CAPÍTULO 2
Antes de entender o mundo, precisei entender a mim mesma
Antes, ela nunca entendia por que era daquele jeito.
Era quieta com quase todo mundo, mas também era engraçada e estava quase sempre sorrindo. Escondia tudo o que sentia e guardava as coisas para si mesma.
Não era porque não confiava nas pessoas.
Ela apenas não gostava de espalhar nada sobre sua vida.
Preferia guardar seus sentimentos em algum lugar dentro dela, onde ninguém pudesse tocar.
Quando lia livros que chamavam sua atenção, ou quando via pessoas passando por dificuldades, brigas e situações que a faziam mal, alguma coisa dentro dela começava a mudar.
Quanto mais observava, mais pensava.
E, entre tantos pensamentos, um sempre voltava:
"Se é tão difícil ser amada, por que não simplesmente amar quem nunca foi amado?"
Depois desse pensamento, ela percebeu uma coisa.
Toda vez que via alguém feliz, recebendo carinho, sendo amado ou simplesmente encontrando um motivo para sorrir, ela também ficava feliz.
Não importava se ela mesma era amada ou não.
Aquilo não parecia ser o mais importante para ela.
Ela apenas queria amar alguém que merecesse o amor que tinha para dar.
E foi assim que descobriu uma das primeiras coisas sobre si mesma:
Ela gostava de ver as pessoas ao seu redor felizes.
Gostava de estar presente.
Gostava de cuidar.
Gostava de fazer alguém sorrir quando o dia parecia difícil demais.
E, naquele momento, percebeu que amar talvez fosse uma das coisas mais bonitas que já tinha descoberto.
Até que, um dia, pensou:
"Amar me conquistou."
Todos achavam que ela era realmente quieta.
E talvez fosse.
Mas ninguém conhecia todas as partes dela.
Porque, perto das pessoas que amava, ela era engraçada, fazia brincadeiras, sorria e sempre tentava ser melhor a cada dia.
Quando alguém passava pelo pior, ela não sabia exatamente como resolver o problema.
Então fazia o que conseguia.
Abraçava.
Ficava.
Escutava.
Amava.
Ela queria que aquela pessoa entendesse que nunca esteve sozinha.
Queria que soubesse que merecia todo o amor que ela estava oferecendo.
Queria que entendesse que era mais importante do que imaginava.
Mas, enquanto fazia tudo isso pelos outros, nunca parava para perguntar se alguém faria o mesmo por ela.
Até que uma pergunta apareceu dentro dela:
"Mas quem sou eu quando não preciso ser nada para ninguém?"
Naquela noite, em seu quarto, ela ficou diante do espelho.
Olhou para o próprio rosto por alguns segundos.
Não havia ninguém ali para observar.
Ninguém para agradar.
Ninguém para impressionar.
Era apenas ela.
Então perguntou baixinho:
"Quem eu sou de verdade?"
Ela não sabia responder.
E talvez essa fosse a parte mais difícil.
Ela conhecia seus sentimentos.
Conhecia seus sonhos.
Conhecia as pessoas que amava.
Conhecia as coisas que gostava.
Mas não conhecia completamente a si mesma.
Ficou olhando para aquele reflexo durante alguns minutos.
Até pensar:
"Como eu vou descobrir quem sou, se passei tanto tempo tentando ser aquilo que os outros precisavam?"
Ela respirou fundo.
E finalmente entendeu uma coisa.
Talvez descobrir quem era não acontecesse de uma vez.
Talvez fosse aos poucos.
Um dia de cada vez.
Uma escolha de cada vez.
Um sentimento de cada vez.
Ela ainda não tinha todas as respostas.
Mas, pela primeira vez, queria procurá-las.
Olhou novamente para o espelho.
E pensou:
"Eu conhecia aquele rosto..."
Fez uma pequena pausa.
"Mas não conhecia quem eu era."