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corpo de sangue!! mestrução cão

ANAPORONHAK
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Corpo de Sangue

Conteúdo da publicação

Corpo de Sangue

Menstruação.
É corpo.
É pele.
É órgão.
Útero. Vagina.
Ela desespera.

Sangramento.

É faca.
É suicídio.
Algo em mim sangra a própria vida,
mutila o meu próprio útero.

Ele me mata,
ou eu mato ele.

Tanto sangramento.
Quase uma hemorragia.
Não há panos
que detenham tanto sangue.

Nem o próprio bisturi
conseguiria costurar
tanto sangue.

Há algo em minhas mãos,
algo dentro de algo.
Um órgão que mata.

A cada trinta dias,
algo tão pequeno,
capaz de dar prazer,
também enlouquece.

Quero que pare.
Que pare de sangrar.
Quero minha própria morte
para não sentir dor.

Imagine:
algo que gera alguém.

Alguém gerado pelo sangue.
No sangue, o fruto explode,
desce, escorre.

Algo que jorra.

A única saída para parar
é desfigurar a própria barriga.

Tirar algo de dentro
para deixar de sentir a dor.

Mas, quando se liberta,
vê-se o órgão nas mãos.

Você olha.

Ele irrita.
Ele dói.

Você cai ao lado
do próprio órgão.

As mãos sangram,
a vagina escorre.

Sangue.
Violência.

Um órgão
que mata dia após dia.

Mas, exatamente
a cada trinta dias,
o corpo desfalece.

Peço a morte,
porque não suporto a dor.

Apenas quero que passe.

Se for preciso matar a dor,
então acabo por matar a mim mesma,
apenas para não senti-la.

Talvez nunca compreendam
que essa dor é real.

Porque Eva recebeu uma vagina,
eu tive que morrer por ela.

O tempo passa.
O sangue volta.

Mas a dor
sempre retorna
a cada trinta dias.

É um órgão
de que não necessito
para continuar viva.

Quero arrancá-lo
com minhas próprias mãos.

Desfaleço em sangue.

Nos lençóis brancos,
ela foi assassinada
pelo próprio útero.

Quero tirar a vida.

Já não há mais vida.

Nos lençóis,
há apenas sangue.

O sangue cobre a cama,
cobre o corpo.

Corpo frio.
Corpo gelado.

Jorra até a morte.

Ele só precisa ser sepultado.

Mas antes,
o sangue precisa ser limpo.

O sangue
precisa ser cremado.

Ana Cristina Poronhak de Carvalho

Thoughts

  • leituraDaNoite

    Os trinta dias voltando no texto, igual relógio, foi o que me segurou. Chega nos lençóis brancos, no corpo frio, e eu já sabia que o sangue ia voltar, e foi aí que entendi o tamanho da coisa. A frase da Eva me pegou desprevenida. E daqui, lendo, não teve exagero nenhum.

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