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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Vagantes condenados: Deus da calamidade

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Vagantes condenados: Deus da calamidade

Em um pequeno e remoto vilarejo, localizado nas imensas planícies centrais, uma grande calamidade se aproximava, lançando um prelúdio de apreensão sobre a comunidade.

A atividade no mercado local continuava intensa, com os comerciantes anunciando seus produtos a plenos pulmões:

— Venham! Venham! Hoje temos descontos imperdíveis! — gritava um vendedor, enquanto outro complementava: — Aproveitem os preços baixos! Não percam essa chance!

De fato, o mercado prosperava e uma atmosfera de vibração e alegria parecia tomar conta de todo o vilarejo. As crianças corriam pelas ruas, envolvidas nas brincadeiras típicas da região.

— Ei, chuta a bola! — gritava um dos meninos.

— Espera aí! — respondeu o outro.

— Ahhh, para de ser egoísta e chuta logo essa bola! — reclamava um terceiro.

— Eu já vou! — retrucou o primeiro.

Apesar do clima descontraído, pairava no ar o pressentimento de que aquela alegria se dissiparia a qualquer momento, como se uma calamidade estivesse prestes a se abater sobre todos.

— Parem de brigar, crianças, ou o deus da calamidade vai pegar vocês~ — advertiu uma senhora que observava a cena da janela.

— Eu não tenho medo dele! — desafiou um dos garotos.

Em meio ao jogo, um dos meninos acabou chutando a bola para longe.

— Frango! Pé torto! — zombou o colega.

— Vai se foder! — retrucou o garoto, correndo para resgatar a bola.

Quanto mais o jovem se afastava do grupo na busca pela bola, mais a rua se silenciava, até que ele acabou esbarrando em algo sólido.

— Ai!… Desculpe, moço! — exclamou, levantando a cabeça.

Deparou-se com a figura sombria de um homem alto, de longos cabelos negros, envolto em um manto escuro e com olhos completamente ausentes de emoção. O garoto paralisou, com os olhos arregalados de medo e surpresa diante de tão sombria presença.

Nuvens escuras e carregadas começaram a se acumular no céu, obscurecendo a luminosidade que antes brilhava com intensidade. Poucos minutos atrás, a abóbada celeste estava límpida e azul, mas, de repente, uma rápida movimentação no ar fez com que as nuvens se fundissem em uma densa camada cinzenta.

— Hum! Por que será que o tempo fechou desse jeito? — questionou-se um morador, intrigado. — Será que vai chover?

Outra pessoa, igualmente surpresa, comentou:

— Estranho! Há poucos segundos o céu estava tão aberto e ensolarado. O que pode ter causado uma alteração tão rápida?

A perplexidade tomou conta dos presentes. O cenário, antes tranquilo e claro, agora se mostrava opressivo e pesado.

Por onde o estranho passava, um forte cheiro de sangue impregnava o ar, provocando mal-estar e náuseas entre os feirantes, apodrecendo tudo ao redor. Eles se entreolharam, confusos e apreensivos, tentando descobrir a origem daquele odor perturbador.

— Ei, o que está acontecendo aqui?! — gritou um dos moradores, vendo os comerciantes caírem ao chão um a um, incapazes de suportar a exalação hedionda.

O estranho prosseguia em sua caminhada, indiferente aos olhares apavorados dos que ficavam para trás. Seus passos o levaram até uma pousada no centro da vila. Ele parou diante da entrada, encarando a fachada por alguns instantes, como se hesitasse. Finalmente, deu um passo à frente e adentrou o estabelecimento, fincando suas raízes nessa comunidade.

Outrora uma comunidade alegre e vivaz, a vila agora se encontrava desolada e em ruínas. Pelas ruas desertas, os corpos dos moradores jaziam inertes, enquanto ratos devoravam os restos, espalhando pestes e doenças. As colheitas, antes exuberantes, haviam secado, deixando para trás um solo árido e infértil.

Muitos teriam acreditado que aquela tragédia levara anos para se consolidar, mas estariam terrivelmente enganados. Tudo aquilo havia começado há apenas três dias, com a chegada daquele estranho forasteiro.

O medo se espalhara como fogo, gerando desespero e ódio entre os sobreviventes. E esse ódio, por fim, resultou em uma onda de violência cega. Com sangue nos olhos e incapazes de raciocinar, os cidadãos invadiram os aposentos do estranho.

Agora, o local parecia completamente desabitado. Um silêncio inquietante e uma sensação de abandono absoluto impregnavam o ambiente. Não restavam sequer vestígios de construções inteiras ou sinais de que ali já houvera vida. Era como se aquele espaço tivesse sido esquecido pelo próprio mundo, reduzido a uma terra devastada e tragada pela inércia da morte.

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