Capítulo 2 — A parceira mais insuportável do mundo
O alarme continuou tocando durante quase três minutos.
Para Hayato, pareceram três horas.
Parado diante da janela do dormitório, ele observava as luzes vermelhas que piscavam sobre as muralhas da Academia Aetherion. Ao longe, instrutores corriam pelos corredores externos, enquanto grupos de estudantes veteranos se reuniam para receber instruções.
A criatura que atravessara a Ruptura já havia sido identificada.
Categoria 3.
Uma ameaça séria para civis desprotegidos, mas relativamente comum para as unidades profissionais de Despertos. A academia possuía barreiras defensivas justamente para situações como aquela.
Mesmo assim, nenhum dos novos alunos receberia autorização para enfrentar o monstro.
Pelo menos era o que Hayato esperava.
— Todos os estudantes do primeiro ano devem permanecer nos dormitórios até segunda ordem. — A voz do sistema de comunicação ecoou pelos alto-falantes. — Instrutores e unidades de contenção estão assumindo o controle da situação.
Hayato soltou o ar.
— Certo. Nada de morrer na primeira noite.
Ele colocou a espada Vesper sobre a mesa e se afastou da janela.
A criatura não era responsabilidade dele.
Ainda não.
Mesmo assim, uma sensação incômoda permanecia em seu peito. Não era exatamente medo. Era frustração.
Enquanto os Despertos experientes corriam para proteger a cidade, ele estava ali, incapaz de fazer qualquer coisa.
Sua telecinese mal conseguia mover uma moeda.
Hayato fechou os olhos por alguns segundos.
Um dia.
Um dia ele estaria do outro lado da muralha.
Não como um espectador.
Como alguém capaz de proteger as pessoas.
1. A manhã seguinte
Às seis e quinze da manhã, Hayato já estava no campo de treinamento.
O sol ainda não havia aparecido por completo, e uma camada fina de neblina cobria a grama. O campo principal era enorme, cercado por arquibancadas e bonecos de treinamento reforçados com materiais resistentes à magia.
Hayato preferia aquele horário.
Não havia plateia, comentários desagradáveis ou pessoas comparando seu rank ao dos outros.
Só ele, sua espada e o trabalho que precisava fazer.
Posicionou os pés, segurou Vesper com as duas mãos e iniciou uma sequência de golpes.
Corte horizontal.
Recuo.
Estocada.
Giro.
Outro corte.
Seus movimentos eram rápidos, precisos e econômicos. Não possuía a força mágica de um Rank A, mas compensava com anos de prática. Seus braços já conheciam o peso da espada; suas pernas sabiam como reposicionar o corpo antes mesmo que ele pensasse nisso.
Depois de vinte minutos, a camisa já estava encharcada de suor.
Hayato parou, apoiando a espada no ombro.
— Mais uma sequência.
Recomeçou.
Dessa vez, acrescentou movimentos de esquiva, simulando os ataques de um adversário maior. Avançou, recuou e girou o corpo, tentando manter o equilíbrio durante cada transição.
No último movimento, a ponta da espada atingiu o boneco de treinamento.
O impacto produziu um som seco.
Hayato respirou fundo.
— Melhor.
Ele sabia que era bom com a espada.
Mas também sabia que isso não seria suficiente para sempre.
Os monstros não lutavam segundo as regras de um duelo. Alguns eram rápidos demais para acompanhar com os olhos. Outros possuíam carapaças capazes de resistir a golpes comuns. Havia criaturas que atacavam à distância, outras que se enterravam no solo e algumas que simplesmente esmagavam tudo à sua frente.
Um espadachim precisava de mais do que técnica.
Precisava de recursos.
Hayato guardou a espada na bainha e estendeu a mão em direção a uma pequena pedra próxima.
Concentrou-se.
A pedra tremeu.
Ele apertou os dentes.
A pedra se ergueu lentamente, a poucos centímetros do chão.
— Isso… vamos…
Por dois segundos, permaneceu suspensa.
Então caiu.
Hayato esfregou a testa.
— Dois segundos. Incrível. Estou praticamente dominando o mundo.
— Se o mundo for uma pedrinha, talvez.
Hayato se virou.
Daiki estava na entrada do campo, segurando duas bebidas e com um sorriso debochado no rosto.
— Você tem o dom de aparecer nas piores horas — disse Hayato.
