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ENTRE SOMBRAS E PECADOS

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CAPÍTULO 10 — A PRIMEIRA MENTIRA

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CAPÍTULO 10 — A PRIMEIRA MENTIRA

A antiga estação ferroviária de Blackwood estava abandonada havia quase quinze anos.

Os trilhos já não eram utilizados.

As plataformas estavam tomadas pelo mato.

As placas enferrujadas mal conseguiam ser lidas.

Durante o dia, crianças da região evitavam passar por ali.

Durante a noite, ninguém passava.

Existiam histórias.

Algumas diziam que pessoas desaparecidas haviam sido vistas naquela região.

Outras falavam sobre veículos que chegavam de madrugada e saíam antes do amanhecer.

Mas a maioria dos moradores simplesmente dizia que a estação estava amaldiçoada.

Yasmin nunca acreditou em histórias de fantasmas.

Agora, porém, estava começando a acreditar em algo muito pior.

Pessoas.

Pessoas que escondiam coisas.

Pessoas que mentiam.

Pessoas que estavam dispostas a fazer qualquer coisa para manter determinados segredos enterrados.

Ela estava sentada no banco do passageiro enquanto Liam dirigia.

Nenhum dos dois havia falado muito durante o caminho.

A chave B-17 permanecia no bolso do casaco dele.

Yasmin olhava pela janela.

As luzes da cidade foram ficando para trás.

As ruas movimentadas desapareceram.

Os prédios deram lugar a terrenos vazios.

Então, finalmente, a estação surgiu.

Escura.

Abandonada.

Silenciosa.

Liam estacionou o carro.

Desligou o motor.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu.

— Você pode voltar — disse ele.

Yasmin virou o rosto.

— Não.

— Yasmin.

— Você já tentou me afastar várias vezes.

— E continuo achando que deveria.

— Então por que me trouxe?

Liam olhou para frente.

— Porque você viria sozinha.

Ela sorriu de leve.

— Você me conhece bem demais.

— Conheço.

O silêncio voltou.

Yasmin abriu a porta.

— Vamos.

Liam segurou seu braço.

— Se alguma coisa acontecer, você corre.

— E você?

— Eu fico.

— Não.

Ela retirou o braço lentamente.

— Se alguma coisa acontecer, nós dois saímos.

Liam ficou olhando para ela.

Havia algo naquela frase que o fazia lembrar da infância.

Nós dois.

Sempre aquela expressão.

Sempre os dois.

Talvez fosse justamente isso que o passado estava tentando devolver.

Ou destruir.

---

A ESTAÇÃO

Os dois atravessaram os portões enferrujados.

O barulho do metal ecoou pela noite.

Yasmin olhou para o prédio principal.

— Você já esteve aqui?

— Quando era criança.

— Com sua mãe?

Liam assentiu.

— Algumas vezes.

— Você lembra?

— De algumas coisas.

— Como o quê?

Ele olhou para a plataforma.

— Ela gostava de me trazer aqui quando queria ficar longe de casa.

— Por quê?

— Porque meu pai não gostava que ela me levasse para determinados lugares.

Yasmin franziu a testa.

— Seu pai controlava até onde vocês iam?

— Meu pai controlava tudo.

Ele caminhou alguns passos.

— Inclusive minha mãe.

Yasmin percebeu a tensão na voz dele.

— Ela tinha medo dele?

Liam demorou para responder.

— Não no começo.

— E depois?

— Depois aprendeu.

Yasmin sentiu um arrepio.

Não perguntou mais.

Entraram na estação.

O cheiro de madeira velha e umidade tomou o ambiente.

Liam acendeu a lanterna.

Os bancos antigos estavam cobertos de poeira.

Havia cartazes rasgados nas paredes.

Uma máquina de venda quebrada.

Um relógio parado.

02:17.

Yasmin olhou para ele.

— Por que está parado nesse horário?

— Não sei.

Liam continuou andando.

Mas, quando passou pelo relógio, seu rosto mudou.

Yasmin percebeu.

— O que foi?

— Nada.

— Você fez aquela cara.

— Que cara?

— A cara que você faz quando lembra de alguma coisa que não quer contar.

