Zzz..., mais uma vez acordo, meu corpo todo dói, não consigo sequer me levantar, pouco tempo depois Bailys vem ao meu encontro.
-Que merda foi aquela? – Eu nunca o vi tão furioso.
-O que?
-Como assim “O que?”, você desaparece, volta todo machucado e começa a puxar briga com a porra do Kaiser, já não basta estar todo mundo assustado com essa ilha, agora você começa a agir como maluco, então eu quero que você me responda, o que aconteceu?
-Eu não sei, eu não estava pensando direito e... -Antes que eu pudesse terminar, Bailys me interrompe.
-Não estava pensando direito!!! Olha cara eu estou tentando ver o seu lado, então começa pela parte que você conseguiu esses machucados.
Então eu comecei a contar toda a história, desde Lira e Eddrin, até o coelho monstro, e a caverna com o desenho. -Eu sei que é muito maluco para acreditar, mas é a verdade, talvez tenha sido essa caverna que tenha feito eu ficar tão irritado, mas eu sei que ela fez alguma coisa, eu apanhei ontem mesmo, mas não sinto dor alguma, a cada segundo que passa eu me sinto mais forte. -
-Realmente é uma história muito maluca, mas eu confio em você, afinal nós somos amigos. – Ouvir essas palavras tirou um grande peso do meu corpo. -Mas, você tem que controlar as suas emoções, não dá para sair arrumando briga com todo mundo que te olha feio. –
-Eu sei, eu tenho que me desculpar com o Kaiser, mas antes eu quero que você me fale, como está o meu rosto, a cicatriz está muito feia? – Bailys me acompanha até o mar, e lá eu consigo ver o meu reflexo, aquele que eu vi não era eu, a voz do Kaiser dizendo aberração voltou na minha mente, como eu tinha sentido na caverna, o corte dividiu o meu rosto em duas metades, com o corte sendo inclinado, da parte superior direita do meu rosto, passando pelo meu nariz, e acabando na parte inferior direita. Eu não era a pessoa mais bonita do mundo, mas eu gostava da minha aparência, mas agora, tudo que eu consigo sentir é vergonha.
Escuto passos leves na areia vindo à minha direção, e noto como a minha audição está apurada, é a Soller, por quê? O que faria ela vir falar comigo depois de tanto tempo.
-Posso conversar com o Spes a sós? – Diz ela ao Bailys
-Claro, eu vou lá com o resto do grupo- Diz ele dando uma tapinha nas minhas costas.
-Você está bem? – pergunta ela claramente preocupada.
-E-estou sim, na verdade não estou sentindo nenhuma dor.
-Isso é bom, mas não é disso que eu estou falando, eu estou falando sobre as suas ações de ontem, você claramente não estava normal.
-Eu ainda não sei o que aconteceu ontem comigo, tem muitas coisas que não fazem sentido algum, mas eu estou tentando descobrir o que aconteceu.
-Do que você tá falando? O que aconteceu na floresta?
-É uma história muito longa.
-Bom, a única coisa que nós temos agora é tempo, então que tal você contar para mim, nós dois temos que por o papo em dia.
-Certo, ... – Conto toda a história, sem pular nenhum acontecimento, estranhamente ela manteve a expressão séria durante todo o tempo, como se estivesse recebendo as informações, digerindo-as e analisando-as.
-Nossa, realmente é uma história bem estranha, esse coelho e essa caverna, e pode haver ainda mais coisas perigosas aqui, eu confesso que essa hipótese me assusta.
-Eu não tinha pensado sobre isso, na verdade eu nem tive tempo de pensar em nada. – Soller solta um sorriso acolhedor e eu tento esboçar um com o que me sobrou de rosto. -E você? Como tem passado?
-Assustada, como todo mundo, mas até que estou lidando bem. Os meninos estão querendo formar um grupo para caçar alguma comida, mas como você é o único que saiu dessa praia, você acha uma boa ideia?
-Não, com certeza não, lá é muito perigoso, nós não temos sequer uma arma para caçar, e se um coelho aqui já é assim, imagina os outros animais.
-Você tem razão, é melhor avisar os outros?
Eu caminho ao lado da Soller em direção do grupo, ao tentar me aproximar, Kaiser aparece e começa com suas implicações diárias, eu tento me desculpar, mas logo sou interrompido por Lader, um cara legal, gosta de ajudar o maior número de pessoas, e por ter muitos amigos, logo se tornou o líder.
-Nós temos que sair o quanto antes! – Diz ele enquanto se volta na minha direção. -Spes, você foi o único que entrou na floresta, tem alguma dica?
-Eu sugiro que não vão- Digo tentando ser o mais respeitoso possível.
-Hã? Tá me dizendo que é para todos nós morrermos de fome? – Grita Kaiser, com sua voz carregada de raiva.
-Existem peixes no mar, nós podemos pescar. -Sugiro.
-Infelizmente não tem, nós já tentamos pescar, mas não encontramos peixe algum. – Interrompe Lader.
-Tem que ter alguma outra opção, aquela floresta é muito perigosa, olha pra minha cara, olha como que eu fiquei depois de entrar lá.
-Nós não somos fracos igual você, e depois de ontem, você realmente acha que é confiável? -Ruge Kaiser.
-Desculpa Spes, mas temos que ir- diz Lader virando as costas e adentrando na floresta.
O grupo é composto por cinco pessoas, Lader, Kaiser, Krag, Galit e Jon. Esse último era um intercambista que ainda não fala nossa língua tão bem, mas tem o corpo forte, e por isso foi requisitado para a caça. Em poucos segundos todos os cinco somem de vista, e o que me resta é torcer para que todos voltem com vida.
