Um avião passava por aquele pedaço de céu tão distante que nem notava uma cidadezinha lá embaixo, tampouco os três meninos que passavam pela estradinha que beirava o rio Cobra. O mais pequenininho estranhava a pequenez da máquina:
— Naquele avião cabe gente?
O maior disse que era porque estava muito longe — Mas tem de tudo que é tamanho.
O do meio sabia de tudo porque tinha uma parabólica em casa:
— Tem uns que cabe só duas pessoas.
— Aquele é desses?
— Certeza que não. Senão, não subia esse tanto.
O objeto mal identificado sumiu por detrás duma nuvem escura, escura, como se já estivesse anoitecendo. O maior ficou olhando, adivinhando o tempo:
— Vai cair muita água hoje.
— Num calor desses?
— Como que o avião faz pra passar pela nuvem? — O mais novinho não arredava o pensamento da aeronave — Se der um relâmpago, derruba ele!
Nem o maior nem o do meio sabiam responder, isso não passava na televisão. Ficaram calados pra ver se a máquina saía por cima ou caía por baixo da enorme ninbus, que trovejava furiosa, por certo mastigando a tal aeronave.
Como nada se decidia a acontecer, o maior deu a melhor ideia de todas:
— Se chover a gente toma banho!
E correram exultantes, nem viram o avião sair do outro lado.