Eu tinha oito, talvez nove.
Era pequena demais para entender
por que aquelas mãos me causavam tanto medo.
Eu só lembro delas.
Grandes.
Velhas.
E lembro de mim,
pequena,
segurando o choro como quem segura a própria respiração
para não piorar aquilo.
Lembro do desespero.
Lembro de olhar para ele
e perceber que, para ele, aquilo parecia diversão.
Quando cheguei em casa, contei.
Eu era uma criança
e fiz o que uma criança deveria poder fazer:
corri para alguém que deveria me proteger.
Mas ninguém veio.
Então eu aprendi a guardar.
Guardei por tantos anos
que, em algum momento, achei que tinha esquecido.
Cresci.
Tive meu primeiro relacionamento.
E, pela primeira vez, descobri que o toque também podia ser seguro.
Ele me respeitava.
Não me pressionava.
Não ultrapassava meus limites.
Eu achei que aquela menina tinha ficado para trás.
Até que veio o segundo relacionamento.
E um dia, dentro de um quarto,
ele tentou me beijar à força.
Segurou meu corpo quando eu não queria.
E, naquele instante,
eu deixei de estar ali.
Eu tinha oito anos outra vez.
Aquelas mãos.
Aquele medo.
Aquela sensação de não conseguir reagir.
Tudo voltou.
Foi como se o tempo tivesse rasgado
e aquela menina tivesse voltado para dentro de mim
gritando aquilo que um dia não conseguiram ouvir.
Foi então que eu entendi:
esquecer não é o mesmo que superar.
Às vezes,
a memória sai da cabeça
e fica escondida no corpo.
E o corpo se lembra.
Hoje eu olho para aquela menina
e queria dizer a ela:
você não inventou.
você não exagerou.
você não teve culpa.
e nunca deveria ter precisado carregar isso sozinha.
Talvez escrever seja
a maneira que encontrei
de finalmente acreditar nela.
E de devolver a voz
que aquele dia tentou tirar de mim.