A paisagem depois da tragédia tem uma estética que ninguém comenta, mas muitos admiram, só que às vezes é necessário uma mente sensível para conseguir nomear. A ferrugem poética. O silêncio pesado como um poema que desistiu no meio do verso. Caminho por entre os escombros com a delicadeza de quem pisa nos próprios ossos e encontra flores nascendo entre eles. Olho com admiração e desprezo.
Não são flores comuns.
São flores tortas, nervosas, desconfiadas — como eu.
Nascem com medo, mas nascem.
Quão cruel é habitar essa pele ao mesmo tempo em que não sou capaz de escolher outra.
A dor tenta me convencer de que aquilo é punição, mas, no fundo, há algo quase sagrado nesse desmoronamento. Como se o universo tivesse me forçado a desaprender aquilo que nunca me pertenceu de fato, como se os céus fizessem da minha existência uma piada sem graça, mas que preza entretenimento.
Então viro o pescoço invisível outra vez.
Olho para o céu, não em busca de compreensão, nem para sofrer mais, mas para lembrar: mesmo quebrado, eu ainda vejo. Ainda consigo perceber a ironia, o cinismo, a piada, a zombaria.
E quem vê, mesmo em meio a ruínas, ainda é alguém.
Ainda existo, mas com o poder de quem consegue perceber a piada e encarar os olhos do criador.