ajuda a compreender que a escola não é uma fábrica de comportamentos prontos. Ela cria condições para que o aluno aprenda, desenvolva autonomia e se responsabilize progressivamente por suas escolhas.
Entretanto, como criar essas possibilidades quando o estudante chega à sala de aula depois de uma noite inteira diante do celular, dormindo poucas horas, sem ter realizado as atividades, sem acompanhamento familiar e acreditando que toda regra pode ser negociada ou simplesmente ignorada?
É preciso reconhecer que o excesso de telas não é apenas uma questão tecnológica; é também uma questão educacional, familiar e cultural. Smartphones, jogos, redes sociais e plataformas digitais fazem parte da vida contemporânea e não podem simplesmente ser demonizados. O problema aparece quando a tecnologia passa a ocupar o espaço do sono, da conversa familiar, da leitura, da brincadeira, do exercício físico, da convivência e das responsabilidades escolares.
A Sociedade Brasileira de Pediatria, ao discutir a relação entre crianças, adolescentes e tecnologia, chama atenção para a necessidade de estabelecer limites e equilíbrio no uso das telas. Essa preocupação é especialmente importante quando o uso interfere no sono, na alimentação, na atividade física, na convivência e no desempenho escolar.
Nesse sentido, vale lembrar uma ideia fundamental de Philippe Meirieu, em O Pedagogo e os Direitos da Criança: “A educação é uma relação assimétrica.” A criança e o adolescente ainda estão em processo de formação e, portanto, precisam de adultos capazes de exercer autoridade educativa. Autoridade não significa violência, autoritarismo ou humilhação. Significa estabelecer limites, explicar consequências, manter combinados e sustentar aquilo que foi estabelecido.
É justamente nesse ponto que muitas famílias enfrentam dificuldades.
Há situações em que os pais ou responsáveis desejam ser amigos dos filhos quando deveriam, antes de tudo, exercer o papel de adultos responsáveis pela educação. Dizer “não” também é educar. Estabelecer horário para dormir também é educar. Determinar o momento de estudar, guardar o celular, respeitar o professor, cumprir tarefas e assumir consequências também é educar.
A ausência de limites em casa frequentemente chega à escola acompanhada de uma expectativa equivocada: “A escola precisa dar um jeito.” Mas a escola pode orientar, intervir pedagogicamente, dialogar, registrar ocorrências, acionar a família, desenvolver projetos socioeducativos e buscar apoio da rede de proteção. O que ela não consegue fazer sozinha é substituir a presença cotidiana dos pais.
Como escreveu Hannah Arendt, em Entre o Passado e o Futuro: “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos responsabilidade por ele.”Essa responsabilidade começa muito antes de o estudante entrar no portão da escola.
> “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos responsabilidade por ele.”
> — Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro
A escola, portanto, precisa abandonar tanto a postura de impotência quanto a ilusão de que conseguirá resolver tudo sozinha. O caminho está na construção de uma rede de corresponsabilidade, envolvendo família, escola, gestão educacional, profissionais de apoio e, quando necessário, os serviços da rede de proteção.
O que pode ser feito?
1. Estabelecer uma rotina familiar mínima
Criança e adolescente precisam de previsibilidade. Horário para dormir, acordar, estudar, alimentar-se, brincar, praticar atividades físicas e utilizar dispositivos eletrônicos. Uma rotina organizada não elimina a liberdade; pelo contrário, cria segurança e favorece a autonomia.
2. Criar regras claras para o uso das telas
Não basta dizer “use menos o celular”. É necessário estabelecer regras concretas: horários, locais e situações em que o aparelho não deve ser utilizado. Durante as refeições, momentos de estudo e preparação para o sono, por exemplo, a família pode estabelecer períodos sem telas.
3. Recuperar a autoridade dos adultos
Autoridade não é gritar, ameaçar ou bater. É estabelecer limites e cumpri-los. Se uma regra existe, precisa existir também uma consequência coerente quando ela é descumprida.
4. Fazer da família uma parceira efetiva da escola
Participar das reuniões é importante, mas não suficiente. É necessário acompanhar tarefas, conversar sobre o que aconteceu na escola, verificar dificuldades, observar o comportamento e manter comunicação com professores e gestores.
5. Não desautorizar o professor diante do filho
Quando a família transforma toda reclamação escolar em perseguição contra o estudante, dificulta a intervenção pedagógica. É possível discordar da escola sem destruir sua autoridade diante da criança ou do adolescente.
6. Criar planos individuais para situações persistentes
Alguns estudantes necessitam de acompanhamento mais sistemático. Escola e família podem estabelecer metas objetivas, como frequência, cumprimento de atividades, redução de conflitos, melhoria da pontualidade e organização dos estudos.
7. Acionar a rede de proteção quando necessário
Quando a situação ultrapassa a capacidade de intervenção pedagógica da escola, negligência persistente, abandono, violações de direitos ou situações que coloquem o estudante em risco, é necessário acionar os serviços competentes da rede de proteção, respeitando as atribuições legais de cada órgão.
8. Ensinar responsabilidade, e não apenas cobrar obediência
O objetivo final não deve ser produzir alunos que obedecem somente porque têm medo de uma punição. É necessário ajudá-los a compreender que suas escolhas possuem consequências e que liberdade e responsabilidade caminham juntas.
A escola precisa fazer sua parte, mas a família também
É injusto exigir que o professor seja simultaneamente educador, psicólogo, assistente social, disciplinador, cuidador e substituto da família. Da mesma maneira, também seria equivocado esperar que a escola simplesmente “resolva” um problema cuja origem está em uma rotina familiar desorganizada.
Isso não significa retirar da escola sua responsabilidade. Ao contrário: significa delimitar responsabilidades para que cada instituição cumpra adequadamente o seu papel.
A escola precisa ter regras claras, gestão presente, professores preparados, estratégias pedagógicas, diálogo com as famílias e políticas de acompanhamento. A família precisa oferecer presença, rotina, limites, afeto, supervisão e acompanhamento.
A criança não precisa de adultos perfeitos. Precisa de adultos presentes, coerentes e responsáveis.
Quando família e escola caminham em direções opostas, quem mais perde é o estudante. Quando uma culpa a outra, o problema permanece. Quando ambas assumem responsabilidades e constroem estratégias conjuntas, aumentam significativamente as possibilidades de mudança.
Portanto, diante da falta de limites, do excesso de telas, da rotina bagunçada e da ausência dos pais, a pergunta não deveria ser simplesmente “o que a escola pode fazer?”, mas:
“O que escola, família e sociedade podem fazer juntas para que essa criança ou esse adolescente tenha condições reais de aprender, conviver e desenvolver-se?”
A resposta passa por uma palavra que muitas vezes é esquecida: corresponsabilidade.
A escola não pode substituir a família. A família não pode terceirizar integralmente a educação para a escola. E nenhuma das duas pode desistir do estudante.
Educar exige presença. Exige limites. Exige diálogo. Exige coerência. E, acima de tudo, exige adultos dispostos a assumir a responsabilidade de educar.
Referências
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.
MEIRIEU, Philippe. O Pedagogo e os Direitos da Criança: história de um mal-entendido? Porto Alegre: Artmed.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de Orientação:
MenosTelas
MaisSaúde. Rio de Janeiro: SBP.