— E você tem o dom de conversar com pedras. Cada um com seu talento.
Daiki jogou uma das bebidas para o amigo.
Hayato a pegou no ar.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer. Comprei porque sabia que você estaria aqui.
Os dois se sentaram na borda de uma plataforma de madeira.
Daiki observou o campo vazio.
— Você treinou a manhã inteira?
— Só comecei há quarenta minutos.
— Hayato, são seis e meia.
— E daí?
— Daí que pessoas normais estão dormindo.
— Então ainda bem que não sou normal.
Daiki soltou uma gargalhada.
Por alguns instantes, os dois ficaram em silêncio, aproveitando a tranquilidade da manhã.
Então Daiki olhou para o amigo.
— Você ficou mal ontem?
Hayato demorou a responder.
— Com o rank?
— É.
Ele girou a garrafa entre as mãos.
— Fiquei. Não vou mentir.
Daiki abaixou a cabeça.
— Eu queria poder fazer alguma coisa.
— Você conseguiu Rank A. Não tem nada para fazer.
— Poderia ter falado alguma coisa quando começaram a rir de você.
Hayato olhou para ele.
— Você estava tão surpreso quanto eu.
— Mesmo assim.
Hayato deu um leve sorriso.
— Cara, você é meu melhor amigo. Não precisa entrar em todas as brigas por mim.
Daiki ficou quieto.
— Mas, se alguém passar dos limites, aí eu entro — acrescentou Hayato.
— Ah, claro. Agora você vai me proteger com sua poderosa telecinese de pedrinhas.
— Exatamente.
Os dois começaram a rir.
Era disso que Hayato precisava.
Não de alguém que sentisse pena dele, mas de alguém que continuasse tratando-o como Hayato.
Não como um rank.
2. A garota que não queria estar ali
Às sete e vinte, o campo começou a receber outros estudantes.
Alguns praticavam técnicas com suas armas. Outros conversavam perto das arquibancadas. Instrutores caminhavam entre os grupos, avaliando postura e disciplina.
Hayato estava terminando de ajustar a bainha de Vesper quando uma voz feminina surgiu atrás dele.
— Você sempre chega tão cedo?
Ele reconheceu a voz imediatamente.
Virou-se.
Erika estava parada a poucos passos, segurando Astralis pela bainha. Os cabelos prateados estavam presos em um rabo de cavalo alto, e o uniforme de treinamento, preto com detalhes vermelhos, parecia ter sido feito sob medida.
Ela não parecia cansada.
Na verdade, parecia irritantemente disposta.
Hayato olhou para o relógio.
— Você está perguntando porque quer conversar ou porque pretende reclamar de alguma coisa?
Erika estreitou os olhos.
— Estou perguntando porque preciso saber se vou ter que perder minhas manhãs inteiras esperando você.
— Você poderia começar dizendo bom dia.
— Bom dia. Agora responda.
Hayato suspirou.
— Sim, costumo treinar cedo.
— Ótimo. Amanhã, às cinco.
Ele piscou.
— Cinco da manhã?
— Algum problema?
— Tenho. Estarei dormindo.
— Então pare de desperdiçar meu tempo e durma mais cedo.
Erika virou as costas.
Hayato ficou olhando para ela, incrédulo.
— Ei! Você está falando sério?
Ela parou.
— Infelizmente.
— Eu nem sabia que teríamos treino juntos amanhã.
— Agora sabe.
— Você sempre é assim?
Erika virou lentamente a cabeça.
— Assim como?
Hayato pensou por um momento.
— Insuportável.
O ar pareceu ficar mais quente.
Uma pequena chama surgiu entre os dedos de Erika.
— Você realmente não tem instinto de sobrevivência, não é?
Hayato ergueu as mãos.
— Calma. Foi uma observação científica.
— Às cinco. Não se atrase.
Ela seguiu em direção à saída.
Hayato a observou partir.
— Ela vai me matar.
Daiki, que acompanhara a conversa de longe, apareceu ao lado dele.
— Não, cara. Se quisesse matar você, não marcaria horário.
Hayato olhou para o amigo.
— Isso era para me tranquilizar?
— Estou tentando.
3. O primeiro treinamento oficial
Às oito horas, os estudantes do primeiro ano foram convocados para a Arena Central.
