Oi :)
Capítulo I - Aceite a Realidade!
Um som arranhado e abafado tocava ao fundo. Era o gramofone do vizinho, que reproduzia o ritmo proibido do mamaxixe.
Enquanto isso, nos fundos da velha casa, Fessília lavava suas poucas peças de roupa no tanque de pedra, cantarolando junto com a melodia distante. Sua casa era simples, torta. No quintal, em frente à lavanderia, erguia-se o pequeno milharal de onde vinha parte do sustento da família. Ao lado, um canteiro de alfaces viçosas e o galinheiro, onde as galinhas pedrês cacarejavam ao ver a dona.
Já estava tarde e o céu exibia um tom laranja vívido. No horizonte, nuvens pesadas indicavam que uma tempestade estava prestes a desabar.
— Menina! — a voz envelhecida da mãe gritou de dentro da cozinha. — Trate de entrar, que o feijão já está quase seco no fogo e esse tempo vai virar!
— Já vou, mãe! Só estou terminando de enxaguar. Preciso estender essas peças para que sequem até o amanhecer — respondeu Fessília, torcendo o tecido com força. — É a única roupa decente que tenho para me apresentar no emprego amanhã.
A mãe apareceu na janela por um instante, limpando as mãos no avental, com o cenho franzido:
— Ainda acho uma desfeita aqueles patrões ricos não fornecerem o fardamento. Nós, que mal temos o que comer, fomos obrigadas a gastar o que não tínhamos para te arrumar um tecido bom. Se você estragar sua única roupa de domingo logo no primeiro dia de serviço doméstico, não teremos dinheiro para outra.
— Não se preocupe, minha mãe. Já está de bom tamanho termos conseguido essa vaga. Assim que eu receber o meu primeiro salário, eu mesma compro um fardamento de criada e lhe devolvo cada tostão.
— Deus te ouça. Vou olhar as panelas antes que tudo queime — resmungou a mulher, sumindo para o interior da casa.
Fessília bateu a saia de algodão uma última vez antes de pendurá-la no varal de arame. O vento frio da tempestade que se aproximava começou a balançar as folhas do milharal. Ela parou por alguns segundos, perdida em pensamentos, observando o azul-escuro engolir o resto de laranja no céu.
— Às vezes... — sussurrou para si mesma, sentindo o peito apertar. — Eu queria ter nascido famosa. Ganhar a vida cantando, ter muito dinheiro e viver uma vida boa, sem o peso de todas essas preocupações.
— Pois trate de arrancar esse desejo tolo da cabeça, minha querida — a voz ríspida da irmã mais velha cortou o silêncio. Ela havia acabado de aparecer na janela, segurando um prato de metal. — É mais fácil definharmos na pobreza em vez de enriquecermos. Nascemos assim, pobres. Vamos morrer assim, pobres.
Fessília abriu a boca para rebater, mas a irmã a interrompeu com um gesto firme de mão:
— Contente-se com a realidade, Fessília. Mulheres miseráveis como nós não têm escolha na vida. Nosso destino é servir ao homem da casa e abaixar a cabeça. Agora entre, a mamãe mandou te chamar para jantar antes que o lampião apague.
A irmã deu as costas e saiu. No quintal, os primeiros pingos grossos de chuva começaram a estalar contra as folhas de zinco do telhado. Fessília continuou estática, encarando a escuridão que avançava.
— Servir ao homem da casa... — repetiu, com a voz ganhando uma firmeza que ela própria desconhecia. — Tenho certeza de que esse não é o meu destino.
E desafiando o trovão que ecoou nos céus, sua voz rompeu a noite em um canto poderoso.
[Corrigido pela IA]