O sonho é o quinhão do homem, jamais de Deus. No tear da eternidade, a Divindade não tece quimeras noturnas, pois despropósito seria que Aquele que perscruta a totalidade das eras — desde o Alfa até o Ômega, de sempre e para sempre — abrigasse devaneios no recolhimento do sono. Deus, em Sua majestade incorpórea, não dorme.
E como poderia Ele sonhar acordado? O devaneio diurno nasce da falta, mas n’Ele reside apenas a Vontade pura, que se faz ato no instante mesmo em que se manifesta. Ele tudo pode, tudo opera, porquanto habita a plenitude absoluta, perfeitamente satisfeito e completo em Si mesmo, sem vácuos a preencher.
Diante de tamanha imensidão, assoma a consciência de nossa própria finitude. A percepção aguda de que navegamos em um mar de mistérios, repletos de coisas que não sabemos — e que jamais saberemos —, por vezes ameaça extinguir em nós até mesmo o ímpeto da busca. Afinal, o próprio Criador gravou na pedra do tempo que estabeleceu limites intransponíveis à nossa condição, uma fronteira sagrada que abraça e restringe a todos nós.