Eu invejo os casais heteronormativos.
Invejo a facilidade com que eles entram em um relacionamento, contam aos pais, apresentam à família, postam fotos, falam sobre quem amam sem precisar pensar duas vezes antes de abrir a boca. Parece tão simples para eles. Tão natural. Como se amar alguém e poder demonstrar esse amor fossem coisas que sempre viessem juntas.
E talvez seja isso que mais me doa: perceber que, para mim, nunca foi assim.
Meu antigo "relacionamento" me deixou marcas que eu não sei explicar direito. Ter que viver às escondidas, medir palavras, esconder sentimentos, existir na vida de alguém como se fosse algo que não pudesse ser descoberto. Só de lembrar, sinto enjoo, um embrulho no estômago. Como se meu corpo ainda se lembrasse de tudo aquilo que eu não queria ter vivido.
Eu invejo todos eles.
E, às vezes, odeio todos eles também.
Odeio a facilidade que têm de amar sem precisar transformar o próprio amor em segredo. Odeio ver algo que eu tanto quis parecer tão simples na vida de outras pessoas. Odeio sentir inveja de gente que nem sequer tem culpa daquilo que me falta.
E odeio, principalmente, o meu próprio ódio.
Porque eu não queria sentir isso. Não queria olhar para dois corpos de mãos dadas e sentir essa mistura amarga de tristeza, raiva e inveja. Eu queria conseguir olhar e simplesmente achar bonito. Queria não sentir que existe alguma coisa sendo negada a mim enquanto parece tão natural para os outros.
Eu só queria ser amada.
Amada ao ponto de ser apresentada aos pais, de conhecer a família, de aparecer nas fotografias, de ser mencionada nas conversas. Amada ao ponto de não precisar desaparecer quando alguém conhecido se aproxima. De não precisar me perguntar se, naquele dia, eu posso existir ou se vou ter que voltar a ser um segredo.
Eu queria ser alguém de quem se tem orgulho. Alguém que se escolhe também diante dos outros, não apenas quando as portas se fecham.
E eu odeio o fato de nunca ter conseguido viver o amor que eu queria. Odeio que uma coisa que deveria ter sido bonita tenha deixado tantas marcas em mim. Odeio que, mesmo depois de tudo, ainda exista uma parte de mim que queira viver aquilo que tanto me machucou.
Isso me faz alguém ruim?
Sou uma pessoa ruim por invejar aquilo que nunca tive? Por sentir raiva de uma facilidade que não existe para mim? Por desejar tanto uma coisa que, para tantas pessoas, parece nem precisar ser desejada?
Ou será que sou apenas alguém cansada de ter que aceitar menos do que queria por causa de algo que nunca deveria ter sido motivo para esconder o próprio amor?
Eu não queria odiar ninguém.
Eu só queria não ter tantos motivos para sentir essa dor.
Só queria amar uma mulher e poder dizer o nome dela sem medo. Segurar sua mão sem olhar ao redor. Conhecer sua família, apresentar a minha, construir memórias que não precisassem ficar restritas aos lugares onde ninguém pudesse nos ver.
Eu só queria ser amada sem precisar ser escondida.
E talvez seja isso que mais doa: não é que eu queira ter a vida deles.
Eu só queria ter o direito de viver a minha sem sentir que amar alguém é algo pelo qual preciso me esconder.