Até onde vai a ética médica?
Não é novidade que os profissionais da área da saúde, especialmente os médicos, ocupam no Brasil uma posição de grande respeito e admiração. Mas o que fazemos com esse reconhecimento? Até onde vai a nossa responsabilidade diante daqueles que depositam em nós confiança, esperança e, muitas vezes, a própria sobrevivência?
Durante uma das visitas familiares realizadas pela UBS, conheci uma jovem de 25 anos, mãe de duas meninas. A filha mais nova nasceu com microcefalia e depende integralmente dos cuidados da mãe, enquanto o marido trabalha durante o dia para sustentar a família. A filha mais velha, por sua vez, tornou-se a principal rede de apoio da mãe, ficando responsável, em grande parte, pelos serviços domésticos.Diante daquela realidade, uma profunda indignação me tomou. Como podemos, enquanto sociedade, permitir que uma família seja submetida a uma situação como essa? O termo “nós”, neste contexto, não se restringe aos profissionais de saúde, mas representa a sociedade como um todo.A profissão médica, justamente por sua visibilidade e pelo reconhecimento que possui, deveria carregar consigo um compromisso que ultrapassasse o atendimento individual. Deveríamos nos questionar constantemente sobre o que podemos fazer para tornar a vida dessas pessoas um pouco mais digna, inclusive por meio de mudanças e do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).Afinal, uma mãe jovem, sem instrução e sem uma rede de apoio adequada, assumir integralmente os cuidados de uma criança com necessidades especiais representa um fardo enorme. Significa, muitas vezes, abdicar da própria vida, dos próprios sonhos e até de sua identidade enquanto indivíduo. Essa mãe necessita de cuidado, acolhimento e, sobretudo, de uma rede de apoio estruturada.Entretanto, outro problema surge quando observamos quem ocupa o lugar dessa rede de apoio: uma criança de apenas 10 anos. Uma infância que, pouco a pouco, é roubada; responsabilidades que não deveriam pertencer a ela são assumidas precocemente, enquanto sonhos deixam de ser construídos.E o pai? Exausto, precisa se desdobrar em um trabalho que o consome, submetido a condições laborais desgastantes e a uma remuneração insuficiente para garantir uma vida verdadeiramente digna à sua família.Esse é apenas um pequeno retrato de uma realidade muito maior presente no Brasil. E, diante desse cenário, convido você a refletir: realmente não há mais nada que possamos fazer para transformar, ainda que minimamente, essa realidade?
A ética médica não deveria se limitar às paredes de um consultório, à prescrição de um medicamento ou ao tratamento de uma doença. Ela também deveria nos levar a enxergar as condições sociais que produzem e aprofundam o sofrimento daqueles que atendemos.Se, ao longo da história, algumas pessoas não tivessem se indignado diante de situações consideradas “normais” em seu tempo e não tivessem ousado questioná-las, talvez ainda estivéssemos vivendo sob condições semelhantes às da Inglaterra do século XIX.Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas até onde vai a ética médica, mas até onde estamos dispostos a ir, enquanto profissionais e enquanto sociedade, para transformar aquilo que sabemos que precisa mudar.