Creio eu que o mundo nos faz assim,
nos ensina a nos odiar desde o comecinho.
Nos faz indesejáveis, feias, ridículas,
nos chama de idiotas quando a gente só queria ser ouvida.
Falam de nós como se fôssemos carros,
carro rodado ninguém quer, eles dizem.
Mas o motorista que rodou em vários carros,
esse eles aplaudem, esse eles querem.
Como se fôssemos produto de prateleira,
com prazo, com etiqueta, com preço de uso.
Como se o nosso valor estivesse no lacre,
e não na história inteira que a gente carrega.
Nos fazem nos sentir feias um pouco mais a cada dia,
com um padrão de corpo que nunca nos cabe,
de pele que nunca é lisa o suficiente,
de cabelo que nunca é liso ou cacheado o bastante.
E a cobrança começa cedo,
meninas ainda de trança se medindo no espelho,
tentando mudar o que nem deveria ser mudado,
tentando caber num molde que nunca foi feito pra gente.
Mas não.