A Violência
É assédio.
Ela tortura.
Ela se casa.
Tem família e filhos.
Há 16 anos está refém dentro de casa.
Nem os olhos...
Nem a janela aberta.
Nem o pátio.
As crianças não brincavam.
Não se ouvia barulho.
Mas ouviam-se gritos de uma mulher,
sendo violentada.
Havia carro na garagem,
mas ele ia de ônibus para o trabalho.
Às seis da manhã saía para trabalhar.
E a esposa corria atrás de seu amante,
na madrugada.
O tempo passou.
Aquela menina que eu via,
depois de 16 anos,
tornou-se o retrato da mãe:
linda, a cara dela.
Teve liberdade para trabalhar,
fazer amigos
e conversar dentro do ônibus.
Então percebi
como ela cresceu.
O tempo passou.
Imagina quando o amor chegar para ela.
Será que o pai fará da vida dela uma prisão?
Será que ela terá de fugir
para viver sua paixão?
Ser bom até o ponto de se tornar um psicopata
não é amor.
Uma mulher refém dentro de casa,
com os filhos,
e o adultério nas madrugadas.
As surras...
justas ou injustas?
A Bíblia certamente diz:
"Quando casar,
deixará pai e mãe,
e formará sua própria família."
Mas naquela casa
ninguém visita.
Ninguém da igreja.
Ninguém conversa.
Ninguém canta.
Ninguém sorri.
Apenas uma casa
onde ninguém entra.
Nem os vizinhos.
Imagino que seja uma masmorra,
um amor tão insano
que aprisiona a própria alma.
Lamento pelos pais,
pelos irmãos,
todos vivendo longe,
isolados de qualquer pessoa.
Que profundidade existe
nesse falso amor perfeito?
Apenas mais uma mulher
que sofre uma prisão constante,
presa apenas
por um prato de comida.
Ela vale tão pouco
para ser refém
de um homem
que nem sabe
o que é família,
nem reconhece
o próprio trauma.
Vive ferido,
vive sozinho,
vive dentro de casa.
Mas, no fundo,
é ele quem está preso,
vazio,
porque nunca foi amado.
Por isso,
quando forma sua própria família,
transforma o lar
numa estrada
cheia de emboscadas.
Há prazer?
Há luxúria?
Ou apenas dor?
Tenho apenas minha mãe,
mas nunca a ouvi dizer:
"Jamais seja como teu pai."
Apenas a vida
e suas regras
ensinam a conhecer
quem realmente caminha ao teu lado.
Os anos chegam.
Os cabelos brancos aparecem.
Mas o mundo
continua repleto de felicidade.
E eu encontro
apenas caminhos
de amargura
e lamento.
Já não resta esperança.
Apenas reflito
sobre o dia
do meu último suspiro.
Talvez então
eu entenda
por que nasci.
Se a maldade
não faz o bem,
nem constrói religião,
imagino quando chegar
o momento
de dizer adeus.
Fui a minha melhor versão,
entre o bem e o mal.
Apenas deito
e adormeço.
Então surge
um lugar
de profundo abismo,
chamado,
talvez,
purgatório.
Ana Cristina Poronhak de Carvalho