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E se eu fosse

Dudaah

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E se eu fosse o tempo

que te falta nos dias corridos?

E se tu fosses a pausa

que meu coração procura

entre tantos caminhos perdidos?

E se a vida tivesse nos escrito

em páginas de um mesmo destino,

mas esquecido de combinar os horários

dos nossos passos,

dos nossos sonhos,

dos nossos desatinos?

Um de nós vive na pressa,

o outro talvez viva na espera.

Um tem o mundo inteiro nas mãos,

o outro guarda um mundo

na esperança de que alguém o queira.

E eu me pergunto:

e se eu fosse o amor que ficou distante?

Aquele que a saudade alimenta,

que a imaginação mantém vivo,

mas que a realidade adia a cada instante?

E se eu fosse o amor que chegou tão perto?

Aquele que já não precisa de estradas,

nem de quilômetros vencidos,

mas que ainda encontra portas fechadas

e palavras presas

nos intervalos dos dias vividos?

Porque eu estava tão longe…

e agora estou tão perto.

Antes, havia quilômetros

separando o meu corpo do teu.

Hoje, talvez, bastasse um passo,

um instante,

um pouco de tempo que não fosse

roubado pelo relógio.

Mas que ironia a vida nos reserva:

eu atravessei distâncias

que meus pés podiam medir,

e agora, diante de ti,

existe uma parede

que minhas mãos não sabem abrir.

E que parede é essa

que não tem tijolos,

não tem portas,

não tem sequer um lugar por onde entrar?

Talvez seja a correria de quem não consegue parar.

Talvez seja o medo de quem sente demais.

Talvez sejam duas vidas tão ocupadas

tentando encontrar um amor

nos poucos minutos que sobram

depois de tudo o que a vida faz.

E se eu fosse diferente?

E se tu tivesses outro tempo?

E se o mundo nos deixasse, por um instante,

existir sem tantos compromissos,

sem tantas obrigações,

sem precisarmos disputar com a vida

o direito de sentir com o coração?

Mas há algo que me dói pensar:

às vezes, a gente imagina que a distância

é o maior obstáculo para amar,

até chegar perto o bastante

para descobrir que estar junto

não significa conseguir se encontrar.

Porque o longe pode ser apenas um mapa,

mas o perto…

o perto pode ser um universo inteiro

entre dois olhos que se veem

e dois corações que não conseguem

se alcançar por completo.

E se eu fosse o amor certo

na hora errada?

E se tu fosses a resposta

de uma pergunta que a vida

ainda não terminou de fazer?

E se não nos faltasse sentimento,

mas espaço?

Não nos faltasse vontade,

mas tempo?

Não nos faltasse o caminho,

mas coragem para interromper o mundo

e caminhar um ao encontro do outro?

No fim, talvez seja isso

que ninguém nos ensina sobre o amor:

nem sempre é preciso vencer quilômetros

para chegar a alguém.

Às vezes, o mais difícil

é atravessar os poucos metros

que separam dois corpos

e a imensidão que separa duas vidas.

Eu estava tão longe…

e agora estou tão perto.

Mas ainda há uma parede.

E talvez a pergunta nunca tenha sido

se eu conseguiria chegar até ti.

Talvez a pergunta seja:

e se eu já tivesse chegado…

mas ainda não tivesse encontrado

um lugar na tua vida

onde o meu amor pudesse ficar?

Thoughts

  • luluca

    Égua, mas essa parede tem dono. O poema põe a culpa na correria e no relógio, e eu fico desconfiada que o outro lado sabe muito bem onde fica a porta.

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  • Gal

    Quem fala atravessou os quilômetros, e o poema começa de verdade na chegada, diante da parede sem tijolo nem porta. Pra mim é um poema de mudança mais do que de amor: quem se muda pra perto de alguém descobre que a vida do outro já estava toda arrumada antes, sem um canto livre.

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E se eu fosse o tempo

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