Corpo de Sangue
Menstruação.
É corpo.
É pele.
É órgão.
Útero. Vagina.
Ela desespera.
Sangramento.
É faca.
É suicídio.
Algo em mim sangra a própria vida,
mutila o meu próprio útero.
Ele me mata,
ou eu mato ele.
Tanto sangramento.
Quase uma hemorragia.
Não há panos
que detenham tanto sangue.
Nem o próprio bisturi
conseguiria costurar
tanto sangue.
Há algo em minhas mãos,
algo dentro de algo.
Um órgão que mata.
A cada trinta dias,
algo tão pequeno,
capaz de dar prazer,
também enlouquece.
Quero que pare.
Que pare de sangrar.
Quero minha própria morte
para não sentir dor.
Imagine:
algo que gera alguém.
Alguém gerado pelo sangue.
No sangue, o fruto explode,
desce, escorre.
Algo que jorra.
A única saída para parar
é desfigurar a própria barriga.
Tirar algo de dentro
para deixar de sentir a dor.
Mas, quando se liberta,
vê-se o órgão nas mãos.
Você olha.
Ele irrita.
Ele dói.
Você cai ao lado
do próprio órgão.
As mãos sangram,
a vagina escorre.
Sangue.
Violência.
Um órgão
que mata dia após dia.
Mas, exatamente
a cada trinta dias,
o corpo desfalece.
Peço a morte,
porque não suporto a dor.
Apenas quero que passe.
Se for preciso matar a dor,
então acabo por matar a mim mesma,
apenas para não senti-la.
Talvez nunca compreendam
que essa dor é real.
Porque Eva recebeu uma vagina,
eu tive que morrer por ela.
O tempo passa.
O sangue volta.
Mas a dor
sempre retorna
a cada trinta dias.
É um órgão
de que não necessito
para continuar viva.
Quero arrancá-lo
com minhas próprias mãos.
Desfaleço em sangue.
Nos lençóis brancos,
ela foi assassinada
pelo próprio útero.
Quero tirar a vida.
Já não há mais vida.
Nos lençóis,
há apenas sangue.
O sangue cobre a cama,
cobre o corpo.
Corpo frio.
Corpo gelado.
Jorra até a morte.
Ele só precisa ser sepultado.
Mas antes,
o sangue precisa ser limpo.
O sangue
precisa ser cremado.
Ana Cristina Poronhak de Carvalho