A arena era uma estrutura circular, cercada por barreiras mágicas e arquibancadas. No centro, seis plataformas de combate estavam organizadas para permitir que várias duplas treinassem simultaneamente.
O instrutor responsável era um homem de ombros largos, cabelos curtos e uma cicatriz que atravessava a sobrancelha esquerda.
— Sou o instrutor Darius Kael. Vou supervisionar parte do treinamento de combate de vocês.
Ele caminhou lentamente diante dos alunos.
— Aqui, seu rank não vai lutar por vocês. Seu sobrenome não vai lutar por vocês. E sua reputação não vai impedir que um monstro arranque sua cabeça.
Alguns estudantes engoliram em seco.
— Hoje, quero observar três coisas: controle dos poderes, técnica com armas e capacidade de trabalhar em dupla.
Darius apontou para as plataformas.
— Os Links devem permanecer juntos durante os exercícios. A intenção não é descobrir quem é mais forte individualmente, mas quem consegue lutar melhor ao lado do parceiro.
Hayato sentiu um desconforto imediato.
Ao seu lado, Erika cruzou os braços.
— Tente não me atrapalhar.
— Bom dia para você também.
— Não estou brincando.
— Nem eu.
O instrutor começou a chamar as duplas.
Hikari e Daiki foram os primeiros a ocupar uma das plataformas.
— Regras simples — explicou Darius. — Um ataca, o outro responde. Depois vocês trocam. Sem golpes letais e sem tentar destruir a arena.
Daiki girou uma das espadas entre os dedos.
— Ouviu, Hikari? Nada de destruir a arena.
— Estou mais preocupada com você destruindo a própria dignidade.
— Isso já aconteceu há anos.
O sinal soou.
Daiki avançou primeiro.
Sua espada brilhou com energia mágica, enquanto Hikari recuava e posicionava a lança Tempestade entre os dois. Uma descarga elétrica percorreu a haste, mas ela não disparou o ataque imediatamente.
Esperou.
Daiki tentou um corte lateral.
Hikari desviou com um movimento curto e utilizou a ponta da lança para afastá-lo, mantendo uma distância segura.
Ele recuou, sorrindo.
— Você é rápida.
— Você anuncia demais os seus ataques.
— Vou considerar isso um elogio.
Na tentativa seguinte, Daiki mudou a abordagem. Criocinese envolveu a lâmina de sua espada, forming uma camada de gelo que se estendeu pelo chão da plataforma.
Hikari precisou mudar o posicionamento dos pés para não perder o equilíbrio.
Aproveitando a abertura, Daiki avançou.
Mas Hikari girou a lança e liberou uma descarga elétrica controlada contra o piso metálico da plataforma, obrigando-o a interromper o movimento.
O sinal encerrou a rodada.
Darius assentiu.
— Boa adaptação dos dois. Daiki, cuidado com o próprio campo de atuação. Hikari, não dependa apenas da velocidade.
Hikari baixou a lança.
— Entendido.
Daiki se aproximou de Hayato.
— Viu aquilo?
— Vi.
— Estou começando a achar que minha parceira gosta de tentar me eletrocutar.
Hikari passou por eles.
— Se eu gostasse, você já saberia.
Daiki olhou para Hayato.
— Ela é assustadora.
— Você está sorrindo.
— Esse é meu mecanismo de defesa.
Hayato riu.
Mas o riso desapareceu quando ouviu seu próprio nome.
— Próxima dupla: Hayato e Erika.
A arena pareceu ficar um pouco mais silenciosa.
Não porque Hayato fosse famoso.
Mas porque Erika era.
E todos queriam descobrir como uma estudante Rank S se sairia ao lado de um Rank F.
4. Espada contra fogo
Hayato e Erika subiram na plataforma.
Darius observou os dois.
— O exercício será simples. Hayato, você deverá manter a defesa e encontrar uma abertura para tocar o ombro de Erika com sua espada. Erika, você deverá impedir que ele consiga fazê-lo, sem utilizar força excessiva.
Erika olhou para o instrutor.
— Posso usar meu poder?
— Controle de intensidade. Não quero uma demonstração de força bruta.
Ela assentiu.
Hayato ajustou a postura.
Segurou Vesper com as duas mãos, posicionando a lâmina diagonalmente diante do corpo.
Erika desembainhou Astralis.
Uma chama percorreu o fio da espada.