Liam sorriu de canto.

— Você ainda me conhece.

— Talvez mais do que você gostaria.

Ele continuou andando.

Mas Yasmin percebeu que ele estava inquieto.

---

O CORREDOR

Encontraram uma porta lateral.

A pintura estava descascada.

No centro havia uma pequena placa:

ACESSO RESTRITO

Liam tentou abrir.

Trancada.

Ele tirou a chave B-17.

Yasmin ficou olhando.

— Essa chave abre isso?

— Não sei.

Ele colocou na fechadura.

Girou.

Clique.

A porta abriu.

Os dois se entreolharam.

— Parece que sua mãe gostava de esconder coisas — comentou Yasmin.

Liam entrou primeiro.

— Ela gostava de descobrir coisas.

— E foi isso que matou ela?

Ele parou.

— Talvez.

Yasmin entrou atrás.

O corredor era estreito.

Havia portas dos dois lados.

Algumas abertas.

Outras trancadas.

No final, encontraram uma escada que levava para baixo.

Liam iluminou os degraus.

— É por aqui.

— Você tem certeza?

— Não.

— Ótimo.

Ele olhou para ela.

— Está com medo?

Yasmin respirou fundo.

— Sim.

— Eu também.

Ela sorriu.

— Você acabou de admitir isso?

— Não se acostume.

---

O QUARTO B-17

O corredor subterrâneo era diferente.

As paredes eram de concreto.

Não havia janelas.

O ar era frio.

Depois de alguns metros, encontraram uma porta.

Na placa:

B-17

Yasmin ficou imóvel.

— É aqui.

Liam colocou a mão na maçaneta.

Parou.

— O que foi? — perguntou ela.

— Eu conheço essa porta.

— Você nunca esteve aqui?

— Estive.

Yasmin franziu a testa.

— Quando?

Liam fechou os olhos.

Uma lembrança veio.

Ele tinha oito anos.

Estava segurando a mão da mãe.

Ela estava chorando.

— Liam, você precisa me prometer uma coisa.

— O quê?

— Se algum dia alguém perguntar sobre este lugar...

Ela se ajoelhou diante dele.

— Diga que nunca esteve aqui.

— Mas eu estive.

— Eu sei.

Ela passou a mão no cabelo dele.

— É por isso que você precisa esquecer.

A lembrança desapareceu.

Liam abriu os olhos.

Yasmin estava diante dele.

— Liam?

Ele olhou para a porta.

— Minha mãe me trouxe aqui.

— E o que aconteceu?

— Ela pediu para eu esquecer.

Yasmin ficou em silêncio.

— Você conseguiu?

Ele soltou uma pequena risada amarga.

— Até hoje.

---

A PRIMEIRA MENTIRA

A porta abriu.

O quarto estava vazio.

Quase.

Havia uma mesa.

Uma cadeira.

Um armário.

E dezenas de caixas.

Yasmin caminhou lentamente.

— Isso parece um arquivo.

Liam abriu uma das caixas.

Documentos.

Fotografias.

Relatórios.

Ele começou a procurar.

Yasmin observava.

— O que estamos procurando?

— Não sei.

— Você tem alguma ideia?

— Minha mãe escondia coisas aqui.

— Que tipo de coisas?

— Provas.

Yasmin pegou uma fotografia.

Era antiga.

Nela apareciam quatro pessoas.

O pai de Liam.

A mãe de Liam.

O pai de Yasmin.

E uma mulher que ela não reconhecia.

— Quem é ela?

Liam pegou a fotografia.

Seu rosto mudou.

— Não sei.

Yasmin olhou para ele.

— Você conhece.

— Não.

— Liam.

— Eu disse que não conheço.

Ela pegou a fotografia de volta.

— Essa é a primeira mentira.

Ele ficou imóvel.

— O quê?

— Você sabe quem ela é.

Liam não respondeu.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Quando alguma coisa chega perto demais da verdade, você muda.

Ele desviou o olhar.

— Não quero falar sobre ela.

— Então você sabe.

Liam respirou fundo.

— Eu lembro dela.

Yasmin esperou.

— Ela trabalhava para minha família.