Meia hora depois me aproximo do Bailys, vejo que ele está tremendo, o medo é evidente em seu rosto, eu nunca tinha visto esse lado dele, então tento consolá-lo, o que é inútil, ele está totalmente diferente de antes, o medo que ele sente é totalmente compreensível, mas também tem arrependimento dentro dele, ele queria ter ido com o grupo, mas quando ele lembra do que aconteceu comigo, o medo toma o seu corpo.
-Você quer ir? -Pergunto.
-Hã? Para onde? -Parece que minhas palavras finalmente o alcançaram.
-Caçar, se você realmente quiser eu vou com você.
-Você estava tentando impedir que os outros fossem agora a pouco, por que logo você que viu o terror de lá tentaria voltar?
-Porque eu sinto que algo vai acontecer com eles, eu não sei, mas desde que eu toquei naquele desenho meus instintos estão sempre me mostrando o perigo.
-Vamos então, se eu não for você vai acabar morrendo em algum lugar. - Diz ele tentando deixar o clima mais leve.
Não avisamos a ninguém, mas eu sinto o olhar da Soller sobre mim, não sei o porquê ela não tentou me impedir, talvez ela tenha deduzido os meus motivos, e por isso ficou quieta.
Os primeiros dois quilômetros são normais, tirando as árvores gigantescas. Seguimos por trilhas, encontramos até mesmo um rio de água doce, o que vai ser de extrema importância, Bailys ficou tão feliz ao ver o rio que saltou nele para se refrescar. Depois continuamos seguindo os rastros do grupo de caça, ficamos andando por mais meia hora, nem mesmo eu tinha andado por tanto tempo na floresta, o medo começa a aumentar no meu coração, mas tento me manter firme, não só por mim, mas também por Bailys, que eu tolamente arrastei para a morte, o meu melhor amigo e eu vou ser o responsável por sua morte, o que eu estava pensando, se eu quisesse ir em uma missão suicida, eu deveria ter ido sozinho, mas agora o arrependimento não irá resolver nada.
Depois de mais alguns minutos finalmente alcançamos o grupo, mas percebo que tem algo estranho, me apreço para encontrar um esconderijo, e puxo Bailys para se esconder também. E a cena que eu testemunhei não vai sair da minha mente até o fim da minha vida. Em poucos segundos um cenário aparentemente normal se torna um filme de terror. Kaiser está com um olhar estranho, encarando Lader, que está na frente de todo o grupo, como se ele fosse a caça, Galit e Krag seguem atrás dele com o mesmo olhar fitando o líder do grupo, Jon segue atrás de todo o grupo e está com uma expressão cansada, afinal ele foi designado para carregar toda a caça. Kaiser de repente começa a andar mais rápido em direção a Lader, puxa uma pedra pontiaguda do bolso com a mão direita, que ele deve ter encontrado enquanto andava, e com a mão esquerda puxa a cabeça do Lader para trás, sem tempo para que ele reagisse Kaiser resga seu pescoço, simultaneamente Galit e Krag se juntam contra Jon, que já cansado não teve chance contra os dois.
Olho para Bailys buscando algum conforto, mas encontro um corpo desmaiado, parece que essa cena foi demais para ele, e eu não julgo, tudo o que faço agora é ficar em absoluto silencio, tenho certeza de que Kaiser adoraria me encontrar aqui. Já se passaram vinte minutos e eles ainda não foram embora, temo que eles saibam que eu estou aqui e só estão esperando eu desistir.
Mais quarenta minutos se passam, e eles finalmente seguem á frente, Bailys já tinha acordado à alguns minutos, mas não mexeu um musculo sequer desde que acordou. Quando já estavam longe o suficiente, ele ousou falar alguma coisa.
-Por que eles fariam isso?
-Os motivos disso podem ser muitos, mas agora o que importa é que eles são perigosos e nós temos que avisar pra todo mundo.
Nos levantamos e preparamos para voltar quando escutamos...
-Para onde vocês pensam que vão? -Krag aparece atras de nós.
-Fodeu. – Acabou é assim que vamos morrer, nem eu nem Bailys temos energia para enfrentar alguém como Krag.
-Pode ficar tranquilo Spes, o Kaiser pediu que você fosse entregue a ele vivo, agora o seu amigo, temo que ele não tenha a mesma sorte.
Eu reúno todas as minhas forças para tentar dar um soco, mas Krag me derruba com um tapa usando as costas da mão, minhas pernas não reagem, eu não consigo me mexer, tudo o que me resta é gritar...
-CORRE!!!
Mas é em vão, assim como eu Bailys está assustado demais para se mexer, não pode ser assim, era para nós estarmos nos divertindo em Londres agora, por que isso está acontecendo? Krag se aproxima cada vez mais de Bailys... é isso, o meu melhor amigo vai morrer e eu não vou fazer nada? Eu realmente sou um merda, um inútil, eu tento desesperadamente me mover, mas falho em todas as tentativas. Até que Krag chega perto o suficiente dele, e o mundo perde o som, e eu escuto uma voz na minha cabeça mandando que eu atire, inconscientemente meu braço se move formando uma pistola com a mão direita com o dedo indicador apontado para Krag e o dedão apontado para cima.
-Atira atira atira...- a voz não para
Na frente do meu dedo indicador surge um feixe de luz branca e por fim ele voa na direção da cabeça de Krag. E em menos de um segunda a cabeça dele explodiu em mil pedaços, Baisly desmaia novamente, e eu luto para carregá-lo para a praia, consigo andar por pouco mais de cinco minutos antes de despencar ao chão.