“A trombeta não anunciou a guerra. Anunciou o fim da infância.”
Ainda estava escuro quando o canto divino irrompeu.
O som cortou a madrugada como uma lâmina gelada. Mustafa acordou sobressaltado, o peito apertado. Sua mãe, Layla, já o puxava pelo braço com urgência desesperada.
— Levanta! Rápido, meu filho!
O pai, Sião, segurava o pesado martelo de ferreiro, os olhos arregalados de quem pressentia o fim. Os três correram pela rua estreita, com os pés descalços batendo contra as pedras frias. Gritos rasgavam a noite de todos os lados. Fumaça subia ao longe, densa e negra. O trovejar de cascos de cavalos aproximava-se, implacável.
Não foram longe.
No fim da viela, um grupo de homens surgiu das sombras. Cruzes vermelhas costuradas nas capas brancas reluziam mesmo na penumbra. Espadas e lanças brilhavam com intenção mortal. Layla tentou cobrir Mustafa com o corpo. Sião ergueu o martelo numa última defesa.
O primeiro golpe foi certeiro. A lâmina atravessou o pescoço do pai com um som úmido, horrendo. A cabeça de Sião separou-se do corpo e rolou lentamente pelas pedras, parando aos pés do menino. Os olhos ainda abertos fitavam o nada.
Layla soltou um grito que rasgou a alma. O segundo golpe desceu. O crânio partiu-se ao meio, e o cabelo escuro espalhou-se sobre a terra suja de sangue.
Mustafa olhou. Seus olhos permaneceram fixos, absorvendo cada detalhe com uma clareza cruel: o som molhado da carne rasgando, o jeito como a cabeça do pai quicou uma vez antes de parar, o cheiro quente e metálico do sangue misturado ao pó da rua. Tudo se gravou dentro dele como ferro em brasa.
Ele correu.
As pernas moveram-se sozinhas, o coração batendo tão forte que doía. Entrou no pátio onde brincara todos os dias da vida e se jogou atrás de um muro baixo de pedra. O corpo tremia inteiro. Abraçou os joelhos e tentou respirar sem fazer ruído.
Foi então que ergueu os olhos.
Do outro lado do pátio, no mesmo lugar onde haviam corrido e rido na véspera, estava Maya.
Ajoelhada no chão. O vestido claro sujo de terra e sangue alheio. Chorava baixinho, os ombros delicados tremendo, o olhar voltado para baixo. Um cruzado alto mantinha a espada erguida acima dela. A lâmina já trazia manchas vermelhas.
Maya não levantou a cabeça. Não olhou ao redor. Apenas chorava em silêncio, como se já soubesse que ninguém viria.
Mustafa ficou imóvel. Seus olhos não piscavam. Ele via tudo: a menina que fazia seu peito palpitar, o pátio onde brincavam de pega-pega, o sangue dos pais ainda quente na rua atrás de si.
A espada desceu.
Por um breve instante, os olhos de Maya, ainda abertos, voltaram-se na direção dele — vazios, surpresos, como se no último segundo ela tivesse procurado o amigo que sempre a fazia sorrir.
Mustafa não se mexeu. Não gritou. Não chorou.
Apenas observou. O sangue escorria devagar pela terra onde, no dia anterior, ecoavam risadas. O vestido claro tornara-se um trapo vermelho. O sorriso tímido que iluminava seu mundo agora era apenas uma boca aberta e imóvel.
O mundo girou.
As pernas fraquejaram. A visão escureceu. Mustafa sentiu o corpo cair para o lado, a cabeça batendo contra a pedra fria do muro. Tudo se apagou.
Quando acordou, o sol já estava alto.
Estava deitado no chão úmido de uma pequena casinha de pedra isolada. Não havia mais gritos. Não havia mais trombetas. Apenas o vento fraco batendo nas paredes grossas e o cheiro de mofo e terra molhada.
Sentou-se devagar. A cabeça latejava. O corpo tremia. Olhou ao redor: quatro paredes brutas, uma porta de madeira velha entreaberta, uma fresta no teto por onde entrava luz. Não reconhecia o lugar. Estava longe de tudo.
Tocou o rosto. Estava molhado — suor, sangue, lágrimas, talvez tudo junto.
As imagens voltaram com violência: A cabeça do pai rolando. O crânio da mãe partido. Os olhos de Maya buscando os seus no último instante.
Mustafa abraçou os joelhos e ficou ali, imóvel, olhando para o nada.
Pela primeira vez na vida, o menino que corria pelos becos e ria sem motivo sentiu algo novo crescer dentro do peito. Não era medo. Não era tristeza. Era algo mais quieto. Mais frio. Mais duro.
Era o começo de uma vontade que ainda não tinha nome.
Fora da casinha, o vento soprava fraco, carregando o eco distante daquela trombeta que, naquela madrugada, havia encerrado para sempre sua infância.