— Qual era o nome?

Ele ficou em silêncio.

— Liam.

— Helena.

— Helena o quê?

— Helena Hale.

Yasmin repetiu mentalmente.

— Hale...

Liam guardou a fotografia.

— Vamos embora.

— Não.

— Yasmin.

— Você me trouxe aqui.

— E estou dizendo que acabou.

— Não acabou.

Ela apontou para as caixas.

— Está tudo aqui.

Liam ficou sério.

— Você não entende.

— Então explica!

A voz dela ecoou pelo quarto.

Liam fechou os olhos.

— Helena Hale era a única pessoa em quem minha mãe confiava.

— E o que aconteceu com ela?

— Desapareceu.

Yasmin sentiu um arrepio.

— Como sua mãe.

— Sim.

---

O ARQUIVO

Eles continuaram procurando.

Depois de alguns minutos, Yasmin encontrou uma pasta.

Na capa estava escrito:

PROJETO BLACKWOOD

Liam ficou imóvel.

— Não abra.

Ela olhou para ele.

— Por quê?

— Porque ainda não sabemos quem colocou isso aqui.

— Sua mãe?

— Talvez.

Yasmin abriu.

A primeira página continha uma lista de nomes.

Alguns conhecidos.

Outros desconhecidos.

E, no final, duas palavras:

ALMEIDA — ENVOLVIDOS

Yasmin sentiu o estômago revirar.

— Minha família.

Liam assentiu.

— Sim.

Ela virou outra página.

Havia uma fotografia.

Sua mãe.

Mais jovem.

Conversando com a mãe de Liam.

As duas pareciam preocupadas.

No verso:

"Se alguma coisa acontecer conosco, as crianças não podem saber."

Yasmin levou a mão à boca.

— Crianças...

Liam aproximou-se.

— Nós.

Ela virou outra página.

Uma folha estava parcialmente queimada.

Restavam apenas algumas palavras:

"A criança não é apenas uma testemunha..."

O restante estava destruído.

— A criança? — Yasmin perguntou.

Liam ficou olhando.

— Qual criança?

— Não sei.

Ela virou a página seguinte.

Vazia.

Depois outra.

Vazia.

Então encontraram um envelope.

Com o nome:

LIAM BLACKWOOD

Ele não tocou.

— É para você.

— Eu sei.

— Abra.

— Não.

Yasmin olhou para ele.

— Por quê?

— Porque minha mãe nunca escrevia meu nome em documentos.

— Então quem escreveu?

Liam não respondeu.

Yasmin pegou o envelope.

— Se você não abrir, eu vou.

Ele segurou a mão dela.

— Não.

Os dois ficaram próximos.

O silêncio entre eles mudou.

Yasmin olhou para os olhos dele.

— Você está com medo.

Liam respondeu baixo:

— Estou.

— Do que tem aí dentro?

— Do que pode estar.

Ela soltou o envelope.

— Então abrimos juntos.

Liam olhou para ela.

Dessa vez, não discutiu.

Abriu.

Dentro havia uma única folha.

A letra era feminina.

Liam reconheceu.

Sua mãe.

Ele começou a ler.

Mas parou na primeira linha.

Yasmin percebeu.

— O que está escrito?

Liam entregou.

Ela leu.

"Se meu filho encontrou esta carta, significa que eu falhei em mantê-lo longe da verdade."

Yasmin continuou.

"Liam, se você estiver lendo isso, não confie em seu pai."

Ela olhou para ele.

— Continue.

A próxima frase dizia:

"Mas também não confie em mim."

Liam ficou imóvel.

Yasmin sentiu o coração acelerar.

A carta continuava:

"Eu fiz coisas das quais me arrependo. Coisas que você jamais entenderia quando criança. Eu tentei proteger você, mas para isso precisei mentir."

Yasmin olhou para Liam.

Ele parecia incapaz de respirar.

Ela continuou.

"A noite em que você acredita que me viu pela última vez não foi a noite em que eu desapareci."

Silêncio.

Liam tomou a carta das mãos dela.

Leu novamente.

— Isso não faz sentido.

— O que significa?

— Eu vi minha mãe naquela noite.

