A cena no banheiro é tão visceral, isso vem de um lugar real no seu peito, ou foi inventando o horror enquanto escrevia?
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A cena no banheiro é tão visceral, isso vem de um lugar real no seu peito, ou foi inventando o horror enquanto escrevia?
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São Paulo 15 de Janeiro de 2016.
Clínica Psicológica Oswaldo Cruz
Paciente: Miguel Wallace da Silva
Sintomas: Depressão severa, Alucinações e Transtornos dissociativos
Diagnóstico: Avaliação medica rigorosa, consulta psiquiatra com urgência.
Medicação:Haloperidol, Clorpromazin, Amitriptilina.
Observação: Os medicamentos devem ser tomados pontualmente e com extrema vigilância de terceiros.
MIGUEL
Miguel estava se preparando para o seu primeiro trabalho no hospital Anjos da Guarda, ele recebeu um e-mail de aprovação no cargo de mensageiro hospitalar a dois dias atrás, o mesmo se encontrava dentro do banheiro, de pé, em frente a um espelho encarando o seu próprio reflexo, ele via um garoto na faixa dos 20 anos de pele parda e corpo magro, os cabelos pretos, lisos e esgrenhados que se ondulavam até o pescoço, respirava devagar, os seus olhos castanhos mel eram ao mesmo tempo cinzentos e vazios.
Miguel não reconhecia o seu próprio reflexo pois via uma casca feita de pele, carne e osso.
— Você... O que é você? — ele repetia essas palavras enquanto encarava o estranho no espelho, Miguel focava nos seus olhos e procurava a sua alma, ela estava lá dentro em algum lugar, presa nessa prisão orgânica.
A imagem do homem estranho começou a sorrir gradualmente, mas Miguel não estava sorrindo, as mãos ergueram-se até segurar o seu próprio pescoço e começaram a enforca-lo como se estivessem vida própria.
— Porque você está sorrindo? Não era pra você sorrir — As mãos do reflexo foram levadas até a sua boca, ela se abriu e seus dedos começaram a puxar sua mandíbula para baixo, os sons dos ossos se deslocando foram ouvidos até se quebrarem. Mofos pretos e marrons começaram a surgir das paredes do banheiro, os buracos viraram olhos, rostos de agonia surgiram delas e começaram a gritar desesperadamente, os olhos de Miguel derreteram numa poça de sangue junto ao seu rosto e encheram a pia de pele líquida e um fluido preto e espesso.
— Você vai sair daqui nem que eu precise te quebrar — rosnou a figura do espelho, Miguel então, avançou numa cabeçada que rachou o vidro em diversas fissuras, as rachaduras fizeram aquela coisa sumir, ele ligou a água gelada da torneira e lavou o seu rosto, o seu pai terá que comprar mais um espelho.
Depois de se arrumar, as três horas da tarde, ele saiu do banheiro que ficava no segundo andar, desceu as escadas até a sala e parou na porta da entrada.
— Você já vai meu filho? — uma voz rouca mas atenua emergiu do outro lado da sala, numa poltrona azul onde estava sentado um homem no escuro.
— Sim... Pai.
— E você não vai me dar um tchau?
— Eu vou voltar...
O homem se levantou e foi até Miguel, ele era alto e um pouco parrudo, a pele negra e olhos cinzentos e pretos, eles demonstravam muita dor e mágoa, seus cabelos negros quase grisalhos denunciavam sua idade de 40 e tantos anos — Você vai passar a noite Inteira fora, pode não voltar meu filho, esse tchau pode ser o último.
— Eu sei... Mas vou ficar bem.
O homem se abaixou e colocou as mãos nos ombros de Miguel que estava olhando para o chão fixamente — Estou orgulhoso de você meu filho, não é qualquer um que consegue uma vaga num hospital — Miguel continuava a olhar para o chão pensando — Consegue ao menos me olhar nos olhos? Não estou tão feio assim — ele deu uma pequena risada tristonha.
Miguel desviou o olhar para seu pai, olhando fixamente dentro de seus olhos e uma lembrança invadiu a sua mente num flash... um murro em seu rosto junto gritos " Nunca mais olhe para mim desse jeito, abaixe a cabeça quando eu for falar com você" Quando voltou a si, os olhos do seu pai estavam cheios de lágrimas contidas mas com um sorriso no rosto, os olhos de Miguel também começaram a lacrimejar, os dois pareciam um reflexo do outro.
— Preciso ir... — diz Miguel quebrando o silêncio.
— Está bem meu filho, vá e de o melhor de si.
Miguel se virou de costas e saiu de casa. O seu pai fechou a porta devagar, depois escorregou até o chão, encostando-se na madeira. Enterrou o rosto nas mãos, e os soluços vieram sem controle.
— Me desculpe, querida... eu o criei mal... me desculpe, não fui um bom pai.
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