Era quase meia-noite quando Marcelo percebeu que o elevador do prédio havia parado no 13º andar.
O problema era simples: o prédio só tinha 12 andares.
Ele sorriu, achando que fosse um defeito no painel. Apertou o botão do térreo. Nada. As luzes piscaram uma única vez, e o elevador começou a subir.
No visor apareceu:
14
Depois:
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Marcelo sentiu um frio no estômago. O celular não tinha sinal. Tentou forçar a porta, mas ela não cedeu.
Então o elevador parou.
Silêncio absoluto.
As portas se abriram lentamente.
Do outro lado havia um corredor antigo, iluminado por lâmpadas amareladas. O carpete estava gasto, e todas as portas dos apartamentos estavam abertas.
De cada uma delas vinha o som de uma televisão ligada.
Marcelo deu um passo para trás.
Uma voz metálica saiu do alto-falante do elevador:
— Morador Marcelo, seu apartamento está pronto.
Ele nunca tinha estado ali.
Mesmo assim, no fim do corredor havia uma porta com o número 1208, exatamente o número do seu apartamento.
Ela estava entreaberta.
Lá de dentro vinha a voz da sua esposa.
— Marcelo? Você demorou... O jantar está esfriando.
Ela havia morrido em um acidente de carro havia três anos.
As lágrimas vieram antes que ele pudesse pensar.
Correu até a porta e entrou.
O apartamento era igual ao seu. Cada móvel. Cada fotografia. Cada detalhe.
Sua esposa sorriu.
— Eu sabia que você voltaria.
Ela o abraçou.
O abraço estava gelado.
Gelado demais.
Quando Marcelo tentou se afastar, percebeu que ela o segurava com uma força impossível.
Ela levantou a cabeça devagar.
Os olhos eram completamente negros.
E o sorriso crescia além do que um rosto humano deveria permitir.
Agora é você quem mora aqui.
A porta bateu.
As luzes se apagaram.
Na manhã seguinte, os moradores do prédio encontraram o elevador parado no térreo.
Vazio.
A única coisa estranha era o painel.
Pela primeira vez desde que o prédio fora construído, havia um novo botão.
Na administração do prédio, ninguém conseguiu explicar o surgimento do novo botão.
O síndico jurava que ele nunca estivera ali.
O técnico da manutenção abriu o painel do elevador. Todos os fios pareciam antigos, cobertos de poeira, como se aquele botão tivesse sido instalado junto com o resto, décadas antes.
— Deve ser algum erro de fabricação... — murmurou.
Apertou o 13.
O elevador não se moveu.
Tentou novamente.
Nada.
— Tá vendo? Nem funciona.
Naquela mesma noite, porém, uma moradora chamada Helena entrou sozinha no elevador, voltando do trabalho.
Ela apertou o 8º andar.
As portas fecharam.
O elevador subiu normalmente.
2...
4...
6...
8...
As portas não abriram.
Em vez disso, o visor mudou lentamente.
13
As luzes diminuíram.
Helena apertou todos os botões.
Nenhum respondeu.
Então ouviu uma voz atrás dela.
— Você também veio visitar alguém?
Ela se virou.
Havia um senhor de terno cinza, segurando um chapéu nas mãos.
Helena tinha certeza absoluta de que entrara sozinha.
— Quem é o senhor?
Ele sorriu com tristeza.
— Eu moro aqui desde 1987.
— Mas... esse andar não existe.
— Para vocês, não.
As portas se abriram.
O mesmo corredor.
As mesmas televisões ligadas.
Mas agora havia pessoas caminhando lentamente pelos corredores.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Todos pareciam moradores comuns... exceto por um detalhe.
Nenhum deles piscava.
Todos olhavam diretamente para Helena.
Ao fundo, ela reconheceu um rosto.
Marcelo.
Ele caminhava devagar, vestindo as mesmas roupas da noite em que desapareceu.
Seu rosto estava pálido.
Os olhos completamente negros.
Mas havia algo pior.
Ele ainda parecia consciente.
As lágrimas escorriam enquanto seu corpo continuava andando, como se fosse controlado por alguém invisível.
Quando passou por Helena, sussurrou quase sem mover os lábios:
— Não escute as vozes... Não aceite convite nenhum... E nunca olhe pela janela.
Helena congelou.
Janela?