O calor chegou até Hayato, mesmo com alguns metros de distância.
Ele engoliu em seco.
Tudo bem. Ela é uma Rank S. Eu sabia disso.
Darius ergueu a mão.
— Comecem!
Erika avançou.
Hayato mal teve tempo de reagir.
O primeiro golpe veio de cima, rápido e preciso. Ele ergueu Vesper e bloqueou o ataque, mas a força do impacto fez seus braços tremerem.
Ela girou a espada e atacou pela lateral.
Hayato recuou.
Um terceiro golpe veio em seguida.
Ele desviou por pouco, sentindo o calor das chamas passar próximo ao rosto.
— Você está apenas recuando — disse Erika.
— Estou tentando não virar churrasco!
— Então tente lutar!
Ela avançou novamente.
Dessa vez, Hayato não tentou bloquear diretamente.
Deslocou o corpo para a esquerda, deixou o golpe passar e utilizou o movimento de Erika para reposicionar a própria espada.
Por uma fração de segundo, encontrou uma abertura.
Avançou.
A ponta de Vesper quase tocou o ombro dela.
Quase.
Erika percebeu a intenção no último instante e girou o corpo. Astralis interceptou a lâmina, afastando-a com um movimento curto.
Hayato precisou recuar para recuperar o equilíbrio.
Os olhos de Erika mudaram discretamente.
Ela não esperava aquela movimentação.
— Você treina espada há quanto tempo?
Hayato respirou fundo.
— Tempo suficiente.
— Não foi isso que perguntei.
— E eu não sou obrigado a responder tudo o que você pergunta.
O rosto dela endureceu.
— Certo.
As chamas ao redor de Astralis se intensificaram.
Darius ergueu a voz:
— Erika. Controle.
Ela respirou fundo e reduziu a intensidade do fogo.
Hayato aproveitou o instante para observar a postura da parceira.
Ela é rápida. Muito rápida.
Se tentasse acompanhar a velocidade dela, perderia.
Se bloqueasse todos os ataques, seus braços cederiam.
Precisava encontrar outra maneira.
Erika avançou mais uma vez.
Hayato esperou até o último momento e deslocou o corpo para fora da linha de ataque. Sua espada subiu em um corte diagonal, não para atingir Erika, mas para obrigá-la a alterar a trajetória de Astralis.
Funcionou.
Ela precisou interromper o movimento e recuar meio passo.
Hayato avançou.
Dessa vez, conseguiu tocar o tecido do ombro dela com a ponta de Vesper.
O sinal soou.
Silêncio.
Hayato permaneceu imóvel por um instante, tentando compreender o que havia acontecido.
Depois olhou para a própria espada.
— Eu consegui?
Darius confirmou.
— Um ponto para Hayato.
Daiki levantou os braços na arquibancada.
— ISSO AÍ!
Hayato abriu um sorriso involuntário.
Erika olhou para o próprio ombro, depois para ele.
Sua expressão era difícil de interpretar.
Não estava ferida.
Não havia perdido a luta.
Mas um Rank F acabara de encontrar uma abertura contra ela.
— Sorte — disse, guardando a espada.
Hayato ergueu uma sobrancelha.
— Claro. Uma sorte que envolveu esquivar de três golpes, observar sua postura e calcular a distância.
— Não se empolgue.
— Tarde demais.
Darius se aproximou.
— Hayato, boa leitura de combate. Você não tentou competir diretamente com a velocidade da sua adversária. Procurou uma abertura e usou a movimentação dela a seu favor.
Hayato assentiu, satisfeita.
Então o instrutor acrescentou:
— Mas, se esse fosse um combate real, um erro de posicionamento teria custado caro. Você ainda precisa melhorar a defesa e aprender a utilizar sua telecinese de forma consistente.
O sorriso de Hayato diminuiu um pouco.
— Entendido.
— Erika — continuou Darius —, sua superioridade de poder é evidente. Mas você deixou de avaliar o adversário quando presumiu que ele não representava uma ameaça. Isso quase lhe custou o exercício.
Ela apertou os lábios.
— Entendido.
Darius se afastou para chamar a próxima dupla.
Hayato começou a limpar a lâmina.
— Ei, Erika.
Ela não respondeu.
— Você lutou bem.
Erika virou-se lentamente.
Parecia desconfiada.
— O quê?