— Então ela estava lá.

— Não.

Ele balançou a cabeça.

— Se ela está dizendo que aquela não foi a noite em que desapareceu...

Ele parou.

Yasmin terminou:

— Então você viu ela depois.

Liam olhou para ela.

— Ou antes.

---

A MEMÓRIA DE YASMIN

Yasmin começou a sentir dor de cabeça.

Uma lembrança surgiu.

Ela tinha sete anos.

Estava naquele mesmo lugar.

Segurando a mão de Liam.

Sua mãe estava discutindo com alguém.

A voz era masculina.

— Vocês prometeram que não envolveriam as crianças.

Outra voz.

A mãe de Liam.

— Eles já estão envolvidos.

Yasmin ouviu seu próprio nome.

— Yasmin não pode saber.

Depois Liam apareceu.

— Mãe?

As duas mulheres ficaram em silêncio.

A mãe de Yasmin segurou sua mão.

— Vamos embora.

Yasmin criança olhou para Liam.

— A gente vai voltar amanhã?

Liam respondeu:

— Prometo.

A lembrança terminou.

Yasmin abriu os olhos.

Estava chorando.

Liam percebeu.

— O que aconteceu?

— Eu lembrei.

— Do quê?

Ela contou.

Liam ficou pálido.

— Você esteve aqui.

— Sim.

— Com nossas mães.

— Sim.

Ele começou a andar pelo quarto.

— Então você também esqueceu.

— Eu não sabia que era uma lembrança.

Liam passou as mãos pelo cabelo.

— Eles fizeram isso com nós dois.

— Quem?

— Não sei.

Ele olhou para a pasta.

— Mas alguém queria que esquecêssemos.

---

O SEGUNDO DOCUMENTO

Yasmin procurou mais.

Encontrou um pequeno gravador antigo.

Colocou sobre a mesa.

— Você acha que funciona?

— Não sei.

Ela apertou o botão.

Primeiro veio apenas chiado.

Depois uma voz.

A voz da mãe de Liam.

— Se alguém estiver ouvindo isso, significa que o plano falhou.

Yasmin e Liam se entreolharam.

A gravação continuou.

— Não confiem nos Blackwood.

Pausa.

— Não confiem nos Almeida.

Outra pausa.

— E, principalmente...

A voz ficou mais baixa.

— Não confiem na pessoa que está tentando proteger vocês.

A gravação terminou.

Yasmin ficou arrepiada.

— Isso não ajudou em nada.

Liam olhou para ela.

— Ajudou.

— Como?

— Agora sabemos que nossas famílias não eram apenas inimigas.

— Eram cúmplices.

— Sim.

— E depois traíram umas às outras.

Liam assentiu.

— Exatamente.

---

O SOM

Um barulho veio do corredor.

Os dois congelaram.

Passos.

Lentos.

Alguém estava caminhando do lado de fora.

Liam apagou a lanterna.

Segurou Yasmin pela mão e a puxou para trás de uma estante.

Os passos se aproximaram.

Yasmin respirava rápido.

Liam colocou um dedo sobre os lábios.

A maçaneta começou a girar.

Devagar.

A porta abriu.

Uma sombra entrou.

Yasmin fechou os olhos.

Liam observava.

A pessoa caminhou até a mesa.

Pegou a pasta.

Virou algumas páginas.

Então parou.

— Vocês não deveriam ter encontrado isso.

A voz era masculina.

Liam saiu de trás da estante.

— Quem é você?

O homem virou.

Mas antes que Liam pudesse alcançá-lo, ele correu.

Liam foi atrás.

Yasmin o seguiu.

O corredor parecia interminável.

O homem subiu as escadas.

Liam quase o alcançou.

Mas ele desapareceu pela saída lateral.

Quando Liam chegou do lado de fora, encontrou apenas um carro preto se afastando.

Ele voltou.

Yasmin estava na entrada.

— Quem era?

— Não sei.

— Você viu o rosto?

— Não.

Ela olhou para a mão dele.

Liam segurava alguma coisa.

— O que é isso?

Ele abriu a mão.

Um botão preto.

— Ele deixou cair.

Yasmin pegou.

