CENTENÁRIO DO SUL ENTREGA OBRA HISTÓRICA DE ÁGUA E ESGOTO
Fim de 12 anos de intermitência para 14,5 mil moradores; município passa a cumprir normas ambientais pela primeira vez
Na manhã desta sexta-feira (24), a Praça da Matriz de Centenário do Sul, no Norte Pioneiro paranaense, recebeu mais de 2 mil pessoas para a cerimônia de entrega da nova Usina de Tratamento de Água e Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do município. A obra, prometida em 2014 e paralisada por duas gestões consecutivas, é o maior investimento em infraestrutura básica da história da cidade de 14,7 mil habitantes, e põe fim a um problema que afetava 60% dos bairros há mais de uma década.
O fato
Com
investimento total de R$ 12,8 milhões — em parceria entre a prefeitura, o Governo do Paraná e a Sanepar — a nova estrutura tem capacidade para tratar 3,2 milhões de litros de água por dia e processar 100% do esgoto doméstico gerado na zona urbana. Antes da obra, 40% do esgoto era lançado in natura no Rio Centenário, que abastece propriedades rurais de soja, milho e café na região, e o abastecimento de água sofria interrupções de até 3 dias seguidos durante as secas de agosto a outubro.
"Eu tenho 52 anos, moro na Vila Operária desde que nasci, e passei metade da minha vida acordando às 4h da manhã para encher baldes e galões. Hoje eu abri a torneira da cozinha, a água saiu forte e limpa, e eu chorei. Não é só água: é a minha dignidade de volta", disse a moradora Maria Silva, uma das lideranças do movimento de abaixo-assinados que pressionou três governos estaduais pela retomada da obra.
O prefeito Ademir Casagrande (PP) confirmou que o sistema já está em operação em todos os 22 bairros da cidade, e que a qualidade da água atende 120% dos parâmetros exigidos pelo Ministério da Saúde. "Essa obra não é de um governo, é de todo o povo de Centenário do Sul. Agora, além de acabar com o sofrimento da população, podemos atrair pequenas indústrias de processamento de grãos, que antes evitavam a cidade por causa da infraestrutura precária", explicou.
Dados da Sanepar apontam que a obra deve gerar um aumento de até 18% no valor médio dos imóveis da zona urbana nos próximos dois anos, e reduzir em 35% os casos de doenças gastrointestinais atendidas no Hospital Municipal, que chegavam a 280 por mês durante as secas.
A água que lava nossa vergonha e nos leva a frente
Por Carlos Mendes, jornalista e morador de Centenário do Sul há 30 anos
Quem nasceu e cresceu no interior do Paraná sabe: o "progresso" que aparece nos telejornais quase nunca chega até aqui. Para as grandes capitais, Centenário do Sul é só um pontinho no mapa do Norte Pioneiro, mais uma cidade pequena que vive da soja e do café, cujos jovens saem todos os anos para estudar ou trabalhar em Londrina, Maringá ou Curitiba. Por 12 anos, esse abandono teve um rosto: as torneiras vazias das nossas casas.
Eu me lembro de quando era criança, minha mãe fazia fila no poço do vizinho durante as secas. Eu me lembro de ouvir os idosos dizerem que "a água é o primeiro sinal de que uma cidade é amada ou esquecida". Por muito tempo, nós fomos esquecidos. A obra foi prometida, parou, foi retomada, parou de novo. Os políticos passavam, os discursos mudavam, mas os baldes na cozinha continuavam lá.
Hoje, quando a água chegou forte em todas as torneiras, eu não vi só uma obra de engenharia. Eu vi a mãe que não precisa mais acordar antes do sol para pegar água. Eu vi o avô que não precisa mais carregar 20 litros pelas costas. Eu vi a criança que pode tomar banho todos os dias sem medo de faltar. Muitos dizem que progresso no interior é trator novo, soja cara ou loja de departamento grande. Eu digo: progresso é isso. É a dignidade que chega devagar, mas que quando chega, muda tudo.
Mas não podemos nos enganar: essa obra é o começo, não o fim. Agora que temos água de qualidade, precisamos lutar por mais: por uma escola técnica profissionalizante para os nossos jovens não terem que sair da cidade para ter futuro. Por estradas vicinais que não viram lama na chuva e não viram poeira na seca, para escoar a produção que é a nossa riqueza. Por um atendimento de saúde que não faça a gente viajar 80 quilômetros para fazer um exame simples.
Centenário do Sul foi construída por colonos italianos e alemães que chegaram aqui no século passado, limparam a mata com as próprias mãos, plantaram, criaram filhos e nunca desistiram. Essa obra é a continuação desse trabalho. Ela lava a vergonha de tantos anos de abandono, mas também nos lembra que o nosso futuro não vai cair do céu: ele vai ser construído por nós, com a mesma força que os nossos avós tiveram.
A água que agora chega às nossas torneiras não é só H₂O. É a promessa de que a nossa cidade não é um pontinho esquecido no mapa. É a certeza de que o nosso trabalho vale a pena. E é o aviso para todos os que vierem depois: Centenário do Sul não desiste nunca.