— Eu disse que você lutou bem. Você é rápida e controla sua espada muito bem. Só acho que poderia parar de presumir que todo mundo abaixo do seu rank é inútil.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— E você deveria parar de achar que um único ponto significa alguma coisa.
— Não acho. Mas significa que consigo acompanhar você, pelo menos um pouquinho.
Erika sustentou o olhar dele.
— Amanhã, às cinco. E não espere que eu facilite de novo.
Ela saiu da plataforma.
Hayato acompanhou sua partida.
— Acho que ela gostou de mim — murmurou.
Daiki quase caiu da arquibancada.
— VOCÊ ESTÁ DELIRANDO?!
Hayato começou a rir.
Pela primeira vez desde o teste do cristal, a sensação de fracasso havia diminuído um pouco.
Ele ainda era Rank F.
Sua telecinese continuava fraca.
E sua parceira parecia determinada a tornar cada dia de sua vida um inferno.
Mas ele havia encontrado uma abertura.
E, para Hayato, isso já era um começo.
5. Um olhar de longe
No final da manhã, os estudantes foram liberados para o intervalo.
Hayato sentou-se em um banco próximo aos jardins internos, com Daiki ao seu lado. Os dois conversavam sobre o treinamento quando uma voz familiar surgiu atrás deles.
— Hayato.
Ele ergueu os olhos.
Hikari estava parada a alguns passos, segurando sua lança.
— Você conseguiu um ponto contra Erika — disse ela.
— Consegui.
— Como?
Daiki abriu a boca, mas Hikari levantou um dedo.
— Perguntei a ele.
Daiki fechou a boca.
Hayato explicou o que havia observado durante a luta: a postura de Erika, a direção dos golpes e o momento em que ela precisava recuperar o equilíbrio depois de um ataque mais forte.
Hikari ouviu atentamente.
— Você não tentou superar o poder dela — concluiu. — Tentou entender como ela lutava.
— Não tinha muita escolha.
— Talvez. Mas muita gente teria tentado bloquear os golpes até perder a força.
Ela olhou para a arena.
— Isso pode ser útil em missões.
Hayato sorriu.
— Vou considerar isso um elogio.
— Considere uma observação.
Hikari se afastou antes que ele pudesse responder.
Daiki acompanhou a garota com os olhos.
— Você percebeu?
— O quê?
— Ela veio falar com você.
— Sobre o treinamento.
— Claro. E eu sou o diretor da academia.
Hayato deu um empurrão no ombro do amigo.
— Para de inventar coisas.
Daiki riu.
Do outro lado do jardim, Hikari diminuiu o passo por um instante.
Não havia qualquer motivo para ela se importar com um estudante Rank F.
Pelo menos era o que dizia a si mesma.
Mas havia algo em Hayato que chamava sua atenção: não o resultado do cristal, nem o fato de ele ter conseguido um ponto contra Erika.
Era a maneira como ele continuava tentando, mesmo sabendo que estava em desvantagem.
Hikari ainda não confiava nele.
Mal o conhecia.
Mas queria observar mais.
E, por enquanto, isso era suficiente.
6. O fim do primeiro dia
Naquela tarde, Hayato retornou ao dormitório com os braços doloridos e a cabeça cheia de pensamentos.
O treinamento havia sido mais difícil do que esperava.
Erika era realmente extraordinária. Mesmo limitando a própria força, conseguia pressioná-lo de uma maneira que poucos adversários seriam capazes.
Hikari também era impressionante.
Daiki estava evoluindo rapidamente.
E ele?
Ele ainda precisava trabalhar muito.
Hayato colocou Vesper sobre a mesa e pegou a pequena pedra que utilizara pela manhã.
Sentou-se na cadeira.
Estendeu a mão.
Concentrou-se.
A pedra tremeu.
Subiu alguns centímetros.
Hayato prendeu a respiração.
Um segundo.
Dois.
Três.
A pedra caiu.
Ele ficou olhando para ela.
Depois sorriu discretamente.
Pela primeira vez, conseguira mantê-la suspensa por mais tempo do que antes.
Era uma diferença pequena.
Quase insignificante.
Mas era progresso.
Hayato se levantou, guardou a pedra e apagou a luz.
Amanhã, às cinco da manhã, teria de enfrentar Erika novamente.
E ele não pretendia chegar atrasado.
Fim do Capítulo 2.