Havia uma pequena gravação no metal.

H.

Ela olhou para Liam.

— Hale?

Ele não respondeu.

---

O RETORNO

No caminho de volta, nenhum dos dois falou.

Quando chegaram à cidade, Yasmin percebeu que Liam estava dirigindo rápido demais.

— Diminui.

Ele não respondeu.

— Liam.

Nada.

— Você está me assustando.

Ele reduziu.

— Desculpa.

— Você está pensando nela.

— Na minha mãe.

— Sim.

— Sim.

Yasmin olhou para a estrada.

— Você acha que ela está viva?

Liam apertou o volante.

— Não sei.

— E se estiver?

Ele demorou.

— Eu não sei se quero encontrar ela.

Yasmin virou-se para ele.

— Por quê?

— Porque durante quinze anos eu sonhei com esse momento.

— E agora?

— Agora eu descobri que talvez a pessoa que eu procurei durante toda minha vida seja uma das pessoas que mais mentiu para mim.

Yasmin colocou a mão sobre a dele.

Liam olhou para os dedos dela.

Não afastou.

— Você não precisa decidir hoje.

Ele assentiu.

— Obrigado.

---

A CASA DE YASMIN

Quando chegou em casa, Yasmin encontrou a mãe na cozinha.

Ela parou ao ver a filha.

— Onde você estava?

— Com Aurora.

A mentira saiu naturalmente.

Sua mãe continuou olhando.

— Tem certeza?

— Sim.

Ela percebeu algo no rosto da filha.

— Você está pálida.

— Estou cansada.

— Yasmin.

— Estou bem.

Sua mãe ficou em silêncio.

Yasmin passou por ela.

Antes de subir, perguntou:

— Mãe?

— Sim?

Ela se virou.

— Você conhece uma mulher chamada Helena Hale?

A expressão da mãe mudou.

Foi rápido.

Mas Yasmin percebeu.

O rosto perdeu a cor.

Os olhos ficaram assustados.

— Por que está perguntando isso?

Yasmin sentiu o coração acelerar.

— Conhece?

— Não.

Uma resposta rápida demais.

Uma resposta ensaiada.

Yasmin subiu.

Entrou no quarto.

Fechou a porta.

Encostou-se nela.

Sua mãe havia mentido.

E aquela era apenas a primeira mentira que Yasmin conseguia provar.

---

O QUARTO DE LIAM

Naquela mesma noite, Liam entrou em seu quarto.

Colocou a fotografia sobre a mesa.

A imagem de sua mãe.

Seu pai.

O pai de Yasmin.

Helena Hale.

Ele ficou olhando.

Então percebeu algo no fundo.

Uma criança.

Pequena.

Quase escondida atrás de sua mãe.

Liam pegou uma lupa.

Seu coração disparou.

Era ele.

Mas havia outra criança ao lado.

Yasmin.

E entre os dois...

uma caixa.

A mesma caixa que ele havia encontrado no quarto B-17.

Liam abriu o celular e fotografou a imagem.

Então recebeu uma mensagem.

Número desconhecido.

"Você não deveria ter ido à estação."

Outra mensagem chegou.

"Agora ela vai lembrar."

Liam ficou imóvel.

Mais uma.

"E quando Yasmin lembrar de tudo, você vai descobrir por que sua mãe desapareceu."

Ele digitou:

"Quem é você?"

A resposta veio imediatamente.

"Alguém que estava lá naquela noite."

Liam ficou olhando para a tela.

Então chegou a última mensagem.

"E você também estava."

Ele largou o celular.

Porque, pela primeira vez, percebeu algo que nunca havia considerado.

Talvez sua infância não tivesse sido apenas uma lembrança.

Talvez tivesse sido uma cena de crime.

E talvez ele e Yasmin não fossem apenas duas crianças que testemunharam alguma coisa.

Talvez fossem parte dela.

Liam olhou pela janela.

A cidade estava silenciosa.

Mas ele sabia que alguém estava observando.

E, em algum lugar de Blackwood, alguém acabara de perceber que os dois começaram a lembrar.

A primeira mentira havia sido descoberta.

Mas Liam sabia que aquela não seria a última.

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