Ela nem havia percebido que, no fim do corredor, existia uma enorme janela.
Lá fora não havia cidade.
Nem céu.
Nem estrelas.
Havia apenas uma escuridão infinita.
Então alguma coisa naquela escuridão abriu os olhos.
Dois.
Depois quatro.
Depois dezenas.
Todos enormes.
Todos olhando para dentro do prédio.
As televisões desligaram ao mesmo tempo.
Um silêncio pesado tomou conta do corredor.
E uma voz, tão profunda que parecia vir das paredes, do chão e do próprio elevador, ecoou:
— Eles perceberam que vocês podem nos ver.
As luzes se apagaram.
Quando voltaram, o corredor estava vazio.
Exceto por uma única porta.
Na placa de metal lia-se:
1209
Abaixo, em letras recém-gravadas:
"Reservado para Helena."
Helena recuou um passo.
A placa ainda brilhava, como se tivesse acabado de ser parafusada na porta.
Seu nome estava gravado em baixo-relevo.
Ela estendeu a mão para tocar na maçaneta, mas lembrou do aviso de Marcelo.
"Não aceite convite nenhum."
Então percebeu.
Ninguém havia mandado que ela entrasse.
A porta, por si só, era um convite.
Ela virou as costas e correu em direção ao elevador.
Atrás dela, todas as portas dos apartamentos começaram a bater ao mesmo tempo.
Uma.
Depois outra.
E outra.
BANG.
BANG.
BANG.
Como um dominó de madeira ecoando pelo corredor.
Ela não olhou para trás.
Quando chegou ao elevador, as portas já estavam se fechando.
Uma mão saiu da fresta.
Era a de Marcelo.
Ele segurava a porta com um esforço enorme.
Pela primeira vez, seus olhos voltaram ao normal.
— Depressa!
Helena entrou.
Assim que as portas se fecharam, algo bateu do lado de fora.
Uma pancada tão forte que amassou o metal.
Depois outra.
E outra.
O elevador começou a descer em alta velocidade.
O visor mostrava números impossíveis.
11... 7... 2... 0... -3... -9...
As luzes apagaram.
Na escuridão, Marcelo falou baixinho:
— Escute. Não temos muito tempo.
— O que é esse lugar?
— É um andar que não foi construído com concreto.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Todo prédio guarda lembranças. Risadas. Brigas. Medos. Mortes. Com o tempo, algumas lembranças criam um lugar próprio. Um espaço entre os andares... alimentado por quem desaparece sem explicação.
— Então vocês estão mortos?
Marcelo demorou a responder.
— Alguns, sim. Outros... só ainda não perceberam.
O elevador parou com um tranco.
As portas se abriram para o saguão do prédio.
Tudo parecia normal.
O porteiro lia um jornal.
Uma criança brincava perto da entrada.
A chuva caía lá fora.
Helena saiu correndo.
Antes que as portas se fechassem, olhou para Marcelo.
— Venha!
Ele sorriu pela primeira vez.
Era um sorriso triste.
— Eu não posso.
As portas se fecharam.
O elevador subiu sozinho.
No visor, antes de desaparecer, apareceu apenas um número.
13.
Nos dias seguintes, Helena tentou esquecer.
Mudou de apartamento.
Mudou de bairro.
Trocou de emprego.
Mas, toda noite, às 3h13, acordava com o mesmo som.
Ding.
Como o aviso de um elevador chegando ao andar.
Até que, numa madrugada, ouviu três batidas na porta.
Toc. Toc. Toc.
Pelo olho mágico, não havia ninguém.
Quando abriu a porta, encontrou apenas um envelope envelhecido.
Dentro havia uma fotografia em preto e branco.
Era o prédio.
Datada de 1954, antes mesmo de sua inauguração oficial.
Na foto, dezenas de operários posavam para a câmera.
No centro, um homem usava um capacete de engenheiro.
No verso da fotografia, alguém escrevera à mão:
"A obra nunca terminou. Eles apenas construíram por cima."
Helena virou a foto novamente.
Seu coração parou por um instante.
Entre os operários, quase escondido na última fileira, havia um rosto que ela conhecia muito bem.
Era Marcelo.
Usando roupas dos anos 1950.
Sorrindo para a câmera.
Como se estivesse esperando por ela havia mais de setenta anos.