Hoje me lembrei de uma pessoa que fez uma mudança enorme em uma fase muito importante da minha vida.
Sabe aquela tia que não teve filhos, mas que trata a gente como se fosse? Essa tia é a tia Mariza, irmã da minha mãe.
Grande parte da nossa infância e adolescência foi vivida em uma vila, com humildes casas de madeira, onde moravam tias, tios e seus filhos meus primos. A tia Mariza era casada com o tio Beto. E ele era o dono da vila, kkkkk. Era ele quem cedia aquele espaço para todos nós.
O tio Beto era meu tio favorito. Eu o amava como um pai.
Mas voltando à tia Mariza…
Ela nunca teve filhos, mas tratava muitos de nós como filhos dela.
Eu sempre fui uma menina um pouco diferente das minhas primas. Até porque minha mãe era bastante rígida com algumas coisas e hoje eu confesso: sou muito grata a ela por isso.
Naquela época, porém, eu sofria com algumas brincadeiras constrangedoras. Eu era gordinha, muito tímida e, para completar, não tinha muita noção de estilo.
Já naquela época eu tinha um lado meio “hiponga”. Gostava de saias longas, blusas largas… também porque não gostava muito do meu corpo. Então imaginem: gordinha, tímida e sem estilo. Kkkkk.
Mas uma coisa eu sempre tive: vontade de ganhar meu próprio dinheiro.
Desde cedo eu já trabalhava e inventava minhas formas de ganhar uma graninha. Vendia minhas artes na escola, fazia peças com caroço de açaí… eu me virava.
Foi também nessa época que conheci meu primeiro namorado.
Não vou entrar em detalhes, mas, quando terminamos, eu entrei no que hoje reconheço como meu primeiro período de tristeza profunda. Não era aquela depressão em que eu queria morrer, mas foi a minha primeira grande “fossa”. E, convenhamos: a primeira a gente nunca esquece!
Só que eu me lasquei.
Comecei a comer cada vez mais, parei de me cuidar, já não me vestia bem e fui me fechando ainda mais.
E foi aí que entrou a minha tia fada madrinha.
A tia Mariza.
Por mais que eu tivesse minha mãe ao meu lado, naquela época eu não tinha amigas. E a tia Mariza acabou ocupando um lugar muito especial na minha vida.
Ela olhou para mim naquele estado e, simplesmente, decidiu que aquilo não iria continuar.
Me colocou na motinha que ela tinha e começou a mudar minha vida.
Comprou roupas novas, roupas que eu nunca tinha usado antes: bermudas, blusas mais curtas, coisas que me faziam sair completamente da minha zona de conforto.
Me levou para cortar o cabelo.
Me matriculou na academia.
E, como se não bastasse, me obrigava a ir para festas com ela.
Ela ama pagode.
Eu odiava pagode.
Mas eu ia.
Porque ela queria que eu saísse de casa, conhecesse pessoas, me movimentasse, voltasse a viver.
E eu lembro até hoje de uma coisa que ela me disse:
Lili, você é uma mulher linda. Ainda vão existir muitos caras para te decepcionar. Então não é esse que vai te derrubar.”
Talvez ela nem saiba o tamanho do significado que aquelas palavras tiveram para mim.
Ela não estava apenas comprando roupas.
Não estava apenas me levando para cortar o cabelo ou para a academia.
Ela estava, de alguma forma, me ensinando a me enxergar novamente.
Ela me mostrou que eu não precisava ficar parada naquele lugar de dor.
Que um término não definia meu valor.
Que eu podia mudar.
Que eu podia me cuidar.
Que eu podia voltar a gostar de mim.
E talvez muitas das mudanças que aconteceram na mulher que sou hoje tenham começado ali, naquela motinha, com aquela tia que decidiu que eu precisava voltar a viver.
Hoje, olhando para trás, percebo que algumas pessoas entram na nossa vida como verdadeiros instrumentos de Deus.
A tia Mariza foi uma dessas pessoas para mim.
Ela foi colo, companhia, puxão de orelha, diversão, conselhos e, naquele momento, foi também minha fada madrinha.
E é por isso que hoje eu posso dizer:
Foi assim que uma tia salvou uma sobrinha.
E talvez ela nem saiba o quanto.