Acordei com cheiro de maresia e pão quente. O rádio chiava “Come Together” numa frequência impossível. A janela dava para a Rua Miguel de Frias, e um ônibus da Viação Pendotiba passava lento, cuspindo fumaça azulada. Eu estava em Niterói. Mas não a Niterói de agora — era 1989. Eu tinha onze anos. Ou achava que tinha.
Levantei-me. O corpo era o de um homem de quarenta e poucos, mas o mundo lá fora gritava infância. A camisa do Fluminense pendurada na cadeira era a de 1984, com patrocínio do Banco Nacional. Eu a vesti como quem veste um passado. O rádio agora tocava “Help!”, e eu senti que precisava mesmo de ajuda.
Meu nome é Rafael. Poeta fracassado, tricolor convicto, beatlemaníaco desde que ouvi “A Day in the Life” num toca-fitas emprestado. Moro sozinho num apartamento em São Domingos, escrevo versos que ninguém lê e sonho com uma infância que talvez nunca tenha existido. Minha mãe morreu de câncer em 1997. Meu pai sumiu em 1992. Fui criado por discos, camisas tricolores e silêncios.
A psiquiatra diz que é dissociação. Que meu cérebro construiu um abrigo no passado para fugir do presente. Que os Beatles são minha cápsula do tempo. Que o Fluminense é meu altar. Que Niterói é o útero. Eu discordo. Acho que é só saudade demais.
Saí pela rua. O jornaleiro me chamou de “garoto”. A banca exibia Manchete, Fatos & Fotos, e um pôster de Cazuza com cara de quem sabia que ia morrer. Comprei um Chicabom e me sentei no banco da Praça Getúlio Vargas. Um senhor lia “O Globo” e reclamava do Sarney. Um fusca verde passou com dois sujeitos dentro. Um deles olhou para mim como quem reconhece um erro.
Fui sequestrado, pensei. Alguém me jogou num delírio. Ou fui eu mesmo. A cidade parecia um vinil riscado, repetindo cenas que eu achava esquecidas. A livraria Ideal ainda existia. O cinema Icaraí exibia “De Volta para o Futuro II”. Eu entrei. Sentei-me na última fileira. Chorei quando o DeLorean voou.
Na saída, um homem me abordou. Terno marrom, gravata torta, cheiro de cigarro barato.
— Você é o Rafael?
— Sou.
— Você voltou.
— Voltei?
Ele sorriu. Me entregou um envelope. Dentro, uma foto minha aos 12 anos, com a camisa do Flu e um vinil dos Beatles na mão. Atrás, escrito à caneta: “Não se esqueça de quem você era.”
Corri. A cidade me engolia. Cada esquina era uma lembrança. O perfume de gasolina e sonho. Eu gritava “John!”, “George!”, “Paul!”, “Ringo!” como quem invocasse santos. Nada respondia.
Acordei de novo. No meu quarto. Em São Domingos. Ano 2025. A camisa do Fluminense era a de 2023, com patrocínio de uma fintech qualquer. O rádio tocava “Across the Universe”. Eu escrevi um poema:
“Fui criança sequestrada por mim mesmo, em Niterói, onde o tempo é um vinil riscado e os Beatles ainda tocam no rádio da saudade.”
Sorri. Era só um sonho. Ou talvez não.
Na estante, a foto que o homem me deu estava lá. Envelhecida. Real.